sexta-feira, 1 de agosto de 2014

Algumas curiosidades dos bebês de peito: o cocô

Por Carlos González
In: Comer, amar e mamar. Madrid: Temas de hoy, 2009,  p.317-319.

Tradução: Sandra Costa e Luciana Freitas

O primeiro cocô do recém-nascido é bastante líquido, preto, pegajosas e é chamado de mecônio. Depois, durante alguns dias, o bebê faz as chamadas “fezes de transição”, muito líquidas e de cor cinza-esverdeado. Finalmente, aparece o cocô típico do bebê de peito, semilíquidas, com grumos ou fibras de mucosidade, de cheiro agradável (para o que se espera de um cocô...) e de cor amarelo-dourado (podendo, também, ser fabricadas em versões amarronzadas e esverdeadas).

Estas transformações refletem as mudanças na alimentação do bebê. No útero, o bebê não come nada (embora engula muito líquido amniótico) e o mecônio é o resultado da digestão das células da mucosa intestinal, que  descamaram durante meses (uma dieta exclusiva de carne humana).

Durante os primeiros dias depois do parto, o bebê mama pouco (não por falta de leite, mas porque tem que mamar pouco) e por isso suas fezes são aguadas. O cocô típico do bebê de peito indica que ele está tomando uma quantidade substancial de leite materno e é diferente das fezes dos bebês de mamadeira (normalmente mais espessas, mais escuras e que cheiram mal, às vezes dura, como bolas que não mancham a fralda).

Se com cinco dias de nascido o bebê ainda não faz o cocô típico, amarelo, com grumos e com a consistência de um purê, cabe suspeitar que ele não está mamando o suficiente. A suspeita precisa ser confirmada pesando o bebê; se está engordando bem, então, não, esse cocô na realidade está normal e não tem nenhuma importância. Quando, por qualquer motivo, o bebê (ou o adulto) não come o suficiente, pode voltar a fazer esse cocô muito líquido, cinza-esverdeado, que são deposições de fome. Isso explica porque muitos bebês têm otites e diarreia, resfriado e diarreia, amigdalite e diarreia... Não é diarreia verdadeira, mas sim cocôs líquidos porque, como estão doentes, perdem o apetite. Também se explica porque se abandonou o antigo costume de recomendar dieta para bebês ou adultos com diarreia. Se não comer ou se comer pouco, a diarreia se prolonga; comendo de tudo a diarreia se cura antes.

Durante as primeiras semanas, as fezes normalmente são muito frequentes. Os bebês fazem cocô a cada mamada (parece que não cabem as duas coisas num corpinho tão pequeno, para entrar alguma coisa é preciso colocar outra para fora). Mas alguns não fazem tanto cocô, só quatro ou cinco por dia. E outros fazem ainda mais cocô entre uma mamada e outra, inclusive, mais de vinte vezes ao dia.

Tudo isso é completamente normal, não é diarreia e, portanto, não se deve fazer nada: nem deixar de dar o peito, nem dar água, nem outros líquidos, nem medicamentos, nem nada. É difícil que um bebê que só toma leite materno tenha diarreia de verdade. Mas, claro, pode acontecer. A diarreia se verificar por uma mudança repentina nas fezes, muito mais líquidas e abundantes que no dia anterior, ou pela presença de outros sintomas, como sangue na cocô ou febre. Sem dúvida, muitas diarreias leves em bebês de peito passam completamente desapercebidas, afinal, qual a diferença entre seis ou oito cocôs por dia?

Depois, em algum momento entre um mês e meio e os seis meses de idade (alguns um pouco antes ou um pouco depois, embora seja mais frequente entre os 3 e os 5 meses de idade), os bebês que tomam exclusivamente leite materno passam por uma temporada em que quase não fazem cocô. Apenas os que recebem amamentação materna exclusiva; basta um pouco de leite de mamadeira para mudar as fezes.
Há algumas décadas, era poucos os bebês espanhóis que chegavam aos 3 meses com o peito, e menos ainda em amamentação exclusiva, então muitas mães e avós, assim como muitos pediatras e enfermeiras não sabem que isso é normal. Mas agora, que há cada vez mais bebês que tomam só peito e nada mais que o peito até os seis meses, vemos que, realmente, é raro que um bebê faça cocô todos os dias. A maioria faz a cada dois ou três dias, muitos deles a cada cinco ou sete dias. Se você frequentar um grupo de amamentação, provavelmente vai conhecer algum bebê que ficou dez ou doze dias sem fazer cocô. Pessoalmente, vi um bebê que ficou 23 dias sem defecar, e o doutor Newman (um especialista em amamentação que vê os casos mais estranhos de Toronto), viu duas crianças que ficaram mais de trinta dias.

E quando finalmente fazem cocô, este é completamente normal, semilíquido ou pastoso, como costumava ser antes. E fazem bastante cocô! Não pense em pesar o bebê antes e depois do cocô, porque você levaria  um tremendo susto! Tudo isso é perfeitamente normal, não é prisão de ventre. Repito, não é prisão de ventre porque eles não fazem bolas duras e secas. [...]

Entretanto, você encontrará alguns pediatras que não sabem que isso é normal e que vai querer tratar seu bebê como se estivesse com prisão de ventre. Algumas avós ou cunhadas podem enchem sua paciência, mas mantenha-se firme. Não é preciso dar ao bebê nem água, nem suco de laranja, nem outros sucos, nem chás de camomila ou de outras ervas, nem remédios naturais, homeopáticos, tradicionais chineses ou laxantes, nem outros medicamentos ou água de ameixa seca. Não deve faze lavagem, nem colocar supositórios de glicerina, nem de nenhum tipo, nem meter no bumbum do bebê um termômetro, nem talinho de salsa com azeite, nem um fósforo... Nada de nada.

Algumas mães garantem que seu filho está incomodado e choroso quando passar uns dias sem fazer cocô e que, quando faz, tudo melhora. Mas a maioria afirma que seu filho está super bem. É um pouco arriscado colocar em dúvida o que uma mãe está afirmando, porque quase sempre ela tem razão, mas, para mim, é bastante difícil que essas fezes moles, às vezes líquidas, possam causar dores ou incômodos sérios nos bebês. Na verdadeira prisão de ventre, sem dúvida, é chato: colocar para fora uma bola dura deve doer e é possível que comece a doer antes, antes que saia, a medida que vai passando pelo intestino. Mas um cocô moles? Acho que ao não fazer cocô, acontece a mesma coisa que com os dentes: colocam nele a culpa de coisas que são pura coincidência... [...]

Se o seu filho não está passando por essa fase, se continua fazendo cocô várias vezes por dia durante todo o período de amamentação, não há nada de errado, também é normal.

Se durante o primeiro mês ou um mês e meio ele não faz cocô várias vezes por dia, também pode ser normal, mas verifique o peso. Nessa idade, alguns bebês fazem pouco cocô porque não mamam o suficiente. Se o peso está aumentando o suficiente, não se preocupe.

Se desde o dia do nascimento seu filho passa vários dias sem fazer cocô, se não passou nenhuma temporada – curta ou longa – fazendo várias vezes por dia, consulte o pediatra. Pode ser normal, mas também pode ser causado por algum problema digestivo. Preste atenção: se pelo menos o bebê solta um punzinho, é um bom sinal.

Pseudo-constipação do lactante
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