quarta-feira, 4 de maio de 2016

Introdução de sólidos, por Carlos González

Quanto de comida devo oferecer? Como oferecer? E se meu filho não quiser? Devo substituir o leite pela comida pra que ele coma mais?
Essas e outras dúvidas, abordadas pelo pediatra Carlos González, um dos maiores defensores do aleitamento materno, em um trecho de seu livro "Mi niño no me come". 


Mi niño no me come. Madri: Temas de hoy, 2008, pp. 127-129; 133-135
Tradução de Luciana Freitas

As papinhas, um assunto delicado
As brigas entre mãe e filho em torno do peito ou da mamadeira podem ser terríveis, mas, felizmente, são pouco frequentes. O começo das papinhas é uma nova situação de perigo e devemos ir com cuidado.
A propósito, quando falamos “papinhas”, não nos referimos unicamente aos alimentos amassados que são dados com uma colher. Usamos o termo num sentido genérico, para nos referir a qualquer coisa que não seja o peito ou o leite da mamadeira, mesmo que seja tão líquido quanto um chá de camomila ou tão sólido quanto um biscoito.
Muitas mães se veem bombardeadas por tal quantidade de regras, regrinhas e regronas sobre a alimentação de seus filhos que, no final, estão com a cabeça estourando. Além das recomendações do pediatra e da enfermeira, às vezes muito mais detalhadas que as orientações dos especialistas, há as dos familiares, dos amigos e as mais difundidas crenças populares e impopulares, do alimento “muito pesado” até os que “fazem mal”.
Incapaz de seguir todas as regras de uma vez, as mães, com frequência, optam por ignorar tudo e fazer o que dá na telha... com o perigo de acabarem não seguindo exatamente uma daquelas regras importantes. Para evitar esse problema, vou diferenciar bem claramente, por um lado, os poucos pontos sobre os quais existe um consenso mais ou menos geral da sua importância (baseado numa combinação das normas internacionais) e, por outro, alguns conselhos que, pessoalmente, me parecem úteis (mas cada um tem sua opinião).

Alguns detalhes importantes
É importante ter em conta os seguintes detalhes, embora eles não devam ser tomados como um dogma:
1. Não obrigar nunca uma criança a comer. 
2. Até os seis meses, dar só peito (nem papinhas, nem suco, nem água, nem chás, nem nada).
3. Aos 6 meses, começar a oferecer (sem forçar) outros alimentos, sempre depois do peito. Os bebês que não mamam no peito precisam de meio litro de leite artificial por dia. 
4. Introduzir os novos alimentos um a um, distantes um do outro por, pelo menos, uma semana. Começar com pequenas quantidades.
5. Dar alimentos com glúten (qualquer alimento que leve trigo, aveia, centeio ou cevada) com precaução.
6. Escorrer bem os alimentos para não encher a barriga do bebê com a água do cozimento.
7. Não dar alimentos que costumam causar alergia (sobretudo leite de vaca e seus derivados, ovos, peixe, soja, amendoim e qualquer outro que dê alergia a algum membro da família) até os 12 meses.
8. Não colocar nem açúcar nem sal nos alimentos.
9. Continuar dando o peito até os dois anos ou mais.

“Oferecer” significa que se ele quiser, ele come; se não quiser, não come. Muitas crianças não querem nada além do peito até os oito ou dez meses, ou mais que isso.
As papinhas são oferecidas depois do peito, não antes, nem muito menos no lugar do peito. Só assim se tem a garantia de que seu filho tomará leite suficiente. Considera-se, habitualmente, que entre os seis e os doze meses, o bebê precisa de meio litro de leite por dia ou mais (naturalmente, é um número redondo e muitos bebês podem fica bem com menos que isso). Uma criança que toma mamadeira pode resolver o problema com duas mamadeiras de 250 ml por dia. Mas não é razoável esperar que uma criança mame 250 ml de leite a cada 12 horas; o peito encheria muito e seria desagradável para a mãe. É mais lógico que mame 100 ml cinco vezes por dia, ou 70 ml sete vezes ao dia. Claro, você não sabe (nem sabia antes de começar a dar papinha) quanto leite materno seu filho toma; mas se ele mama antes da comida você pode ficar tranquila.
Que comidas devo oferecer primeiro?
Não importa. Não há base científica para recomendar um alimento ou outro. Se você der ao seu filho fruta primeiro, depois cereais e mais tarde frango, estará seguindo as normas da ESPGHAN (Sociedade Europeia de Gastrenterologia e Nutrição Pediátrica). Mas se você der primeiro frango, depois verduras e mais tarde cereais, também estará seguindo as normas ao pé da letra.
Digamos que você decida começar pelo arroz. Faça o arroz fervido, bem cozido, sem sal. Pode colocar um pouco de azeite de oliva (ficará mais gostoso e mais calórico). Depois de dar de mamar, ofereça ao seu filho uma colherzinha ou duas. No primeiro dia não convém dar muito mais que isso, mesmo que ele aceite bem. Se não quiser nem a primeira colherada, não insista, mas volte a oferecer a cada um ou dois dias. Se ele sim quiser, você pode dar a cada dia um pouco mais. Depois de uma semana, você pode tentar outro alimento, como um pouco de banana amassada. Na semana seguinte, pode tentar a batata cozida... Esta ordem é só um exemplo, você pode invertê-la. Claro, se algum dos alimentos causar diarreia ou algum outro problema, ou se o bebê rejeitar com especial repugnância, é melhor não voltar a oferece-lo por algumas semanas. Se aparecer uma reação mais grave, como urticária, consulte o seu pediatra.
Também não é necessário introduzir uma comida nova a cada semana. Durante anos nos fizeram acreditar que a variedade é uma grande vantagem; não é mais que uma estratégia publicitária. Variedade significa um pouco de cereal, um pouco de legume, um pouco de verdura, um pouco de fruta... mas não é necessário que coma muitos alimentos de cada grupo, a maçã não tem nenhuma vitamina que a pera não tenha, e a maioria de nós, adultos, nos viramos bem comendo somente dois cereais, arroz e trigo, e deixando os demais para as vacas. Se o seu filho já come frango, não faz diferença dar carne vermelha. Antes de um ano, acrescentar muitos alimentos diferentes só significa comprar mais bilhetes para o sorteio de alguma alergia.
O principal motivo para dar outros alimentos aos seis meses (e não depois) é que o ferro pode faltar para algumas crianças. Portanto, parece lógico que os alimentos mais ricos em ferro estejam dentre os primeiros. Por um lado, as carnes, que contêm ferro orgânico, que se absorve muito bem. Por outro lado, verduras, legumes e cereais contêm ferro inorgânico, que se absorve mal a não ser que vá acompanhado de vitamina C. Por isso é uma boa ideia que eles comam como comemos nós, adultos: salada (verdura crua, rica em vitamina C), cereais e legumes, fruta de sobremesa. E, ao contrário, não é tão boa ideia o que fazemos com as crianças: dar numa refeição só cereais, em outra só verdura e legumes, em outra só fruta... Quando seu filho já comer vários alimentos, seria uma boa ideia combiná-los na mesma refeição, em vez de fazer refeições monográficas (“a hora da fruta”).
E se não quiser papinha?
Não se preocupe; é totalmente normal e cedo ou tarde vai comer outras coisas. Não tente forçá-lo.
Talvez alguém lhe diga para dar a papinha antes do peito para que assim ele tenha fome e coma bem. Isso não tem sentido, porque o leite materno alimenta muito mais do que qualquer outra coisa. Por algum motivo as papinhas são chamadas de “alimentação complementar”, pois não fazem mais do que complementar o peito. Se seu filho mama o peito e depois não quer a fruta, não tem problema, mas se come a fruta e depois não quer o peito, está perdendo algo. Mais fruta e menos leite é receita de emagrecimento.
O mesmo vale para o leite artificial: lembre-se de que, se ele não mama no peito, você deve oferecer ao seu filho meio litro de leite por dia até um ano. Não é bom diminuir o leite para que comam mais papinhas. 
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