quarta-feira, 4 de maio de 2016

O ferro e a anemia em bebês

"Se é verdade que nenhum bebê amamentado sofre escorbuto (por falta de vitamina C) ou pelagra (por falta de niacina), sim existem muitos que tem anemia por falta de ferro.", disse o pediatra Carlos González.

Mas o leite materno não é pobre em ferro? O leite materno atrapalha a absorção do ferro? O que o parto tem a ver com isso?


Essas e outras questões estão no texto abaixo, extraído do livro Un Regalo para Toda La Vida - Guía de Lactancia Materna, do pediatra Dr. Carlos González.

Tradução de Bel Kock-Allaman
Adaptado por Sarita Oliveira




Se é verdade que nenhum bebê amamentado sofre escorbuto (por falta de vitamina C) ou pelagra (por falta de niacina), sim existem muitos que tem anemia por falta de ferro.

O leite materno é pobre em ferro, mas esse ferro se absorve muito bem, melhor que o de qualquer outro alimento. O leite de vaca também é pobre em ferro e ainda por cima se absorve muito mal. E o leite de todos os mamíferos que já foram analisados é pobre em ferro. Quando uma mãe toma suplemento de ferro, a quantidade de ferro no seu leite não aumenta. O qual nos chama a atenção, porque se damos a essa mesma mãe aspirina, a quantidade de aspirina sim aumenta. Existe, ao parecer, um mecanismo biológico que impede, ativamente, que no leite exista demasiado ferro. Será que o excesso de ferro não é bom para os bebês? Dizem (mas não há provas) que o excesso de ferro no tubo digestivo poderia facilitar a diarréia, porque vários dos micróbios maus que produzem diarréia necessitam muito ferro para viver, enquanto que os micróbios bons, os lactobacilos que formam a flora digestiva dos bebês amamentados, podem viver com muito pouco ferro. Em uma série de estudos, os bebês saudáveis, sem anemia, aos que se davam suplementos preventivos de ferro, ao completar um ano pesavam e mediam um pouco menos que os do grupo de controle, sem suplementos de ferro. Parece que dar muito ferro a um bebê que não necessita não é de todo inócuo e talvez seja conveniente evitá-lo (estou falando dos que não necessitam. Se seu filho tem anemia e receitaram ferro, claro que você deve dar-lhe).

Se o leite tem pouco ferro, porque não tem anemia todos os bebês desde que nascem? De onde conseguem o ferro? De lugar nenhum, os bebês já nascem com reservas de ferro.
O ferro faz parte da hemoglobina, a molécula que transporta o oxigênio para o sangue. O feto toma o oxigênio do sangue da mãe, através da placenta. Imagine a placenta como uma rede, e dos dois lados os times jogam a bola. Aquele que fica com a bola ganha. Mas a natureza não pode permitir que a mãe ganhe esse jogo, se a mãe fica com o oxigênio, seu filho morre. De modo que existe um "trambique". O time do feto tem mais jogadores e são todos profissionais. O feto tem um tipo de hemoglobina especial, a hemoglobina fetal, que se engancha mais forte ao oxigênio que a hemoglobina normal. E além disso, tem um monte de glóbulos vermelhos, mais (por mililitro) que sua mãe e inclusive mais que seu pai (os homens adultos têm mais glóbulos vermelhos que as mulheres, mas o feto tem ainda mais).

O resultado é que quando nasce, o feto tem um monte de glóbulos vermelhos de sobra. Rapidamente se destroem não só os que sobram, mas todos, porque já não necessita hemoglobina fetal. E ao mesmo tempo se fabricam novos glóbulos vermelhos, com hemoglobina normal. A hemoglobina que é destruída se converte em bilirrubina, por isso alguns recém-nascidos ficam ictéricos (amarelos). Entre um e dois meses, ela alcança o ponto mais baixo, quando restam poucos glóbulos vermelhos fetais, mas ainda não se fabricaram suficientes glóbulos normais e o bebê tem uma anemia transitória, a anemia fisiológica do recém-nascido (fisiológico quer dizer que é normal, que não é uma doença).

O ferro daqueles glóbulos vermelhos restantes se armazena e se usa aos poucos para fabricar novos glóbulos. Assim que o grande problema é: quando durarão as reservas? Quando o ferro armazenado se acabar, o pouco ferro do leite materno será insuficiente e o bebê necessitará comer outros alimentos ricos em ferro.

Já faz muitas décadas foram feitos cuidadosos cálculos e chegou-se à conclusão que esses depósitos podem esvaziar-se entre os seis e os doze meses. Baseando-se nesses dados, é costume dizer que "a partir dos seis meses o ferro no leite materno é insuficiente e por isso é necessário introduzir a alimentação complementar". Mas, claro, isso é uma simplificação muito exagerada. O mais correto é dizer " A partir dos seis meses, alguns bebêm podem precisar de alimentação complementar, enquanto outros têm ferro suficiente só com o peito até os doze meses" (ou talvez mais). O problema é saber quem precisa de ferro e quem não.

Esses cálculos foram feitos numa época em que era costume cortar o cordão umbilical logo ao nascer. Hoje sabemos que é melhor cortá-lo alguns minutos depois e que assim diminuem os casos de anemia no primeiro ano de vida.

O cordão umbilical e a anemia

Desde já faz muitas décadas, é costume clampear o cordão umbilical com uma pinça assim que nasce o bebê, em questão de segundos. Isso se faz por temor a que o sangue da placenta passe para o bebê. De fato, o excesso de sangue no bebê pode produzir graves problemas, como trombose ou dificuldade respiratória. Imagino que esse temor tem um fundamento real: talvez um século atrás, alguém teve a idéia de deixar a placenta no alto, como um conta-gota, ou até exprimi-la bem para deixar o bebê cheio de sangue, com resultados desastrosos e então os médicos decidiram fechar o cordão imediatamente. Mas estudos modernos demonstram que o clampeamento rápido demais do cordão também dá problemas.

Quando se coloca o bebê sobre o corpo da mãe (que é onde tem que estar) e se espera uns três minutos para cortar o cordão o bebê recebe uns 30% mais de sangue, foi demonstrado que:

a) esse aumento moderado não é prejudicial para o bebê, não produz trombose nem afeta a circulação do sangue;

b) que as reservas de ferro aumentam e isso diminui a probabilidade de anemia nos primeiros doze meses. Isso foi comprovado tanto em bebês a termo como em prematuros. Assim que veja, muitas anemias em bebês menores de um ano, que dizem que é culpa do leite materno por ter pouco ferro e da mãe por  insistir com a amamentação, na verdade são culpa de quem cortou o cordão com tanta pressa.. A quantidade de ferro do leite materno é adequada, mas a natureza não previu que se inventariam pinças e tesouras. Evidentemente, na natureza nenhum animal põe pinça no cordão, eles esperam que ele pare de pulsar(em alguns minutos) e depois cortam com os dentes.

Comente com o seu GO o seu desejo em esperar que o cordão umbilical pare de pulsar antes de ser realizado o corte.


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