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sexta-feira, 5 de junho de 2015

Leite Materno não causa cáries


Amamentar não dá cáries, isso é um grande mito amplamente difundido entre os odontólogos, quem dá cáries é a mamadeira de LA. Muitos estudos tem demostrado que o aleitamento materno e a alimentação saudável são fatores que protegem contra a aparição de cáries. 
As cáries são uma doença multifatorial, o LM atua nesse caso como um fator protetor da boca e suas mucosas, porém deve ser sempre acompanhado de uma boa higiene bucal, com pelo menos uma escovação diária eficiente para crianças que já começaram sua introdução alimentar, acompanhada de uma alimentação livre de açúcares industrializados. 

Como prevenir as cáries:
Escovação, alimentação saudável livre de açúcares industrializados (incluindo os do LA, mucilon, bolachas, biscoitos etc.) e amamentação em livre demanda são condutas suficientes para prevenir a aparição de cáries em lactantes.

Amamentar à noite não só é normal mas necessário para o bebê, seja por fatores nutricionais ou afetivos, lembre que amamentar não é só alimentar a criança, e não é preciso ir aos extremos de desmamar na noite ou escovar os dentes após cada mamada para garantir que os dentes fiquem longe da cáries.

Para bebês em aleitamento materno exclusivo (AME) a limpeza da boca e língua é uma medida de condicionamento para costumar o bebê com a higiene bucal, só se faz obrigatória em casos de infecção por sapinho. Basta molhar uma gaze com água filtrada e limpar gengivas e língua com delicadeza.

Recomendamos esse resumo:
https://www.facebook.com/photo.php?fbid=316381891802920&set=a.313465942094515.73832.154050994702678&type=1

Aqui alguns artigos sobre o tema

Feeding habits as determinants of early childhood caries in a population where prolonged breastfeeding is the norm.
http://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/19145723


Association between prolonged breast-feeding and early childhood caries: a hierarchical approach.
http://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/22725605

sexta-feira, 27 de março de 2015

Alternativas à mamadeira


Muitas mães pensam que na volta ao trabalho, ao deixar o bebê aos cuidados de terceiros ou na introdução de outros líquidos (leite artificial, água, sucos, etc), a mamadeira é a única opção, mas ela está longe de ser a única e é, de longe, a PIOR opção para a manutenção do aleitamento materno e para a formação da musculatura orofacial do bebê.
A mamadeira causa confusão de bicos, pois o movimento que o bebê faz na mamadeira é diferente do que o bebê faz no peito. Por consequência, o bebê desaprende a mamar, prejudicando a produção de leite e podendo passar a rejeitar o peito.
 

Existem algumas opções seguras para se oferecer o LM ou outros líquidos, sendo a mais barata e acessível, o copinho de cachaça. Adotar estas alternativas parece algo desafiador, afinal, a cultura do desmame está arraigada no senso comum, depois de décadas de um exaustivo trabalho de marketing promovido pela indústria de leites artificiais. Na prática, sabe-se que oferecer líquidos para o bebê que não no peito demanda um pouco de treinamento da dupla cuidador-bebê e muitas vezes é mais desafiador para o cuidador do que para o bebê.

O movimento de sorver o leite com a língua é inato e é o mesmo utilizado para ordenhar o peito, portanto, se o líquido for oferecido da forma correta, em pequenos goles despejados na boca do bebê ou apenas encostado na língua, o processo se desenrola de forma relativamente simples e, com a prática, tudo passa a ser tão natural que é como se os bebês tivessem nascido sabendo! Ao sorver os leite desta forma, o bebê exercita a musculatura que utilizará para a mastigação, gozando de um melhor desenvolvimento orofacial, que traz benefícios à fala, nutrição e respiração.
 

O risco de engasgo ao se oferecer líquidos fora da mamadeira também é menor, já que o bebê passa a ter maior controle da quantidade ingerida e permanece com a boca desobstruída para eventualmente colocar pra fora alguma quantidade a mais que tenha caído na boca.
Voltar ao trabalho e manter o aleitamento é possível e é a opção mais barata para a família e saudável para o bebê, que pode receber um alimento de menor custo e melhor qualidade na ausência da mãe. Para isto, sugerimos que a mãe comece a se organizar com antecedência, fazendo o seu estoque de LM (leite materno) e adaptando o bebê ao novo cuidador e a receber o leite em uma das alternativas a seguir.




Copo ou xícara de vidro



São a primeira opção porque nelas o bebê não vai sugar, mas sim sorver o líquido usando a língua como fazem os gatinhos. Aos poucos, o bebê também vai aprendendo a manusear o copo da forma como fazem os adultos, ou seja, dando goles maiores com ajuda dos lábios, empurrando o líquido para a garganta com ajuda da língua.
Devem ser preferencialmente, mas não necessariamente, transparentes. A transparência serve para que o cuidador possa observar se o bebê está posicionando corretamente a língua e se o lábio inferior fica virado para fora, e quanto de líquido há dentro do recipiente.
Podem ser pequenos, como copos de cachaça ou xícara de café, ou maiores, como copos de requeijão ou xícaras de chá. Por serem de fácil acesso (praticamente todas as pessoas já os tem em casa), o cuidador pode testar os diferentes modelos para descobrir ao que melhor se adaptam.
São preferíveis os de vidro ou louça por serem mais fáceis de higienizar e esterilizar.


Copos diferenciados sem bico


São os copos chamados 360º, possuem uma válvula de silicone em que o bebê pressiona a tampa com o lábio superior e o líquido sai sem necessidade de sugar. Estes são menos acessíveis, mas são boas opções por não se proporem a imitar o bico do peito, ao mesmo tempo, não envolvem movimento de sucção.
A limpeza deste tipo deve ser feita cuidadosamente, algumas marcas possuem peças difíceis de higienizar.
Existem também copos de treinamento no estilo do 360, porém sem válvula (ver imagem). Nestes, há uma tampa abaixo de onde o bebê coloca a boca, que serve somente para controlar o volume liberado. O uso é similar ao uso do copo comum, apenas o volume de líquido liberado é menor. Esta tampa intermediária pode ser retirada. Os copos térmicos para café são alternativas similares, conforme imagem.


Colher comum ou colher-dosadora 


Também não precisam envolver sucção do bebê durante o uso.
A colher dosadora tem a vantagem de já armazenar dentro de seu corpo o leite que será oferecido, enquanto a colher comum precisará ser continuamente enchida, conforme o bebê terminar cada dose, até conseguir tomar o total de leite separado para aquele horário de alimentação.
A colher comum é de fácil acesso, por ser encontrada em praticamente todas as casas, o cuidador pode também testar os diferentes modelos e formas de oferecer, sem risco de desperdiçar muito leite.


Copo de treinamento com bico duro, sem a válvula 


Esta é uma das opções menos segura, deve ser utilizada somente para treinamento e nunca deve ser utilizada pelo bebê sozinho.
Nele, apesar do bebê iniciar o processo apenas engolindo o leite derramado na sua boquinha pelo cuidador, aos poucos percebe que pode sugar para aumentar o fluxo ou mesmo morder o bico. O uso diário, constante e por tempo prolongado pode acabar acarretando em problemas na formação da arcada dentária e fazendo com que o bebê repita estes movimentos no seio, prejudicando a pega, causando dor durante a amamentação ou aumentando a quantidade e força das mordidas no seio. Ainda, pode deixar o bebê eventualmente irritado ao seio pela demora em descer o leite.
Assim, recomenda-se que esta opção seja utilizada como alternativa somente enquanto o bebê aprende a utilizar outras formas mais seguras e deve ser sempre manuseado pelo cuidador, que deve derramar pequenos goles na boca do bebê, evitando que ele sugue ou morda o bico.
Se o copo possuir válvula anti-vazamento, ela deve ser retirada, para que não haja confusão entre a forma de sugar o peito e a forma de sugar o copo (com a válvula o bebê acabaria precisando sugar com força para o leite sair).
Recomenda-se, também, que o vácuo seja diminuído para desestimular que o bebê sugue - sem vácuo, o líquido sai mais facilmente sem necessidade de sucção e a sucção torna-se ineficaz. Alguns copos já possuem este vácuo reduzido, mas isto pode ser feito furando a tampa no lado oposto ao bico, com algum objeto metálico pontudo aquecido (como um clipe de papel).


Seringa ou conta-gotas 


Também não são opções totalmente seguras, por isto, recomenda-se que sejam utilizadas em situações emergenciais e por curtos períodos, somente enquanto se treina para que o líquido seja oferecido em uma outra alternativa.
A seringa ou o conta-gotas devem ser colocados no canto da boca, apontando para a bochecha. O posicionamento desta forma é importante para que o bebê não sugue o líquido, por isso, nuca devem ser colocados entre os lábios ou no meio da boca. O cuidador deve apertar levemente o êmbolo da seringa ou liberar o líquido do conta-gotas aos poucos, aguardando o bebê engolir antes de depositar uma nova quantidade na boca.
Não se deve oferecer o leite (materno ou artificial) na seringa ou conta gotas em associação com o ato de sugar o peito ou até mesmo o dedo. A associação entre a sucção e o fluxo da seringa/conta-gotas pode fazer o bebê começar a rejeitar o peito, por estranhar o fluxo inconstante e mais lento.
No geral, tanto a seringa quanto o conta-gotas são descartáveis, mas existem modelos que podem ser reutilizados. Neste caso, siga as orientações do fabricante para fazer a higienização. 


Obs.: os preços foram consultados pela internet em sites de venda online. Procuramos pelos modelos mais simples, então os valores podem ser diferentes se a opção escolhida tiver mais detalhes, desenhos de personagens infantis etc. e também levando em conta a variação de preços de acordo com a região do país.

quarta-feira, 18 de março de 2015

O que acontece com os músculos bucais quando um bebê usa qualquer bico artificial (chupetas, mamadeiras, bicos de silicone)

Por Fernanda Rezende Silva e Zioneth Garcia

Muitas pessoas não entendem porque a chupeta pode causar desmame, afinal chupeta não serve para alimentar o bebê como a mamadeira. Vamos fazer uma comparação para entender o que acontece nestes casos.
Imagine que você é um atleta que pratica o esporte EXP e você precisa malhar a panturrilha para conseguir o máximo de performance no seu esporte. Ok, você sabendo disso vai investir na malhação da panturrilha, mas num belo dia você pensa "vamos engrossar a coxa", aí você começa a malhar a coxa também. Deu certo, você não viu nenhum prejuízo imediato, aí você pensa "vou continuar". Não dá para dobrar o tempo de malhação (seria esforço demais) então ao aumentar o tempo da coxa automaticamente você diminui o da panturrilha. Nisso se passam algumas semanas e você está feliz malhando cada vez mais a coxa e menos a panturrilha. O problema é que depois desse tempo sua performance no esporte diminuiu - você começa a ficar preocupado, procura consultorias esportivas e ouve o que já sabia mas achava que não iria acontecer com você: "precisa malhar SÓ a panturrilha, investir todo seu esforço nela, senão os músculos dela vão perdendo a força e logo você não vai mais conseguir exercer o esporte EXP". 
Você resolve voltar a exercitar só a panturrilha, investindo todo o seu tempo de malhação nela e... Sente MUITA dor, afinal os músculos dela estavam sendo pouco exercitados. Você chora de dor, de arrependimento, e neste momento você precisa tomar uma decisão importante: vencer a dor, voltando a malhar a panturrilha com dedicação, ou desistir do seu esporte. Você que é adulto, consciente, pode se forçar a esse trabalho e tem chances de corrigir o problema - agora pense: e se fosse um bebê? 
O esporte descrito acima não existe, mas a situação pode acontecer: se você deixar de exercitar um músculo ele perde o tônus e aí quando for preciso usar este músculo novamente você pode ter dificuldade ou até mesmo sentir dor. A comparação que queremos fazer é com o uso por bebês de bicos artificiais (mamadeiras, chupetas e bicos de silicone) e a sucção do peito. Quando um bebê suga o peito da mãe ele está exercitando principalmente os músculos usados na mastigação, movimentando toda a mandíbula (imagine você pronunciando a sílaba AE - é este movimento que o bebê faz para sugar no peito). Quando um bebê suga bicos artificiais ele exercita os músculos usados ao assoviar - um grupo restrito que apenas consegue realizar um movimento curto (imagine você pronunciando a sílaba UI - é este movimento que o bebê faz para sugar bicos artificiais). Cada vez que o bebê suga um bico artificial ele está deixando de sugar o peito, ou seja, ele está investindo seu esforço de sucção nos músculos errados. Aos poucos o bebê começa a ter dificuldades em sugar o peito da mãe, porque os músculos envolvidos nesta tarefa estão caindo em desuso. Aí a mãe pensa: "mas eu continuei oferecendo o peito!". Ok, mas é claro que se o bebê usa qualquer outro bico ele passa menos tempo no peito do que deveria, e o estímulo dos músculos da sucção do peito vai diminuindo. Chega um momento em que o bebê começa a sugar o peito como se fosse a mamadeira/chupeta - ele pode até obter algum leite mas não faz uma mamada efetiva. Os músculos envolvidos na sucção do peito vão cada vez mais perdendo o tônus até que chega um momento em que mamar no peito se torna uma tarefa muito difícil - o bebê demonstra esta dificuldade rejeitando o seio.
Se entendemos esta questão dos músculos fica mais fácil compreender porque bebês que só usam chupeta (não usam mamadeira) também desmamam, ou seja, a chupeta sozinha é capaz de causar desmame, já que ela também provoca essa alteração de músculos trabalhados. Isso também explica porque mamadeiras não devem ser usadas nem para tomar água: o problema da mamadeira não é o conteúdo, é o tipo de sucção incorreto que ela provoca.
Ao entender que a alteração do tônus dos músculos é gradual também conseguimos entender porque a maioria dos desmames não acontece de um dia para o outro: os músculos vão perdendo o tônus devagar, não é de uma hora para o outra que um músculo perde a força a ponto de ser difícil utilizá-lo (pode levar meses) e é claro que muitos fatores influenciam a duração desse processo até chegar ao desmame (idade do bebê, tempo de uso de bicos artificiais, uso de mais de um tipo de bico, etc.).
Você pode estar se perguntando neste momento: se os músculos errados são exercitados e todo o corpo da criança está em formação então isso pode ter mais efeitos além da amamentação. Sim, a arcada dentária pode ser prejudicada, a fala e até a respiração - é aí que começam problemas como a respiração bucal, que só serão diagnosticados anos mais tarde, quando ninguém mais se lembra dos bicos artificiais.

Referência: 
- Pesquisa mostra que copo deve substituir mamadeira: https://www.facebook.com/notes/167481276637578/

sábado, 7 de março de 2015

Porque alguns sites e blogs não vão te contar que mamadeiras e chupetas causam desmame e muitos outros prejuízos

Por Moderadoras do GVA

Logo que você se descobre grávida começa a procurar na internet tudo que possa lhe ajudar: busca informações, pesquisa produtos, e acaba descobrindo alguns sites e blogs maternos com os quais você mais se identifica. Alguns vão lhe sugerir uma lista de compras para o enxoval - se você for mãe de primeira viagem a tendência é escolher a maior lista (mesmo se seus amigos lhe avisarem que metade daquilo será inútil) afinal você pensa que dessa forma está fazendo o melhor pelo seu bebê - tem sempre aquela conversa de que "não foi útil para fulano mas pode ser útil para mim". Ok, bebês precisam mesmo de alguns itens, mas é inegável que a indústria da maternidade lucra muito com mães inexperientes e tenta enfiar goela abaixo várias invenções que de fato não servem para nada ou até podem prejudicar o bebê. Aí vem o primeiro susto: "se é algo que prejudica então não deveria ser proibido?" - pois é, deveria, mas o caminho que se percorre até conseguir uma proibição pode levar décadas e enquanto isso nós e nossos bebês continuamos sendo cobaias.
Chega então um momento em que você já tem alguma malícia para perceber se um item é desnecessário - já sabe, por exemplo, que seu bebê não precisa de um penico que tenha um tablet acoplado. Maravilha - isso já evita muito desperdício - mas você ainda tem dúvidas sobre alguns itens, como chupetas e mamadeiras, então pensa: "vou pesquisar naquele site (ou blog), pois é mantido por profissionais de saúde, então deve ser sério". Você encontra muita informação de qualidade neste site e fica feliz por poder contar com ele. Você acha estranho algumas propagandas no canto da tela mas pensa "eles precisam ter alguma forma de ganhar dinheiro para manter este site". Seria tudo muito lindo se o objetivo fosse SÓ manter o site - na verdade o site tem parceiros comerciais e por isso não pode falar mal dos produtos que estes parceiros vendem. 
É isso mesmo que você leu - o site não pode falar mal dos produtos que os parceiros vendem, afinal isso limitaria (ou até atrapalharia) as vendas desse parceiro comercial. Dando nomes aos bois: um site que tem parceria com empresas que vendem mamadeiras e chupetas nunca vai te contar que mamadeiras e chupetas podem causar desmame precoce e muitos outros prejuízos ao bebê (deglutição atípica, problemas na fala, problemas respiratórios, desordens do sono, problemas posturais, distúrbios alimentares e psicopedagógicos, deformidades esqueléticas e maloclusões dentárias, maior risco de infecções, alergias, cáries, etc.) - ao contrário, ele pode até mesmo escolher pesquisas científicas duvidosas para lhe dizer que chupeta "previne a morte súbita" (não caia nessa hein) ou dizer que mamadeira depois de 6 meses não causa desmame (causa sim, e muitos). Podemos ir um pouco mais longe? Bebês desmamados geram muito lucro: consomem leite artificial, mamadeiras, chupetas, esterilizadores de mamadeiras, escovas de lavar mamadeira, prendedores de chupeta, etc.Não se assuste - nada disso que falamos aqui fere as leis brasileiras, logo as empresas não estão fazendo nada oficialmente errado. Como é possível então obter informação de qualidade, sem interesses financeiros? Busque evidências científicas e grupos/sites/blogs realmente voluntários - estes sim estão fazendo um grande trabalho pelo bem dos bebês, sem ganhar nada em troca - aliás, ganham sim: cada mãe que conta "tirei a mamadeira/chupeta e evitei o desmame!" representa uma medalha de vitória, é motivo de orgulho, dá forças para seguir com o trabalho adiante!

Perguntas frequentes:
1) Chupeta não é melhor que dedo? Não, não é - veja:
http://grupovirtualdeamamentacao.blogspot.com.br/2015/01/se-o-bebe-esta-chupando-o-dedo-o-que.html
http://grupovirtualdeamamentacao.blogspot.com.br/2014/07/a-chupeta-o-que-toda-mae-e-pai-deveria.html

2) Mamadeira é ruim até depois dos 6 meses? Sim, é muito ruim - veja:
http://grupovirtualdeamamentacao.blogspot.com.br/2014/06/uso-de-mamadeira-e-prejudicial-em.html
http://grupovirtualdeamamentacao.blogspot.com.br/2013/11/confusao-de-bicos-artificiais-por.html

3) Como oferecer água e sucos sem mamadeira? Existem várias alternativas, como os copinhos de bico rígido, colher, colher-dosadora:
https://www.facebook.com/media/set/?set=oa.276411499141800&type=1


segunda-feira, 19 de janeiro de 2015

Relato de Amamentação da Mariana, mãe da Isabel


Acréscimo feito em novembro de 2017:
O relato que você vai ler agora é o relato do que não deveria ter acontecido. Na verdade, do que não precisava ter acontecido. 

Na época, eu acreditei no que diziam os meus médicos: eles disseram que eu deveria escolher entre a amamentação e o meu tratamento. Foi por isso que eu suportei a dor por tanto tempo; foi por isso que eu quase morri e comprometi minha saúde a ponto de carregar sequelas até hoje. Foi por isso também que eu desmamei abruptamente a Isabel quando notei que eu morreria se não me tratasse; o que também gerou nela traumas emocionais com que temos que lidar até hoje.

No GVA eu descobri que nada disso seria necessário: todos os remédios de que eu precisava eram compatíveis com a amamentação! Até mesmo aquele que, na época em que escrevi o relato, eu ainda achava que precisaria esperar para tomar. Não precisaria.

Se você chegou a esse relato porque um médico te disse que precisa desmamar para se tratar, te peço para dar uma olhada no www.e-lactancia.orge verificar a compatibilidade dos remédios antes de decidir. Você e seu bebê não precisam passar pelo que eu e a Bel passamos.

Segue agora meu relato:


Eu nunca me vi como alguém que lutou para amamentar. Também nunca vi nenhuma das minhas posturas como sacrifícios... Para mim é tudo tão obvio: a prioridade é sempre o bebê. Então, nada mais natural do que abrir mão do que possa vir a fazer mal para ele. Foi com esse pensamento que, ao descobrir que eu estava grávida, parei de beber, de alisar o cabelo e de tomar meus remédios. Simples assim.

Quer dizer, não foi tão simples assim parar o remédio. Eu simplesmente senti repulsa do meu remédio. Enjôo mesmo, antes de saber que estava grávida. Assim, no terceiro dia em que eu vomitei o comprimido inteirinho, decidi não tomar mais. Poucos dias depois, descobri a gravidez e aí entendi que meu corpo estava defendendo meu bebê. Passei a usar homeopatia com muito sucesso.

Minha filha nasceu num lindo parto domiciliar, mamou na primeira hora. Nunca tive nenhuma dificuldade com pega, falta de leite, bico rachado. Amamentar, para mim, sempre foi algo muito simples, natural e gostoso...e demorado!

Demorado porque Isabel passava mais, muito mais tempo agarrada a mim do que fazendo qualquer outra coisa. Haja sling, cama compartilhada e TV sem som!

Demorado porque chegamos aos 2 anos e 3 meses dela em franca amamentação. Isabel mamava muito quando estava comigo. Mais ou menos por essa época, entretanto, ela pediu para dormir no quartinho dela. Eu achei que este seria o fim da cama compartilhada mas...

Mas eu tive uma briga feia com meu marido, que resultou na saída dele de casa. Não sei se por perceber meu sofrimento e solidão ou se por demanda dela mesma, mas o fato é que a partir deste episódio ela voltou a dormir comigo. E voltou a mamar muito à noite.

Com o emocional em frangalhos, descuidei dos horários das minhas bolinhas de homeopatia. Resultado disso? Uma crise violentíssima do meu até então adormecido lúpus.

Não posso continuar este relato sem falar um pouco da minha doença. Sofro de Lúpus Eritematoso Sistemico (LES) desde os meus 16, 17 anos. Essa doença pentelha me causa muita dor articular, manchas feias pelo corpo, queda de cabelo e uma infinidade de outros incômodos. Dói muito. Muito mesmo.

Além dos sintomas aos quais eu já estava acostumada, dessa vez tive meus músculos atacados, perdi massa muscular, senti muita dor e fiquei muito fraca. Tive uma desidratação violenta, meus rins funcionaram mal, pulmão e coração ficaram debilitados. Eu tinha falta de ar todos os dias, taquicardias assustadoras, sensação de desfalecimento ao mínimo esforço. Tudo isso tendo que cuidar da Isabel sozinha, sem marido, triste como nunca. E amamentando!

Não procurei meu reumatologista porque sabia que ele me mandaria voltar pros remédios fortes que me impediriam de amamentar. Adiei o máximo que eu pude esse retorno. Eu sabia, eu sentia que Isabel precisava ainda mamar. Fui levada às pressas para o hospital por duas vezes, fui atendida na emergência e voltei para casa porque queria continuar amamentando minha pequena. Nesse estágio, amamentar era a única coisa que eu ainda conseguia fazer por ela, pois fraca e sentindo fortes dores, não conseguia mais pegá-la no colo, nem banhá-la, nem a pôr para dormir. Nem nada. Minha família se revezava na minha casa para me ajudar com tudo, absolutamente tudo. Eu não conseguia mais cuidar de mim...ou dela.

Um dia, enquanto ela mamava, senti meu corpo desfalecer. Achei que morreria ali, com minha filha sugando o que restava da minha vida. Rezei baixinho, pedi a Deus que me deixasse ficar um pouco mais aqui na terra. Pedi a Ele que não deixasse minha Isabel sem mãe tão cedo. Eu sabia que ela mamava pedindo a mesma coisa. Eu sabia que o peito, naquela hora, era para ela o desejo de ainda ter mãe.

Eu precisava desmamar. Eu precisava viver.

Foi a decisão mais dura que já tomei. Foi a decisão mais difícil da minha vida. E a mais solitária também. Ninguém entende uma mãe de filha grande que, vendo a morte tão de perto, tem dúvidas sobre voltar a tomar os remédios. Chorei. Minha alma chorou. Desmamei. Abruptamente, como não imaginei que aconteceria nem em pesadelos.

Disse para a Isabel que a mamãe estava muito doente, mas que a mamãe queria ficar boa. Disse que, para ficar boa, a mamãe ia precisar tomar um remédio que estraga o leite. Pedi que ela mamasse pela última vez, para se despedir. Nunca vou esquecer os olhinhos dela me mirando fixamente naquela “última mamada”. Não teve choro, não tivemos testemunhas. Ela esvaziou, pela primeira vez, as duas mamas e me disse “Pronto, mamãe! Pode tomar o remédio.” Eu tomei um comprimido qualquer, apenas para finalizar o ritual.

Essa noite foi difícil. Minha filha chorou muito a noite toda pedindo o peito. Pedindo para “beber mamá”. Eu chorava no meu quarto. Chorava a dor no corpo, chorava a injustiça de não poder amamentar. Chorava o peito que transbordava de um leite que não podia ser da minha filha. Chorava o medo da morte. Choramos as duas por toda aquela dura noite.

No dia seguinte fui levada ao hospital...dessa vez não saí de lá.

Os primeiros dias no hospital foram de muito sofrimento físico. A dor era tanta, por todo o corpo, que eu não conseguia lembrar direito que tinha uma filha. Lembro de ter implorado a Deus que me levasse. Chega desse sofrimento. Lembro de ter gritado, de ter chorado. Lembro de não melhorar. Lembro que, em algum lugar da minha alma, sentia haver nesse mundo menininha que me chamava de mamãe...e que isso era razão para lutar por uma vida que parecia não querer ser mantida.

Lembro também que comemorei quando finalmente me deram os tais remédios dos quais havia fugido pro tanto tempo. Por uma infeliz ironia, eu agora não conseguia querer outra coisa que não fossem justamente aqueles remédios. Os peitos pareciam tão vazios de leite quanto o corpo estava vazio de vida.

Foi no oitavo dia de internação que aconteceu o inesperado. Eu estava tomando meu café da manhã, sozinha no quarto quando de repente os peitos encheram. Transbordaram ao mesmo tempo! Dois jatos de leite saindo sem parar, me lembrando que eu era mãe, me lembrando que eu era nutriz...cruel lembrança. Esse leite não alimentaria ninguém. Esse leite não servia para nada.

Lágrimas, muitas lágrimas nos olhos e na alma. Ordenhei ali mesmo e enchi dois copos. Me socorreram. Aos prantos, fui levada para a maternidade do hospital, onde ordenhei mais uma mamadeira cheia em cada seio. Tanto leite, tanta fartura...e minha Isabel tão longe de mim.

Foram mais 12 dias internada depois deste único episódio. Vinte dias ao todo. Vinte dias sem ver minha filhinha. Uma amiga me levou uma homeopatia para “secar” o leite. Decidi não tomar. Meu corpo saberia o que fazer.

Quem já passou algum tempo longe dos filhos será capaz de entender a emoção do reencontro. O que ele tem a ver com o meu relato? Nada! Mas não posso deixar de contar que abraçar a minha filha depois daquela longa internação foi como encontrar o paraíso depois de ter estado no inferno. Encontrei uma Isabel tão diferente! Maior, mais falante. Mas ainda assim, minha!

Já em casa, ainda fraca, recuperando-me, tive que lidar com o rostinho da minha Isabel pedindo para mamar. Meu peito sempre cheio, roupas molhadas como se eu fosse uma puérpera. Choro dela, choro meu. Dias duros. Dor doída. Dor profunda que não desejo a ninguém.

Nesse meio tempo meu marido voltou para casa. Estamos até hoje tentando nos reencontrar, tentando reencontrar aquele amor tão lindo que eu sei que está por aqui em algum lugar.  Deve estar só um pouco empoeirado...

Três meses se passaram.

Um dia, passei mal a caminho do trabalho. Quase me arrastando, fui para o serviço médico do meu trabalho. Socorrida, fui orientada a procurar minha médica pois eu estava tendo sintomas de superdosagem de medicamento.

No dia seguinte minha médica me atendeu no hospital. Refez os exames e, surpresa das surpresas, estavam quase todos normais! Milagre? Eu acredito neles! Como meus remédios são fortíssimos, não podem ser retirados do organismo de uma só vez. Começaríamos o que costumam chamar de “desmame”. Ironia semântica...

Cheguei em casa e Isabel já dormia. Quando ela me viu no dia seguinte, perguntou imediatamente “Mamãe, já posso mamar?”

-Não sei, minha filha. Vou perguntar para a minha médica.

Poder, não podia. Dos sete medicamentos que eu ainda tomava, havia um sobre o qual não havia estudos relativos à amamentação. Seria arriscado, não se sabe o que aconteceria. Pedi para parar de tomar aquele remédio.

A médica, mesmo sem entender minha insistência, disse que poderíamos adiar (desde que não por muito tempo) aquela parte do tratamento. Foi com lágrimas nos olhos e calor na alma que recebi aquela notícia. Guardei segredo.

Na tarde do dia primeiro de fevereiro de 2013, estávamos só nós duas em casa. Isabel de banho tomado, dente escovado, pronta para dormir. “Mamãe, posso mamar?”

-Pode, minha filha!
-De verdade?!?!?!
-De verdade! A médica deixou.

Ela abriu minha blusa lentamente. Olhou meu seio demoradamente, acariciou...olhou para mim e sorriu. “Vai, filha! Mama!” Ela beijou o mamilo. Encostou a boquinha e me perguntou “Pode mesmo?” “Pode, meu amor!”

Foi um recomeço desajeitado...aquele tempo sem mamar fez com que ela esquecesse como se faz. Pela primeira vez nas nossas vidas, a pega estava errada. Doeu! Trinquei os dentes, fechei os olhos. Essa dor é fácil suportar!

Não sei quanto tempo ficamos ali deitadas. Sei que era dia quando começamos e noite quando ela, já dormindo, largou o peito. Quem se importa com horas, minutos? Como se preocupar com o tempo quando aquele seio há tanto abandonado reencontrou aquela boquinha amada? O cheirinho doce do cabelo molhado da minha Isabel entrando pelas narinas, minha vida novamente circulando para o corpo dela. Meu leite novamente útil! Eu, novamente MÃE.

Esse relato termina sem fim. Espero poder, daqui a pouco (ou muito!) relatar um desmame natural como eu sempre desejei e como minha filha merece. Espero poder dizer que minha doença foi controlada. Por enquanto, só posso dizer que minha filha reaprendeu a mamar. As feridas ainda existem nas nossas almas e na nossa memória, mas estão se curando.

Aos críticos, digo apenas que nós duas sabemos que a amamentação ainda é necessária. Mamando, minha filha supera a longa ausência da mãe dela. Mamando, recuperamos um tempo perdido. Mamando seguiremos até onde der...ou até que não precisemos mais.

domingo, 18 de janeiro de 2015

Se o bebê está chupando o dedo, o que ele pode estar querendo dizer?

Uma abordagem ampla sobre a etiologia e prevenção do hábito de sucção digital baseada em evidências multidisciplinares.
Por Andréia Stankiewicz, cirurgiã-dentista, especialista em odontopediatria e ortopedia funcional dos maxilares. Dentista na clínica Vivavita – Odontologia & Saúde. Membro da ABONAM (Associação Brasileira de Odontologia Neonatal e Aleitamento Materno) e NEOM-RB (Núcleo de Estudos em Ortopedia dos Maxilares e Respirador Bucal). Moderadora do Grupo Virtual de Amamentação (GVA). Mãe da Luiza (4 anos) e do Pedro (2 anos). Pesquisadora, amante e praticante da maternidade ativa e consciente.
Publicado originalmente aqui.
- Eu sou normal!
Ainda durante a vida intra-uterina, instintivamente, o feto suga lábios, língua e dedos, de modo que estas funções encontram-se plenamente desenvolvidas ao nascer[1]. A sucção digital em fetos é considerada um reflexo necessário ao recém-nascido para sua sobrevivência.
Os hábitos bucais normais de fonação, mastigação, deglutição e sucção têm papel importante no crescimento crânio-facial e na fisiologia do sistema estomatognático. A sucção é considerada um reflexo inato, desenvolvido ainda no útero[2], e fundamental para a amamentação e para o desenvolvimento psicológico. Assim, esse reflexo torna-se importante para a instalação dos hábitos normais de um ser humano[3].
Sendo um reflexo, a sucção é involuntária e faz parte dos movimentos fetais e de recém-nascidos. Como o reflexo de preensão palmar desaparece a partir do terceiro ou quarto mês, o recém-nascido passa a ter movimentos voluntários, facilitando, portanto, a aquisição de um hábito com características voluntárias que pode persistir, ser modificado ou desaparecer[4].
A persistência da sucção de dedo não é freqüente em crianças bem amamentadas[5, 6]. Mais de 80% das crianças que recebem aleitamento materno exclusivo nos primeiros seis meses de vida não apresentam hábitos de sucção patológicos prolongados[7, 8].
Ao contrário da chupeta[9, 10, 11], o hábito de chupar o dedo não atrapalha a amamentação.
Muitos bebês que chupam o dedo dentro da barriga continuarão após o nascimento, embora não necessariamente[12]. E isto é normal, é fisiológico. A melhor forma de prevenir a transformação patológica deste tipo de hábito ao longo do tempo é através da amamentação.
- Eu consigo me acalmar sozinho!
Regular as emoções é uma tarefa complexa e difícil. Crianças levam tempo para desenvolver inteligência emocional, e esse aprendizado ocorre em diferentes épocas para diferentes tipos de regulação. Nesse meio tempo, a aprendizagem guiada orienta que os pais modelem o comportamento, respondendo às necessidades dos bebês, de forma que eles possam aprender a se auto-confortar.
Alguns pesquisadores acreditam que, quando os pais confortam seus bebês, eles estão modelando o comportamento que as crianças devem seguir para confortarem a si mesmas[13, 14]. De fato, eles argumentam que é assim que as crianças aprendem a se confortarem sozinhas de uma maneira saudável.
Bebês que chupam o dedo, todavia, já estão de certa forma regulando suas próprias emoções. Se tiverem pais responsivos, que os confortem e modelem apropriadamente o comportamento, ou seja, que se envolvam em práticas que promovem vínculos seguros, que respondam ao choro, e também que não impeçam nem substituam o hábito; então é muito provável que, com o tempo, eles desenvolvam mecanismos saudáveis para o mesmo fim (auto-conforto), não necessitando mais chupar o dedo.
Em contrapartida, pesquisas neurológicas[15, 16] sugerem que não atender às necessidades físicas e/ou afetivas do bebê ou deixá-lo chorando leva a falhas no desenvolvimento de técnicas saudáveis de regulação de emoções, o que pode servir de gatilho no sentido de promover a instalação de um hábito de sucção patológico.
- Estou com fome!
Levar os dedos ou mãos à boca é uma das formas do bebê indicar que está com fome e quer mamar. O choro é um sinal tardio, e acontece quando todos os demais sinais foram ignorados.

O aleitamento materno sob livre demanda deve ser encorajado, pois faz parte do comportamento normal do recém-nascido mamar com freqüência, sem regularidade quanto a horários. Aleitamento materno sem restrições diminui a perda de peso inicial do recém-nascido, favorece a recuperação mais rápida do peso de nascimento, promove uma “descida do leite” mais rápida, aumenta a duração do aleitamento materno, estabiliza os níveis de glicose do recém-nascido, diminui a incidência de hiperbilirrubinemia, previne ingurgitamento mamário[17] e satisfaz plenamente o impulso neural de sucção[18]. Inclusive o ato do bebê “chupetar” o peito após a mamada cumpre exatamente este papel (de saciar a necessidade neural de sucção), além de estimular a produção de leite; e por isso não deve ser desencorajado.
O tempo de permanência na mama em cada mamada também não deve ser estabelecido, uma vez que a habilidade do bebê em esvaziar a mama varia entre as crianças e, numa mesma criança, pode variar ao longo do dia dependendo das circunstâncias, e de acordo com a idade. É importante que a criança esvazie a mama, pois o leite do final da mamada – leite posterior – contém mais calorias e sacia a criança[19].
Os suplementos (água, chás, sucos, outros leites) devem ser evitados e o uso de chupetas/chucas/ mamadeiras também tem sido desaconselhado pela possibilidade de interferir com o aleitamento materno[17], além de trazer outros prejuízos ao desenvolvimento da criança.
Sabe-se que a necessidade neural de sucção e a fome fisiológica do bebê caminham em paralelo e que a única maneira de suprir a ambas, de forma plena, é através da amamentação. A ordenha do peito, em geral, é um processo demorado, ao passo que uma mamadeira pode ser esvaziada em menos de 5 minutos. A introdução de bicos artificiais gera um débito de sucção neural que frequentemente é compensado através da instalação de hábitos de sucção deletérios e indesejados[18].
- Meus dentes estão nascendo!
É comum que bebês amamentados com livre demanda aos 5 ou 6 meses comecem a sugar o dedo. Neste momento, em geral os dentes decíduos estão chegando e existe um grande desconforto dentro da boca.
As gengivas estão inchadas, coçam, a salivação está aumentada; ele deseja coçá-las, mas não tem coordenação para tanto. Seu dedo, entretanto, já conhece o caminho da boca (desde a vida intra-uterina). Nesse momento, entendendo que não se trata de impulso de sucção neural insatisfeito, mas da maturação neural da função seguinte – a mastigação -, o ideal seria oferecer-lhe, além de amor e atenção, um mordedor para superar o desconforto dessa fase e impedir o “reforço” de que dedo na boca é prazer, evitando assim a transformação em hábito[18].
A idade de erupção, na verdade, é bastante variável e muito individual (os dentes podem começar a irromper já nos primeiros meses após o nascimento, ou demorar seis, oito meses ou até mais para aparecerem). Da mesma forma, os bebês apresentam diferentes sintomas na dentição: alguns são pouco afetados, outros sofrem muito. A melhor maneira de consolar um bebê é dar-lhe muito amor – amamente com especial carinho[20].
- Estou descobrindo o mundo!
Durante esta fase do desenvolvimento classificada na psicologia como ‘fase oral’, o bebê leva tudo à boca, como forma de explorar e conhecer seu próprio corpo e o mundo que o cerca. O ser humano passa por diferentes etapas nesta construção, desde o chupar o polegar até elaborar pensamentos com diferentes estruturas[21].
O corpo é instrumento de comunicação e com ele é possível comunicar-se, desenvolver uma linguagem. É pelo corpo e através do corpo que o ser humano se comunica, recebe e envia mensagens e consegue ler o mundo.
O movimento ajuda a criança a construir conhecimento do mundo que a rodeia, pois é através das sensações e percepções que ela interage com o meio e aprende. Assim, brincando com seu corpo a criança vai construindo diferentes noções[22].
Um corpo organizado possibilita diversas formas de ação, sejam elas psicomotoras, emocionais, cognitivas ou sociais. Tanto chupar o dedo, que é natural nesta fase, como mamar, são, ao mesmo tempo, atos de prazer e de conhecimento[23].
O afeto, contido no desejo, manifestado pelo corpo, é determinante para a aprendizagem e não deve ser reprimido. “A criança aprende por experimentação, por experiências próprias. Aprender é aprender com o corpo, com a emoção. Do contrário essa criança vira um adulto desconectado do seu corpo e das suas emoções.” (Marcelo Michelshon, psicólogo)
Sucção é inata, é instintiva. É sinônimo de prazer, aprendizado e sobrevivência e perdura como necessidade vital durante um tempo prolongado. Esse período também é muito mais longo do que os adultos gostariam que fosse. É provável que o desenho original do ser humano tenha previsto uma amamentação e consequentemente necessidade de sucção mais prolongada, de três a cinco anos[24]. Estudos antropológicos sugerem que o período natural de amamentação para a espécie humana ficaria entre 2,5 e 7 anos[17]. A OMS recomenda amamentação exclusiva por 6 meses e complementada até os 2 anos ou mais. No segundo ano de vida, o leite materno continua sendo uma importante fonte de nutrientes, além de continuar conferindo proteção contra doenças infecciosas[17] e constituir a principal medida de prevenção contra o prolongamento patológico dos hábitos de sucção não nutritivos[18].
- Estou estressado (ou algo não vai bem…).
É consenso geral que aborrecimentos e traumas emocionais sofridos pela gestante ou pela mãe acarretam problemas ao desenvolvimento normal do bebê, como no caso de algumas situações resultantes de tensão emocional, que geram atividade motriz exagerada, permanecendo enquanto durar a tensão. Na relação da gestante com o feto, relata-se que o grau de aceitação da gravidez é fator bastante importante que, possivelmente, influencie o bebê na vida pré e pós-natal[25].
Quanto ao efeito dos problemas emocionais e/ou sistêmicos da gestante sobre o aparecimento dos sinais de sucção, estes foram observados em alguns bebês, ainda que os resultados não tenham sido significativos[26]. Da mesma forma, estados de satisfação com a gravidez (satisfeita/indiferente) também pareceu não interferir significativamente na sucção digital em fetos[26].
Contudo, mãe e bebê são seres fusionais (até cerca dos dois anos de idade), de forma que o bebê muitas vezes manifesta de diversas formas o inconsciente materno[24]. Por isso, é muito válido entender a situação emocional da mãe que está por trás das manifestações que tanto incomodam no bebê.
É preciso também levar em conta que o estresse, atualmente, deixou de ser reservado aos adultos. As crianças podem sentir-se sobrecarregadas desde muito cedo – complicações na gravidez, experiências traumáticas no parto, separação prolongada dos pais ao nascer, dificuldades na amamentação, amamentação com controle de horários, rotinas rígidas, pouco contato físico, treinamento precoce de sono (para dormir sozinho e/ou a noite inteira), ignorar/deixar chorar sem consolo, desmame precoce e/ou abrupto, introdução alimentar acelerada, ingresso precoce em creche/escolinhas, cuidados terceirizados, pressão para controlar os esfíncteres (desfralde precoce), nascimento de um irmão, mudanças, perdas, excesso de atividades, doenças físicas, emocionais – ansiedade, depressão, repressão, personalidade tímida, criação autoritária, etc…O cansaço extremo tem a capacidade de destruir o campo afetivo das crianças[24]. É presumível que uma criança pequena possa encontrar prazer autonomamente ao sugar, se suas necessidades, particularmente as afetivas, estão sendo negligenciadas.
A prática clínica também indica a possibilidade de relação entre o ato de chupar vigorosamente o dedo com causas orgânicas, como por exemplo, reação pós-vacinal e associado a quadros de irritabilidade gerados por alergia à proteína do leite de vaca (APLV), entre outras. Nestes casos, além das medidas preventivas básicas, é preciso buscar manejo/tratamento adequado para o problema que desencadeou o quadro.
Por tudo isso, é imprescindível discernir o hábito do dedo (quando patológico) com um olhar ampliado; não superficialmente, como um problema em si, mas como um potencial sinalizador de experiências negativas que a criança possa estar vivenciando/ou tenha em algum momento vivenciado. Simplesmente anular um sintoma (como o de chupar o dedo, por exemplo) não deveria jamais ser um objetivo[24]. Não sem antes entender seu significado, a raiz do problema, ou o que está sendo comunicado através dele.
Nunca se deve reprimir o hábito colocando luvas, pimenta ou outras substâncias de sabor e aroma fortes no dedo. Por ser extremamente sensível, o organismo infantil pode reagir muito mal ao que foi ingerido. Aliás, nenhuma atitude que possa agredir de qualquer forma a criança deve ser considerada. Ridicularizar, punir, envergonhar, chantagear e diminuir a criança, principalmente diante de outras pessoas, só aumenta a ansiedade, o que pode levar à piora do quadro. Ou ainda acabar desenvolvendo outros sintomas em substituição (angústias, terrores noturnos, choros desmedidos, doenças, apatia) – os quais podem ter sido gerados pelos adultos de forma não intencional, sem perceber.
Apoiar os filhos é entender e aceitar seus processos naturais de amadurecimento e crescimento, em seu tempo único[24]. Muitas vezes é necessário reajustar as próprias expectativas, adquirir conhecimento e segurança para lidar com as diferentes fases com naturalidade, a fim de se tornar capaz de oferecer a ajuda, o respeito, a segurança e o amor incondicional tão necessários para que as crianças cresçam com equilíbrio e superem qualquer problema/dificuldade.
- Eu não quero chupeta!
Ao contrário do que se costuma acreditar, os danos causados pela sucção prolongada de dedo e de chupeta podem ser bem semelhantes[27, 28], especialmente quando a criança não é suficientemente amamentada; o que, segundo dados do Ministério da Saúde, é muito comum no Brasil, já que a média de amamentação exclusiva é de 54 dias e apenas 10% das brasileiras conseguem amamentar exclusivamente até o sexto mês[29].
A sucção do dedo, contudo, tem como vantagem o fato de ser natural, intracorpórea, ter calor, odor e consistência mais parecidos com o mamilo além de ficar praticamente na mesma posição do bico do peito dentro da cavidade bucal. Durante a sucção do dedo, a língua vem para a frente, assim como na ordenha do peito materno e o padrão de respiração nasal é mantido[18]. A amamentação não é prejudicada. Por tudo isso, a orientação de substituir o dedo pela chupeta faz pouco sentido.
Dados epidemiológicos mostram que 10% das crianças chupam o dedo prolongadamente[7, 30], sendo frequente nestes casos a falta de amamentação ou o desmame precoce.
A crença popular dita que o hábito de sucção digital é mais difícil de ser descontinuado do que o da chupeta. Entretanto, dados de pesquisa demonstram que ambos, dedo e chupeta, na verdade, podem ser muito difíceis de serem superados pela criança. Em uma clínica de ortodontia, 92,3% das crianças apresentaram dificuldade de abandonar o dedo, enquanto outras 91% apresentaram a mesma dificuldade em relação à chupeta; uma diferença insignificante em termos estatísticos[31].
Segundo a visão autoritária dos adultos, é possível suprimir a chupeta. Mas essa atitude não leva a criança a se livrar de sua necessidade de sugar, ainda não superada. Cada etapa que é vivida plenamente termina plenamente e evolui para outros interesses.
Caso contrário, as necessidades não satisfeitas se deslocam e muitas vezes não se compreende a associação de causa e efeito. Por exemplo, vícios como o de fumar, a compulsão de comer, a dedicação insana ao trabalho ou os ciúmes desmedidos em certas relações afetivas à procura de prazer – sem, no entanto, conseguir encontrá-lo por meio dessa reparação ilusória, uma vez que se trata de uma transferência inconsciente e tardia de necessidades básicas que não foram satisfeitas. O fato de uma criança pequena sugar não apenas costuma ser normal, como esperado. É preciso se preocupar quando o hábito se torna patológico, impedindo a comunicação/interação social ou causando desequilíbrios sobre o desenvolvimento e doenças*. Nestes casos é importante intervir adequada e oportunamente. Simultaneamente, é imprescindível oferecer à criança presença, comunicação e diálogo para que ela adquira habilidades que a tornem capaz de superar as necessidades orais primárias[24].
A partir do exposto, conclui-se que orientação de substituir o dedo pela chupeta representa um grande equívoco. As evidências apontam que, em vez disso, os especialistas poderiam encarar o dedo com maior naturalidade e principalmente apoiar, promover e proteger o aleitamento materno pelo tempo que durar a necessidade oral da criança.
- Eu quero você!
Quando o abandono emocional é muito grande, advém a necessidade de procurar prazer solitariamente. Por isso nossos olhares devem se dirigir à necessidade original e não à maneira encontrada pela criança para aliviar suas dores, no caso, quando a sucção do dedo tende a se tornar patológica.
Em geral, os adultos têm sempre alguma coisa mais importante ou urgente para resolver; gostariam que a criança ficasse sozinha, mas sem chupar o dedo. Isso significa ficar duplamente sozinha. Quando a criança é tímida, precisa ainda mais da presença de um adulto que, com amor, volte a colocá-la no mundo do intercâmbio e da comunicação, da brincadeira e da fantasia criativa, e aí o hábito de sucção não nutritiva perde o seu valor.
Em relação à sucção digital, é, portanto, imprescindível avaliar se trata-se de uma condição normal, uma patologia ou, simplesmente, de uma criança que está sozinha e espera[24].
Acima de tudo, o bebê quer dizer:
- Papai/Mamãe, me aceitem como eu sou!
Sei que vocês criaram muitos planos e expectativas a meu respeito e podem estar se sentindo confusos e frustrados neste momento, com tantas orientações e opiniões contraditórias que circulam por aí. Mas se vocês estiverem ao meu lado, tentarem me entender, respeitarem essa minha fase e me derem muito amor – daquele jeito que eu entendo que sou amado e que só vocês são capazes de me amar – eu tenho certeza que superarei, no meu tempo, qualquer dificuldade ou fase. Eu sei que eu posso; confiem em mim. Eu confio em vocês!
Ass.: Bebê.
*P.S.: Nos casos de prolongamento patológico da sucção, a criança poderá necessitar de apoio especializado para conseguir superar o hábito. Quando existirem alterações de desenvolvimento oro-facial (anatômicas e/ou funcionais) e oclusal, o acompanhamento por dentista especialista em ortopedia funcional dos maxilares e fono especialista em motricidade oral é recomendável, bem como, provavelmente, um apoio psicológico especializado. A técnica do Mamilo[32], um acessório colocado em aparelhos ortopédicos mecânicos ou funcionais, ajuda a criança a satisfazer a necessidade residual neural de sucção, estressando o hábito (funciona como um estímulo de sucção alternativo ao natural, isto é, a amamentação no peito; e pode ser usado em fases bem precoces do desenvolvimento, a partir da confirmação da necessidade através de diagnóstico clínico apropriado). A resposta favorável do organismo na totalidade dos casos se deve à técnica atuar, não contra o hábito, e sim a favor da fisiologia, da biologia e da saúde da criança[18].
Leia mais sobre o Mamilo aqui
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS:
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[20]Romm, AJ. Cura natural para bebês e crianças. Sâo Paulo: Ed. Ground, 1999; p. 131-132.
[21]Lima, JS. A importância do brincar para as crianças de 3 a 4 anos na Educação Infantil. Monografia apresentada para conclusão de curso de pedagogia da Universidade Veiga de Almeida. Rio de Janeiro, 2006 (http://www.pedagogiaemfoco.pro.br/edinf01.htm)
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[23]Fernandez, Alicia. A inteligência aprisionada: abordada psicopedagogia. Clínica da criança e sua família. Porto Alegre: Artes médicas, 1990; p. 74.
[24]Gutman, L. A maternidade e o encontro com a própria sombra. Rio de Janeiro: Best Seller, 2010.
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[26]Tenório, M.D.H. et al. Sucção Digital: observação em ultra-sonografia e em recém-nascidos. Radiol Bras, v. 38, n. 6, 2005.
[27]Christensen, J., Fields, H. Hábitos bucais. In: PINKHAM, JR. Odontopediatria da Infância à Adolescência. 2ª. Ed. São Paulo: Artes Médicas, p. 400-7, 1996.
[28]Cunha, SR. et al. Hábitos bucais. In: CORRÊA, MSNP. Odontopediatria na primeira infância. 1ª. Ed. São Paulo: Santos, p. 561-75, 1998.
[29]Brum, K. http://vilamamifera.com/mamiferas/nao-precisamos-de-campanhas-para-aliviar-a-culpa-das-maes-que-nao-amamentam-ou-pariram/ (acessado em 26/04/2014).
[30]Silva Filho, O.G. et al. Hábitos de sucção e má oclusão: epidemiologia na dentadura decídua. Rev Clin Ortodon Dental Press, v. 2, n. 5, p. 57-74, 2003.
[31]Rosa, LPPB. Brancher, LM. Avaliação dos hábitos deletérios infanto-juvenis nos pacientes da Disciplina de Ortodontia e Ortopedia Clínica da FO-UFRGS. Trabalho de conclusão de graduação; 2009
[32]Carvalho, GD. et al. O uso do aparelho “Mamilo” para tratamento do hábito de sucção digital. RGO 48 (4): 207-214; 2000.


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