Você já escutou esse tipo de coisa? Estão te pressionando a desmamar?
Publique no seu Facebook um relato em modo público com a hashtag #mandoudesmamar.
O GVA está fazendo uma campanha para que as mães contem suas experiências: precisamos falar sobre isso!
Todos os dias ouvimos relatos de mães que receberam a sentença: tem que desmamar. Quem decidiu? Profissionais da área da saúde (médicos, enfermeiros, dentistas, ...), a escola, a babá, a avó, vizinhos... sob as mais diversas alegações e motivos, entre os mais comuns: porque a criança não se alimenta conforme as expectativas dos adultos; porque a criança chora quando a mãe se afasta; porque a criança acorda de madrugada; porque a criança tem cárie ou para evitar que tenha; porque a criança "está muito grande" pra mamar; porque a mãe está muito magra; porque a mãe quer emagrecer; porque a mãe precisa fazer tratamento médico ou odontológico.
Salvo raros casos de doenças graves que não possuem tratamento compatível, essas indicações não tem fundamento, seja quando o bebê tem 3-6-9 meses, sejam com 1-2-n anos.
Só cabe à mãe e à criança decidirem a hora do desmame.
Os links abaixo explicam porque a maioria dos motivos usados para indicações de desmame são infundados:
1) Só a mãe e a criança podem decidir a hora do desmame:
http://grupovirtualdeamamentacao.blogspot.com.br/2014/08/para-quem-escolheu-amamentar-liberdade.html
2) Existem muitos medicamentos (e também anestesias, para o caso de cirurgia ou tratamento dentário) que são compatíveis com a amamentação (ou possuem substituto compatível). A maioria das mães não precisa desmamar para fazer tratamentos: http://grupovirtualdeamamentacao.blogspot.com.br/2015/06/estou-amamentando-posso-tomar.html
3) Leite materno nunca vira água:
http://grupovirtualdeamamentacao.blogspot.com.br/2015/07/como-o-leite-materno-vira-agua-e-vaca.html
4) A indicação da OMS de amamentar por 2 anos ou mais não serve só para famílias pobres:
http://grupovirtualdeamamentacao.blogspot.com.br/2014/08/amamentar-nao-e-bom-apenas-por-3-6-ou.html
5) Leite materno não causa cáries:
https://www.facebook.com/gvamamentacao/photos/a.758574380861595.1073741838.166584723393900/774642772588089/?type=1&theater
6) Amamentação não torna a criança dependente nem insegura:
http://grupovirtualdeamamentacao.blogspot.com.br/2014/08/amamentar-nao-torna-crianca-insegura.html
7) Volta ao trabalho não é motivo para desmame:
http://grupovirtualdeamamentacao.blogspot.com.br/2015/11/volta-ao-trabalho-e-ausencia-ocacional.html
8) Nova gravidez não é motivo para desmame:
http://grupovirtualdeamamentacao.blogspot.com.br/2015/07/amamentacao-durante-gravidez.html
9) Amamentar em tandem é possível e é benéfico:
https://www.facebook.com/gvamamentacao/photos/a.758574380861595.1073741838.166584723393900/769839976401702/?type=1&theater
10) Amamentação continuada não é carência materna:
https://www.facebook.com/gvamamentacao/photos/a.758574380861595.1073741838.166584723393900/778931888825844/?type=1&theater
11) A manutenção da amamentação é indicada para bebês com alergia alimentar:
http://grupovirtualdeamamentacao.blogspot.com.br/2016/10/carta-de-uma-mae-aplv-um-pediatra.html
12) Bebê desmamado não dorme melhor. Diferenças no sono do bebê que mama ou toma Leite artificial:
http://grupovirtualdeamamentacao.blogspot.com.br/2015/03/diferencas-do-sono-do-bebe-que-e.html
13) Amamentação Continuada: Os benefícios da amamentação para lactentes e crianças pequenas nutricional, imunológica e psicologicamente:
http://grupovirtualdeamamentacao.blogspot.com.br/2014/07/amamentacao-continuada-os-beneficios-da.html
sábado, 29 de outubro de 2016
sexta-feira, 28 de outubro de 2016
Carta de uma mãe APLV a um pediatra
Por Luciana Freitas
Prezado Doutor,
Sou profunda admiradora do seu trabalho, da sua história em defesa da amamentação, dos seus textos. Sou sua fã. De verdade.
No entanto, não posso esconder a profunda tristeza que sinto ao ler o que você já disse, mais de uma vez, sobre ter recomendado desmame de bebês com alergia às proteínas do leite de vaca (APLV). Me dá uma tristeza, um desânimo... Só eu sei... Eu vou te pedir uma coisa, doutor: repense. Eu sei o tamanho do meu atrevimento ao dizer isso. Já não sou profissional de saúde, sou uma mãe. Uma mãe APLV, ou melhor, ex-APLV, pois meu filho está curado há mais de um ano. Não pense que não me coloco no seu lugar, porque me coloco. Eu sou pesquisadora, embora não tenha, na minha área, o peso que você tem na pediatria. O que ocorreria se um leigo viesse me pedir para repensar algo sobre a minha especialidade? Não sei. Talvez não gostasse. Talvez repensasse. Realmente não sei.
Se o estímulo ao desmame é enorme entre crianças saudáveis, é maior ainda entre crianças APLV. Imagino que muitas tenham passado pelo seu consultório, não tenho ideia de quantas. Sei que sua experiência é enorme, mas eu gostaria de falar um pouco da minha e peço, por favor, que leia o longo texto que escreverei.
Eu tenho contato com centenas de mães com filhos APLV. Sim, centenas. Temos, há alguns anos, um grupo virtual de apoio às mães. Para ser mais exata, hoje somos 1691* mães. Muitas delas nunca nos relataram suas experiências, é verdade. Mas muitas outras, pelo menos a metade, participa ativamente do nosso grupo. Temos de tudo: mães ricas e mães pobres; mães muito bem informadas e mães pouco informadas; mães que querem amamentar e mães que não querem amamentar; mães que pagam 800 reais por uma consulta médica e mães que mal podem pagar o ônibus até o posto de saúde. Nosso objetivo? Apoio mútuo e informação.
Aprendi algumas coisas ao longo desse tempo. Muitas delas, aprendi estudando. Como tenho acesso a todos os periódicos pela minha universidade, eu leio bastante sobre APLV (e sobre amamentação também). No entanto, aprendi muito mais com as outras mães. Muito mais mesmo!
Não preciso dizer o que aprendi estudando, porque isso você já sabe. Prefiro contar o que eu aprendi com as mães, que passo a relatar abaixo:
1) Por melhor que seja o pediatra, APLV requer acompanhamento de um bom especialista. Na maioria dos casos, a melhor opção é um gastro. O problema é, infelizmente, encontrar um que entenda bem do assunto e, mais ainda, que apóie a manutenção da amamentação, se esse for o desejo da mãe. Eu, sinceramente, depois de tudo o que já vi e ouvi, só entregaria meu filho APLV aos cuidados de três médicos: César Junqueira e Sheila Pércope, ambos da UFRJ, e uma jovem médica pediatra de São Paulo, Barbara Seabra, mãe APLV, que humildemente foi buscar informação e apoio no nosso grupo quando se viu com seu próprio bebê alérgico a leite; Hoje ela entende muito do assunto, embora não seja gastro. Deve haver mais médicos que entendam da APLV e que apoiem a amamentação. Eu desejo demais que haja, mas eu não conheço. Sei de mães que cruzaram o país e uma que cruzou o Atlântico para vir se consultar com esses médicos.
2) Por melhor que seja o gastro, mesmo os que eu citei e que são da minha maior confiança, quem entende de dieta é a mãe. Deixando de lado casos de erros absurdos, como médico que manda a mãe tomar leite sem lactose ou leite de cabra (que acontecem muito mais do que deveria, veja este artigo: http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0103-05822007000200002&lng=en&nrm=iss), o fato é que profissionais de saúde não têm como saber, excetuando-se o óbvio, o que tem e o que não tem leite, soja ou qualquer outro ingrediente. Nem eu sei mais. Meu filho está curado há mais de um ano e eu já estou desatualizada quanto a isso, porque não leio mais rótulos, não ligo mais para SACs. Já vi um caso gravíssimo de alergia, criança tratada em um dos mais importantes hospitais de São Paulo e sabe o que aconteceu? A nutricionista, com aval do pediatra, mandou colocar uma determinada marca de maltodextrina, que tem traços de leite, na fórmula de aminoácidos! A mãe confiou, não leu o rótulo e o resultado foi lamentável. Teria muitos exemplos semelhantes para dar.
3) Conheço dezenas de mães que, como eu, fizeram meses ou anos de dieta rigorosíssima. Eu fiz 15 meses de carne e 23 meses de leite (incluindo traços), cítricos e oleaginosas. Conheço várias que fizeram leite, soja e carne; outras que fizeram dietas ainda mais rigorosas, pois precisaram excluir ovo, glúten, frutas. Conheci até mesmo uma que passou meses com arroz e fórmula de aminoácidos. Sim, ela preferiu tomar a fórmula especial para poder amamentar seu filho! Eu acho que não aguentaria, mas ela aguentou. Cada um sabe seu limite, não é? Eu fiz a dieta sem dificuldade. Nunca sofri. As pessoas sofriam por mim, eu não sofria. Sei que há mães que sofrem, umas mais, outras menos. No entanto, ninguém pode decidir pela mãe se o sofrimento dela vai ser grande ou pequeno, se ela vai fazer a dieta direito ou não, se ela vai ou não vai aguentar. Isso só ELA pode saber. Eu ouvi de uma nutricionista que eu não iria aguentar e que meu leite não seria suficiente. Eu ri. Ainda bem. Porque eu poderia ter acreditado nela, mas mas eu preferi acreditar em mim! Minha vontade, quando meu filho fez dois anos sem nenhum tipo de leite exceto o meu, um touro com quase 15kg e 95 cm, embora ainda APLV, era voltar lá, para mostrar a ela a nossa “desnutrição”. Essas dezenas de mães, doutor, estão todas saudáveis. Nenhuma ficou desnutrida. Nenhuma. Nem aquelas que tinham dietas extremamente restritas. Eu me alimentava perfeitamente: no café da manhã e no lanche, pães caseiros, azeite, uma marca permitida de margarina, sucos, bolos caseiros sem leite, até pão de queijo sem queijo existe! No almoço e no jantar, arroz, feijão, aves (frango, pato, peru, avestruz), rã, coelho, ovos, todos os legumes e verduras. Isso desnutre alguém? Pois eu sequer perdi peso, e olha que ia ficar bem feliz se acontecesse! Meus exames foram excelentes durante todo o período, até melhores do que são agora, com colesterol e triglicéridos mais baixos. Algumas mães suplementam ferro e cálcio, mas eu confesso que não tive paciência para isso. E não tem tantos vegetarianos e veganos hoje em dia? Eles ficam desnutridos?
4) A dieta não é de simples manejo, mas também não é um bicho-de-sete-cabeças quando a mãe se sente apoiada e informada. Temos centenas de receitas no nosso grupo. De tudo o que você puder imaginar: bolos, brigadeiros, salgadinhos, tudo mesmo! Muitos deles sem leite, soja, ovo, carne e glúten. Eu sou um zero à esquerda na cozinha, mas botei a mão na massa, literalmente. Eu sou impaciente, mas aprendi a passar horas para fazer compras no supermercado, para ler todos os rótulos minúsculos e infames.
5) Meu filho tinha sangue nas fezes. Sangue MESMO, fralda cheia, visível. Nada de raios, não. Outra criança teve 10 meses de sangue oculto positivo. Outras mais tempo que isso. Casos graves, mas que foram acompanhados por médicos que acreditam que o poder de cura do leite materno é superior a qualquer deslize na dieta. E, obviamente, mães que desejavam amamentar e persistiam. Com dieta, com perseverança, essas crianças foram amamentadas por logo tempo e muitas delas já se curaram. Inclusive o meu. Inclusive a que teve 10 meses de sangue oculto positivo. Inclusive muitas outras que tinham alergias gravíssimas e cujas mães fizeram dietas rigorosíssimas.
6) Bebê APLV, amamentado. Criança com reação, médico “manda” suspender aleitamento e dar extensamente hidrolisado (que sempre deve ser a 1ª opção, segundo o Consenso Brasileiro de Alergia Alimentar, documento que deveria ser lido por todos os que tratam de crianças alérgicas) ou fórmula de aminoácidos. A mãe desmama uma criança doente; ela sofre, a criança, mais ainda. A criança faz 6 meses, começa a introdução dos sólidos, mas seu organismo não mais conhece proteínas inteiras e o resultado, ao receber o sólido, podemos imaginar qual é... De fato, não é uma nenhuma evidência, mas o que observamos é isso: a criança APLV amamentada pode até demorar mais tempo a ficar assintomática, mas a médio e a longo prazo, tudo é melhor, inclusive a tolerância aos sólidos. Continuando a historinha: a criança faz 8 meses e começa a engatinhar... Um espetáculo de traços de todos os alimentos no chão. A criança coloca a mão na boca... Imagine o chão de uma festa infantil... Ah, antes mesmo de aprender a engatinhar, ainda tem a tia com aquela boca que acabou de comer pão com manteiga direto na bochecha do bebê... O pai que bebeu leite... O irmão, o vizinho... Onde há mais “contaminação” pelo alérgeno? No leite da mãe ou em tudo isso que eu disse? Olha, o que eu conheço de criança APLV desmamada e cheia de reações mesmo em exclusividade de fórmula de aminoácidos... Desmamou, privou a criança do LM e de tudo o que envolve a amamentação, mas livrou a criança dos alérgenos? E nem falei de creche e escolinha. Você acha que vão separar utensílios como fazemos em casa? Que vão impedir que uma criança roube um biscoito da outra?
7) Em teoria, a criança com APLV desmamada tem fórmula fornecida pelo poder público. Tudo parece lindo e maravilhoso. Até o dia que o leite atrasa. O leite acaba. O leite, mesmo com liminar, não sai. Não conheço uma mãe cujo filho dependa de fórmulas especiais que nunca tenha passado por isso. Aí, aquele desespero, claro. Junta daqui, pede dali, compra no mercado negro, é enganada por golpistas... Conheço lugares em que as crianças passaram meses sem receber as fórmulas.
8) Já vi criança APLV com os mais variados sintomas, respiratórios, dermatológicos, já vi casos graves de refluxo, otite crônica, esofagite eosinofílica, proctite, enterocolite, hiperplasia nodular linfóide... Algumas já desmamadas quando se juntaram a nós, outras que desmamaram depois, mas muitas que mantiveram a amamentação, felizmente. Desmamou porque a mãe não aguentou a dieta? Perfeito, cada um tem seu limite e ele deve ser respeitado. Mas desmamar porque “fórmula de aminoácidos é a solução” e o “leite materno está fazendo mal ao bebê”, isso eu não aceito e não tem respaldo em evidências científicas... A mãe que quer amamentar costuma lutar por isso, mas ouvir de um médico que é preciso desmamar consegue destruir a segurança de muitas delas. Se o médico já na consulta do diagnóstico diz: “se não melhorar com a dieta vamos entrar com fórmulas especiais” ou “se você não aguentar a dieta”, pronto! Lá se foi a determinação de muitas mães! Eu, com meu filho sangrando bastante por 3 meses nunca ouvi nada disso. Se ouvisse, não me abalaria, porque eu estava determinada. Mas muitas mães ouvem e ficam arrasadas, fracassadas e aí tudo fracassa mesmo.
9) Os casos que você cita que recomendou o desmame eu, obviamente, não conheço. Não estou de forma alguma afirmando que foi um erro e não estou te criticando, mas preciso dizer que nunca vi caso que não melhorasse com ajuste na dieta e apoio e informação à mãe. Eu não chegaria aonde cheguei sem o apoio das minhas queridas companheiras, muitas delas amigas de verdade hoje em dia. Onde eu aprenderia que existe pão de queijo sem queijo? Como eu imaginaria que tem que separar a esponja? Como eu aventaria a hipótese de que há produtos de higiene infantis com proteínas do leite? Xampu, lenços umedecidos, sabonete, creme... Isso tudo e muitos, muitos outros detalhes.
10) Eu poderia escrever não apenas uma mensagem longuíssima como esta, mas talvez um livro com tantas histórias sobre APLV, mas não dá. Deixo, então, uma foto de mães e seus bebês APLVs amamentados. Todos mamaram por mais de um ano, exceto dois que ainda têm menos de 3 meses. Quase todas amamentaram por mais de 2 anos. Uma delas faz dieta de leite, soja e glúten há mais de 2 anos, pois suas gêmeas têm APLV. Eu também estou na montagem, no aniversário de 2 anos do meu filho, eu completando 22 meses sem leite. Ambos em dieta e felizes.
Com carinho e admiração,
Luciana Freitas
*Atualização: em 28/10/2016 o grupo atingiu 15.250 participantes.
Carta publicada originalmente dia 12/06/2011 em https://www.facebook.com/notes/meu-filho-%C3%A9-al%C3%A9rgico-a-leite/carta-de-uma-m%C3%A3e-aplv-a-um-pediatra/130125460401323
Prezado Doutor,
Sou profunda admiradora do seu trabalho, da sua história em defesa da amamentação, dos seus textos. Sou sua fã. De verdade.
No entanto, não posso esconder a profunda tristeza que sinto ao ler o que você já disse, mais de uma vez, sobre ter recomendado desmame de bebês com alergia às proteínas do leite de vaca (APLV). Me dá uma tristeza, um desânimo... Só eu sei... Eu vou te pedir uma coisa, doutor: repense. Eu sei o tamanho do meu atrevimento ao dizer isso. Já não sou profissional de saúde, sou uma mãe. Uma mãe APLV, ou melhor, ex-APLV, pois meu filho está curado há mais de um ano. Não pense que não me coloco no seu lugar, porque me coloco. Eu sou pesquisadora, embora não tenha, na minha área, o peso que você tem na pediatria. O que ocorreria se um leigo viesse me pedir para repensar algo sobre a minha especialidade? Não sei. Talvez não gostasse. Talvez repensasse. Realmente não sei.
Se o estímulo ao desmame é enorme entre crianças saudáveis, é maior ainda entre crianças APLV. Imagino que muitas tenham passado pelo seu consultório, não tenho ideia de quantas. Sei que sua experiência é enorme, mas eu gostaria de falar um pouco da minha e peço, por favor, que leia o longo texto que escreverei.
Eu tenho contato com centenas de mães com filhos APLV. Sim, centenas. Temos, há alguns anos, um grupo virtual de apoio às mães. Para ser mais exata, hoje somos 1691* mães. Muitas delas nunca nos relataram suas experiências, é verdade. Mas muitas outras, pelo menos a metade, participa ativamente do nosso grupo. Temos de tudo: mães ricas e mães pobres; mães muito bem informadas e mães pouco informadas; mães que querem amamentar e mães que não querem amamentar; mães que pagam 800 reais por uma consulta médica e mães que mal podem pagar o ônibus até o posto de saúde. Nosso objetivo? Apoio mútuo e informação.
Aprendi algumas coisas ao longo desse tempo. Muitas delas, aprendi estudando. Como tenho acesso a todos os periódicos pela minha universidade, eu leio bastante sobre APLV (e sobre amamentação também). No entanto, aprendi muito mais com as outras mães. Muito mais mesmo!
Não preciso dizer o que aprendi estudando, porque isso você já sabe. Prefiro contar o que eu aprendi com as mães, que passo a relatar abaixo:
1) Por melhor que seja o pediatra, APLV requer acompanhamento de um bom especialista. Na maioria dos casos, a melhor opção é um gastro. O problema é, infelizmente, encontrar um que entenda bem do assunto e, mais ainda, que apóie a manutenção da amamentação, se esse for o desejo da mãe. Eu, sinceramente, depois de tudo o que já vi e ouvi, só entregaria meu filho APLV aos cuidados de três médicos: César Junqueira e Sheila Pércope, ambos da UFRJ, e uma jovem médica pediatra de São Paulo, Barbara Seabra, mãe APLV, que humildemente foi buscar informação e apoio no nosso grupo quando se viu com seu próprio bebê alérgico a leite; Hoje ela entende muito do assunto, embora não seja gastro. Deve haver mais médicos que entendam da APLV e que apoiem a amamentação. Eu desejo demais que haja, mas eu não conheço. Sei de mães que cruzaram o país e uma que cruzou o Atlântico para vir se consultar com esses médicos.
2) Por melhor que seja o gastro, mesmo os que eu citei e que são da minha maior confiança, quem entende de dieta é a mãe. Deixando de lado casos de erros absurdos, como médico que manda a mãe tomar leite sem lactose ou leite de cabra (que acontecem muito mais do que deveria, veja este artigo: http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0103-05822007000200002&lng=en&nrm=iss), o fato é que profissionais de saúde não têm como saber, excetuando-se o óbvio, o que tem e o que não tem leite, soja ou qualquer outro ingrediente. Nem eu sei mais. Meu filho está curado há mais de um ano e eu já estou desatualizada quanto a isso, porque não leio mais rótulos, não ligo mais para SACs. Já vi um caso gravíssimo de alergia, criança tratada em um dos mais importantes hospitais de São Paulo e sabe o que aconteceu? A nutricionista, com aval do pediatra, mandou colocar uma determinada marca de maltodextrina, que tem traços de leite, na fórmula de aminoácidos! A mãe confiou, não leu o rótulo e o resultado foi lamentável. Teria muitos exemplos semelhantes para dar.
3) Conheço dezenas de mães que, como eu, fizeram meses ou anos de dieta rigorosíssima. Eu fiz 15 meses de carne e 23 meses de leite (incluindo traços), cítricos e oleaginosas. Conheço várias que fizeram leite, soja e carne; outras que fizeram dietas ainda mais rigorosas, pois precisaram excluir ovo, glúten, frutas. Conheci até mesmo uma que passou meses com arroz e fórmula de aminoácidos. Sim, ela preferiu tomar a fórmula especial para poder amamentar seu filho! Eu acho que não aguentaria, mas ela aguentou. Cada um sabe seu limite, não é? Eu fiz a dieta sem dificuldade. Nunca sofri. As pessoas sofriam por mim, eu não sofria. Sei que há mães que sofrem, umas mais, outras menos. No entanto, ninguém pode decidir pela mãe se o sofrimento dela vai ser grande ou pequeno, se ela vai fazer a dieta direito ou não, se ela vai ou não vai aguentar. Isso só ELA pode saber. Eu ouvi de uma nutricionista que eu não iria aguentar e que meu leite não seria suficiente. Eu ri. Ainda bem. Porque eu poderia ter acreditado nela, mas mas eu preferi acreditar em mim! Minha vontade, quando meu filho fez dois anos sem nenhum tipo de leite exceto o meu, um touro com quase 15kg e 95 cm, embora ainda APLV, era voltar lá, para mostrar a ela a nossa “desnutrição”. Essas dezenas de mães, doutor, estão todas saudáveis. Nenhuma ficou desnutrida. Nenhuma. Nem aquelas que tinham dietas extremamente restritas. Eu me alimentava perfeitamente: no café da manhã e no lanche, pães caseiros, azeite, uma marca permitida de margarina, sucos, bolos caseiros sem leite, até pão de queijo sem queijo existe! No almoço e no jantar, arroz, feijão, aves (frango, pato, peru, avestruz), rã, coelho, ovos, todos os legumes e verduras. Isso desnutre alguém? Pois eu sequer perdi peso, e olha que ia ficar bem feliz se acontecesse! Meus exames foram excelentes durante todo o período, até melhores do que são agora, com colesterol e triglicéridos mais baixos. Algumas mães suplementam ferro e cálcio, mas eu confesso que não tive paciência para isso. E não tem tantos vegetarianos e veganos hoje em dia? Eles ficam desnutridos?
4) A dieta não é de simples manejo, mas também não é um bicho-de-sete-cabeças quando a mãe se sente apoiada e informada. Temos centenas de receitas no nosso grupo. De tudo o que você puder imaginar: bolos, brigadeiros, salgadinhos, tudo mesmo! Muitos deles sem leite, soja, ovo, carne e glúten. Eu sou um zero à esquerda na cozinha, mas botei a mão na massa, literalmente. Eu sou impaciente, mas aprendi a passar horas para fazer compras no supermercado, para ler todos os rótulos minúsculos e infames.
5) Meu filho tinha sangue nas fezes. Sangue MESMO, fralda cheia, visível. Nada de raios, não. Outra criança teve 10 meses de sangue oculto positivo. Outras mais tempo que isso. Casos graves, mas que foram acompanhados por médicos que acreditam que o poder de cura do leite materno é superior a qualquer deslize na dieta. E, obviamente, mães que desejavam amamentar e persistiam. Com dieta, com perseverança, essas crianças foram amamentadas por logo tempo e muitas delas já se curaram. Inclusive o meu. Inclusive a que teve 10 meses de sangue oculto positivo. Inclusive muitas outras que tinham alergias gravíssimas e cujas mães fizeram dietas rigorosíssimas.
6) Bebê APLV, amamentado. Criança com reação, médico “manda” suspender aleitamento e dar extensamente hidrolisado (que sempre deve ser a 1ª opção, segundo o Consenso Brasileiro de Alergia Alimentar, documento que deveria ser lido por todos os que tratam de crianças alérgicas) ou fórmula de aminoácidos. A mãe desmama uma criança doente; ela sofre, a criança, mais ainda. A criança faz 6 meses, começa a introdução dos sólidos, mas seu organismo não mais conhece proteínas inteiras e o resultado, ao receber o sólido, podemos imaginar qual é... De fato, não é uma nenhuma evidência, mas o que observamos é isso: a criança APLV amamentada pode até demorar mais tempo a ficar assintomática, mas a médio e a longo prazo, tudo é melhor, inclusive a tolerância aos sólidos. Continuando a historinha: a criança faz 8 meses e começa a engatinhar... Um espetáculo de traços de todos os alimentos no chão. A criança coloca a mão na boca... Imagine o chão de uma festa infantil... Ah, antes mesmo de aprender a engatinhar, ainda tem a tia com aquela boca que acabou de comer pão com manteiga direto na bochecha do bebê... O pai que bebeu leite... O irmão, o vizinho... Onde há mais “contaminação” pelo alérgeno? No leite da mãe ou em tudo isso que eu disse? Olha, o que eu conheço de criança APLV desmamada e cheia de reações mesmo em exclusividade de fórmula de aminoácidos... Desmamou, privou a criança do LM e de tudo o que envolve a amamentação, mas livrou a criança dos alérgenos? E nem falei de creche e escolinha. Você acha que vão separar utensílios como fazemos em casa? Que vão impedir que uma criança roube um biscoito da outra?
7) Em teoria, a criança com APLV desmamada tem fórmula fornecida pelo poder público. Tudo parece lindo e maravilhoso. Até o dia que o leite atrasa. O leite acaba. O leite, mesmo com liminar, não sai. Não conheço uma mãe cujo filho dependa de fórmulas especiais que nunca tenha passado por isso. Aí, aquele desespero, claro. Junta daqui, pede dali, compra no mercado negro, é enganada por golpistas... Conheço lugares em que as crianças passaram meses sem receber as fórmulas.
8) Já vi criança APLV com os mais variados sintomas, respiratórios, dermatológicos, já vi casos graves de refluxo, otite crônica, esofagite eosinofílica, proctite, enterocolite, hiperplasia nodular linfóide... Algumas já desmamadas quando se juntaram a nós, outras que desmamaram depois, mas muitas que mantiveram a amamentação, felizmente. Desmamou porque a mãe não aguentou a dieta? Perfeito, cada um tem seu limite e ele deve ser respeitado. Mas desmamar porque “fórmula de aminoácidos é a solução” e o “leite materno está fazendo mal ao bebê”, isso eu não aceito e não tem respaldo em evidências científicas... A mãe que quer amamentar costuma lutar por isso, mas ouvir de um médico que é preciso desmamar consegue destruir a segurança de muitas delas. Se o médico já na consulta do diagnóstico diz: “se não melhorar com a dieta vamos entrar com fórmulas especiais” ou “se você não aguentar a dieta”, pronto! Lá se foi a determinação de muitas mães! Eu, com meu filho sangrando bastante por 3 meses nunca ouvi nada disso. Se ouvisse, não me abalaria, porque eu estava determinada. Mas muitas mães ouvem e ficam arrasadas, fracassadas e aí tudo fracassa mesmo.
9) Os casos que você cita que recomendou o desmame eu, obviamente, não conheço. Não estou de forma alguma afirmando que foi um erro e não estou te criticando, mas preciso dizer que nunca vi caso que não melhorasse com ajuste na dieta e apoio e informação à mãe. Eu não chegaria aonde cheguei sem o apoio das minhas queridas companheiras, muitas delas amigas de verdade hoje em dia. Onde eu aprenderia que existe pão de queijo sem queijo? Como eu imaginaria que tem que separar a esponja? Como eu aventaria a hipótese de que há produtos de higiene infantis com proteínas do leite? Xampu, lenços umedecidos, sabonete, creme... Isso tudo e muitos, muitos outros detalhes.
10) Eu poderia escrever não apenas uma mensagem longuíssima como esta, mas talvez um livro com tantas histórias sobre APLV, mas não dá. Deixo, então, uma foto de mães e seus bebês APLVs amamentados. Todos mamaram por mais de um ano, exceto dois que ainda têm menos de 3 meses. Quase todas amamentaram por mais de 2 anos. Uma delas faz dieta de leite, soja e glúten há mais de 2 anos, pois suas gêmeas têm APLV. Eu também estou na montagem, no aniversário de 2 anos do meu filho, eu completando 22 meses sem leite. Ambos em dieta e felizes.
Com carinho e admiração,
Luciana Freitas
*Atualização: em 28/10/2016 o grupo atingiu 15.250 participantes.
Carta publicada originalmente dia 12/06/2011 em https://www.facebook.com/notes/meu-filho-%C3%A9-al%C3%A9rgico-a-leite/carta-de-uma-m%C3%A3e-aplv-a-um-pediatra/130125460401323
Amamentar um bebê com alergia alimentar não é contra-indicado. Amamentar é... O caminho para a cura!
O leite materno é sempre o melhor alimento. Nos casos que se apresenta qualquer alergia alimentar a primeira conduta deve ser a restrição alimentar da mãe e a procura do profissional idôneo para avaliar o problema (gastropediatra ou alergista).
O diagnóstico de APLV (Alergia às proteínas do leite de vaca) ou qualquer outra alergia alimentar em bebês depende basicamente do teste clínico, a observação da reação e melhora com a evolução da dieta restritiva na mãe que amamenta.
Em nenhum caso o desmame é recomendado, mas sim deve de se orientar a mãe a realizar a deita de forma correta, controlando os traços, lendo rótulos dos alimentos e tendo plena consciência do que come.
O bebê com alergia alimentar que é amamentado tem melhores chances de cura, com menores chances de reações adversas durante introdução alimentar e uma qualidade de vida muito melhor para mãe e bebê.
A mãe que precisa fazer a dieta restritiva de leite de vaca, soja, ovos, oleaginosas e/ou glúten não precisa encarar isto como uma tragédia na sua vida. É um investimento na saúde e qualidade de vida do seu filho, e uma oportunidade de reavaliar a alimentação familiar para torna-a mais saudável.
Recomendamos:
Carta de uma mãe APLV a um pediatra
http://grupovirtualdeamamentacao.blogspot.com.br/2016/10/carta-de-uma-mae-aplv-um-pediatra.html
Intolerância x galactossemia x alergia a leite de vaca
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Orientações sobra a dieta de LV
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Mas afinal, o que são “traços de leite”?
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Alergia a LV e problemas respiratórios
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O papel dos exames para o diagnóstico da alergia alimentar
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Texto por Zioneth Garcia
segunda-feira, 10 de outubro de 2016
A alimentação da mãe pode causar cólicas e gases no bebê?
Por Maria Birman Cavalcanti
Revisão: Luciana Freitas
O leite materno é composto principalmente de água, carboidratos, lipídios e proteínas, além de vitaminas, minerais e componentes imunológicos. No seio há células que literalmente produzem os componentes do leite sob demanda (estímulo), mas a água do leite vem do sangue da mãe. O sangue é "filtrado", e apenas a parte líquida (o plasma) chega nos alvéolos das glândulas lactíferas, para diluir os componentes nutritivos produzidos pelo corpo materno. Esses componentes nutritivos seguem uma "receita" específica, que praticamente não se altera. Por isso o leite materno sempre tem qualidade e composição adequadas para o bebê, independente da dieta da mãe. Entretanto, junto com o plasma, chega ao leite uma amostragem bem pequena das coisas que a mãe consumiu e absorveu.
Uma porcentagem microscópica de todas as proteínas que chegam na nossa corrente sanguínea pode chegar ao leite materno. As proteínas são variadas e sua concentração é muito baixa, e isso é benéfico, pois estimula o sistema imunológico do bebê. Não há quantidade suficiente para provocar uma reação intestinal, como gases, dores ou "cólica", a não ser que o bebê já tenha sensibilidade para alguma proteína específica (como no caso da APLV). A dieta da mãe não interfere no funcionamento das células da glândula lactífera, portanto, a "receita" do leite materno nunca muda: ele é sempre forte, perfeito e sustenta! A dieta para APLV não muda a composição do leite materno, só tira a proteína do leite de vaca circulante no sangue da mãe, pois ela deixa de consumir leite de vaca, derivados e traços.
E os alimentos que causam gases na mãe, por exemplo, feijão - o pouco que passa para o leite pode afetar o bebê? Alimentos que causam gases não têm esse efeito devido às suas proteínas, mas sim devido a carboidratos específicos - e esses são totalmente degradados, absorvidos ou excretados nos intestinos. Eles não chegam à corrente sanguínea, por isso não passam pelo leite materno e não causam gases no bebê.
Referências:
GONZÁLEZ, Carlos. Manual Prático de Aleitamento Materno. São Paulo: Editora Timo, 2014,p.46 e 47.
Ballard O1, Morrow AL. Pediatrics Clinics of North America 2013 Feb;60(1):49-74.Human milk composition: nutrients and bioactive factors.
(Disponível em: https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pmc/articles/PMC3586783/).
Revisão: Luciana Freitas
O leite materno é composto principalmente de água, carboidratos, lipídios e proteínas, além de vitaminas, minerais e componentes imunológicos. No seio há células que literalmente produzem os componentes do leite sob demanda (estímulo), mas a água do leite vem do sangue da mãe. O sangue é "filtrado", e apenas a parte líquida (o plasma) chega nos alvéolos das glândulas lactíferas, para diluir os componentes nutritivos produzidos pelo corpo materno. Esses componentes nutritivos seguem uma "receita" específica, que praticamente não se altera. Por isso o leite materno sempre tem qualidade e composição adequadas para o bebê, independente da dieta da mãe. Entretanto, junto com o plasma, chega ao leite uma amostragem bem pequena das coisas que a mãe consumiu e absorveu.
Uma porcentagem microscópica de todas as proteínas que chegam na nossa corrente sanguínea pode chegar ao leite materno. As proteínas são variadas e sua concentração é muito baixa, e isso é benéfico, pois estimula o sistema imunológico do bebê. Não há quantidade suficiente para provocar uma reação intestinal, como gases, dores ou "cólica", a não ser que o bebê já tenha sensibilidade para alguma proteína específica (como no caso da APLV). A dieta da mãe não interfere no funcionamento das células da glândula lactífera, portanto, a "receita" do leite materno nunca muda: ele é sempre forte, perfeito e sustenta! A dieta para APLV não muda a composição do leite materno, só tira a proteína do leite de vaca circulante no sangue da mãe, pois ela deixa de consumir leite de vaca, derivados e traços.
E os alimentos que causam gases na mãe, por exemplo, feijão - o pouco que passa para o leite pode afetar o bebê? Alimentos que causam gases não têm esse efeito devido às suas proteínas, mas sim devido a carboidratos específicos - e esses são totalmente degradados, absorvidos ou excretados nos intestinos. Eles não chegam à corrente sanguínea, por isso não passam pelo leite materno e não causam gases no bebê.
Referências:
GONZÁLEZ, Carlos. Manual Prático de Aleitamento Materno. São Paulo: Editora Timo, 2014,p.46 e 47.
Ballard O1, Morrow AL. Pediatrics Clinics of North America 2013 Feb;60(1):49-74.Human milk composition: nutrients and bioactive factors.
(Disponível em: https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pmc/articles/PMC3586783/).
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segunda-feira, 18 de julho de 2016
Tempo de Armazenamento de Leite Materno
Traduzido e adaptado por Marla Stern
Revisão: Sarita Oliveira e Daniela Guerreiro Do Valle
PORQUE HÁ DIFERENTES ORIENTAÇÕES SOBRE ARMAZENAMENTO DE LEITE MATERNO ORDENHADO?
Ler diferentes orientações para armazenamento de leite materno em fontes diferentes pode te deixar confusa! Quais orientações estão corretas? Por que os especialistas não entram em consenso? O que você realmente precisa saber?
A boa notícia é que há explicações lógicas para estas diferenças. E uma vez que você as conheça, você pode armazenar e usar seu leite com confiança.
Ideal versus seguro
Nas orientações dadas no final deste texto, alguns prazos de armazenamento para o leite refrigerado e para o congelado são classificados como “seguro” enquanto outros são classificados como “ideal”. Dentro dos prazos “Seguro” o leite ordenhado não irá estragar. Entre “ideal” e “seguro” o leite ainda estará bom, mas algumas vitaminas, antioxidantes, e outros nutrientes são perdidos. Algumas organizações de saúde, como a Academia de Medicina de Amamentação, recomendam o menor tempo de armazenamento como “Ideal” porque eles preferem que o leite seja consumido antes que estas perdas aconteçam.
É sempre melhor usar seu leite o quanto antes do que mais tarde, porém seu leite não deverá estragar dentro dos períodos de tempo “seguro”. Leite materno encontrado no fundo da geladeira depois de 8 dias ainda vai ser muito melhor para o seu bebê que fórmula.
Qual é a sua temperatura ambiente?
Algumas orientações de armazenamento de LM também variam porque elas levam em consideração diferentes definições de temperatura ambiente. Se você vive em um clima tropical ou subtropical, a maior temperatura ambiente das orientações abaixo deve condizer melhor com a sua realidade. Nas zonas temperadas, a menor temperatura, provavelmente, se encaixe melhor, pelo menos durante as estações mais frias.
Congelado previamente ou não?
O período de armazenamento para o para o LM descongelado é menor que o período de armazenamento do LM fresco ou refrigerado que nunca foi congelado. O congelamento mata anticorpos, que protegem o leite de estragar. Quando as células vivas do leite estão mortas, ele estraga mais facilmente. Quando tiver dúvida, cheire ou prove. Leite estragado tem cheiro de estragado.
A sua situação particular faz diferença
Se você ainda está com dúvida sobre quais orientações seguir e como melhor armazenar seu leite, se faça as seguintes perguntas:
- Seu bebê é saudável? Estas orientações são para bebês a termo, saudáveis em casa (não hospitalizado).
- Se o seu bebê está hospitalizado, as orientações para armazenamento de LM do seu
hospital provavelmente são diferentes destas. Bebês pré termo e doentes são mais vulneráveis a doenças, então as recomendações para ordenha e armazenamento podem ser mais rigorosas.
- Quanto LM ordenhado o seu bebê toma? Se o seu bebê toma a maior parte do LM direto dos seus seios, você não precisa se preocupar se a pequena quantidade de leite ordenhado que ele toma está fresco, refrigerado, ou congelado previamente. Se uma grande parte do LM que o seu bebê toma é leite ordenhado, pese suas opções com mais cautela. O congelamento mata anticorpos, então ao invés de congelar todo o seu leite ordenhado, ofereça a maior quantidade de leite fresco ou refrigerado que você puder. Mas mesmo sem os anticorpos, leite congelado é ainda uma escolha muito mais saudável que fórmula.
Tempo de armazenamento de LM para bebês a termo em casa (não hospitalizados):
Temperatura ambiente (19°C-22°C)
• Fresco, nunca congelado: 6-10 horas.
• Congelado e descongelado: 4 horas.
• Congelado então descongelado, aquecido mas não oferecido ao bebê: usar imediatamente.
• Congelado então descongelado, aquecido e oferecido ao bebê: até que se termine de
oferecer ao bebê (descartar o que sobrar).
Temperatura ambiente (23°C–25°C)
• Fresco, nunca congelado: 4 horas.
• Congelado e descongelado: 4 horas.
• Congelado então descongelado, aquecido mas não oferecido ao bebê: usar imediatamente.
• Congelado então descongelado, aquecido e oferecido ao bebê: até que se termine de
oferecer ao bebê (descartar o que sobrar).
Térmica com gelox
• Fresco, nunca congelado: 24 horas.
• Congelado e descongelado: não armazenar dessa forma.
• Congelado então descongelado, aquecido mas não oferecido ao bebê: não armazenar dessa forma.
• Congelado então descongelado, aquecido e oferecido ao bebê: não armazenar dessa forma.
Geladeira (4°C)
• Fresco, nunca congelado: ideal: até 72 horas, seguro: até 8 dias.
• Congelado e descongelado: 24 horas.
• Congelado então descongelado, aquecido mas não oferecido ao bebê: 4 horas.
• Congelado então descongelado, aquecido e oferecido ao bebê: descartar.
Freezer de geladeira (variável -18°C)
• Fresco, nunca congelado anteriormente: 3 a 4 meses.
• Congelado e descongelado: não armazenar dessa forma (não congelar novamente).
• Congelado então descongelado, aquecido, mas não oferecido ao bebê: não armazenar dessa forma (não congelar novamente).
• Congelado então descongelado, aquecido e oferecido ao bebê: descartar.
Freezer separado fundo (-18°C)
• Fresco, nunca congelado: ideal: até 6 meses, seguro: até 12 meses.
• Congelado e descongelado: não armazenar dessa forma (não congelar novamente).
• Congelado então descongelado, aquecido, mas não oferecido ao bebê: não armazenar dessa forma (não congelar novamente).
• Congelado então descongelado, aquecido e oferecido ao bebê: descartar.
Referências
Jones, F. Best Practices for Expressing, Storing and Handling Human Milk, 3rd edition.
Raleigh, NC: Human Milk Banking Association of North America, 2011.
Mohrbacher, N. Breastfeeding Answers Made Simple. Amarillo, TX: Hale Publishing, 2010.
sábado, 9 de julho de 2016
Como retomar a amamentação exclusiva
Por Ana Beatriz Herreros e Fernanda Rezende Silva
Revisão: Luciana Freitas, Sarita Oliveira, Daniela Guerreiro do Valle
O processo de retomar a amamentação exclusiva, eliminando o LA (leite artificial) não é fácil - é uma mudança grande para a mãe e para o bebê, por isso a mãe precisa estar ciente que o bebê pode demandar mais atenção e chorar mais (se a mãe sabe que isso vai acontecer o processo fica mais fácil). Se for possível: peça ajuda com a casa (talvez o marido possa tirar alguns dias de folga, por exemplo), mas deve-se escolher bem a quem pedir ajuda, pois não adianta chamar uma amiga que vai dizer o tempo todo "você tem pouco leite", "esse bebê chora de fome". Um sling pode ajudar bastante, pois no sling o bebê pode mamar (e até dormir) enquanto a mãe tem as mãos livres para outras atividades da casa.
A grande maioria dos bebês que tomam LA, o fazem em mamadeira, e muitos deles também usam chupeta. O primeiro passo para a mãe que deseja amamentar exclusivamente é se livrar de mamadeiras, chupetas e bicos (protetores) intermediários de silicone, pois eles influenciam na forma como o bebê suga o peito, afetando a produção de leite. Não adianta iniciar a redução do LA se o bebê ainda usa bicos artificiais, pois o bebê que usa bico artificial não ordenha o seio corretamente, não obtém todo o leite de que precisa, e não estimula adequadamente a produção. Para entender como os bicos artificiais atrapalham leia aqui. Chupetas devem ir para o lixo. Mamadeiras devem ser substituídas por copinho, colher ou colher-dosadora - veja opções aqui. Se a mãe usa bico de silicone também deve se livrar dele (veja dicas aqui).
Se o bebê ainda pega o peito, mesmo que por pouco tempo, isso é ótimo. Bebês que estão totalmente desmamados devem primeiro fazer relactação. Bebês que rejeitam o peito precisam de ajuda para voltar a mamar bem.
Agora vamos aos detalhes do LA - como fazer a redução. Fracione as doses para não ter volumes muito altos poucas vezes ao dia (pode fracionar em 3 a 5 doses, conforme o volume), e fixe os horários para oferecê-lo (você pode oferecer a cada quatro ou cinco horas, conforme os sinais de fome ou a rotina prévia). A livre demanda é só para o peito. Procure não oferecer LA de madrugada. Um exemplo prático: se o seu bebê toma 90 ml de LA 2 vezes ao dia, passe a oferecer 60ml de LA, 3 vezes ao dia. Os horários, neste caso, poderiam ser: 10h, 17h, 20h. Se toma 150ml 3 vezes ao dia, pode passar a tomar 90ml 5x ao dia. Os horários são uma referência. Não se desespere caso não sejam seguidos rigorosamente - é importante ter um planejamento de horários mas não há problema se atrasar ou adiantar um pouco.
Ofereça SEMPRE o peito antes do LA. Tente deixar o máximo de tempo em cada seio, até o bebê largar sozinho ou se irritar demais. Troque de seio uma ou duas vezes antes do LA, para garantir estímulo aos dois seios. Exemplo: bebê mamou o peito direito, reclamou: ofereça o peito esquerdo, bebê reclamou de novo: volte para o peito direito, reclamou mais uma vez: ofereça o peito esquerdo novamente - se o bebê não aceitar de novo o peito esquerdo, ou estiver ficando muito impaciente, aí sim é hora de oferecer o LA. O bebê pode não tomar o LA todo. Tente oferecer, mas não o force a tomar.
Estimule a produção de leite materno. Pratique a livre demanda verdadeira, sempre verificando se a pega está correta. Ofereça o peito o tempo todo, sempre ao menor sinal de que possa querer mamar (aqui o sling ajuda muito). Bebê acordou? Peito! Bebê resmungou? Peito! Bebê agitado? Peito! Ofereça o tempo todo, mas não se chateie caso o bebê, em alguns momentos, não queira mamar - ele está apenas lhe dizendo que está satisfeito. Peito murcho também tem leite. Tomar banho juntos, contato pele-a-pele e cama compartilhada ajudam a estimular ainda mais a produção de leite. Faça intensivo de peito: não deixe passar mais de duas horas sem oferecer o peito durante o dia (a menos que o bebê esteja dormindo) e 3 horas à noite. Não precisa acordar o bebê à noite para mamar, basta oferecer o peito, com o bebê dormindo mesmo: deite ao lado do bebê, toque o mamilo (molhado com um pouco de leite) nos lábios do bebê - se mamar ok, se não mamar deixe o bebê dormir.
Após fixar a quantidade e os horários de LA pode começar a redução: a cada dois dias retirar 10 ml de cada dose de LA oferecida. Se hoje o bebê toma doses de 120 ml: em dois dias reduzir cada dose para 110ml, em mais dois dias reduzir para 100ml, depois 90ml etc.. Sempre oferecer o peito primeiro, depois o LA e depois tentar novamente o peito.
Questões práticas da redução do LA: prepare uma porção múltipla de 30ml, retire a diferença usando uma seringa e JOGUE FORA. Exemplo: se o bebê vai tomar 110ml, prepare 120ml, retire 10ml na seringa e descarte. Jogue fora mesmo o que foi retirado na seringa para não cair na tentação de oferecer ao bebê.
Fique atenta aos sinais do seu bebê. Observe a cor do xixi: se estiver sempre clarinho é um indicador que o bebê está mamando bem. As fezes podem ficar menos frequentes, e isso não é sinal de constipação, já que o LM é melhor aproveitado. Pese seu bebê uma vez por semana, sempre na mesma balança, e esteja consciente de que o ganho de peso poderá desacelerar (bebês de mamadeira geralmente são super alimentados) - se o bebê se mantém com ganho de peso constante e dentro do mesmo canal (espaço entre duas curvas) do gráfico de curvas de percentis ou z scores (que se encontra na caderneta da criança do seu bebê e deveria ser preenchido pelo pediatra), então está tudo indo bem.
A sugestão é reduzir de 10 em 10 ml, porém seu bebê pode querer reduzir mais rápido do que isso - se você se sente segura pode acelerar a redução. Um exemplo: o bebê deveria tomar 90ml em cada dose de LA, mas durante um dia inteiro não tomou mais do que 70ml, então pode continuar a redução a partir dos 70ml.
Resumindo:
1- Jogue fora todos os bicos artificiais (chupetas, mamadeiras, bicos de silicone) e passe a oferecer o mesmo volume de LA em um recipiente seguro (copo, colher).
2- Aumente a produção de leite fazendo um intensivo de peito. Não deixe passar mais de 2 horas sem oferecer o peito de dia nem mais de 3 horas de noite.
Lembre que o bebê deve estar mamando bem no peito, livre da interferência de bicos artificiais, antes de começar a reduzir o LA. Você pode demorar alguns dias na fase 2 até sentir que o bebê está confortável no peito.
3- Redução do LA: a cada 2 dias reduzir 10ml de cada dose de LA, até zerar o volume, ou até chegar ao mínimo com que o bebê ganhe peso e se mantenha na sua curva.
IMPORTANTE: o bebê deve ser pesado uma vez por semana durante toda a redução.
Não pule mamadas, não pule os horários do LA, nem faça a redução de uma vez, pois isso pode atrapalhar o ganho de peso e ser prejudicial ao seu bebê.
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sexta-feira, 1 de julho de 2016
Doação de Leite Humano
Quem pode ser doadora de leite humano?
Algumas mulheres quando estão amamentando produzem um volume de leite além da necessidade do bebê, o que possibilita que sejam doadoras de um Banco de Leite Humano.
De acordo com a legislação que regulamenta o funcionamento dos Bancos de Leite no Brasil (RDC Nº 171) a doadora, além de apresentar excesso de leite, deve ser saudável, não usar medicamentos que impeçam a doação e se dispor a ordenhar e a doar o excedente.
Como doar?
Se você quer doar seu leite entre em contato com um Banco de Leite Humano.
Clique aqui e veja o mais próximo de você. Veja aqui os Bancos de leite ou postos de coleta na sua região>http://www.redeblh.fiocruz.br/cgi/cgilua.exe/sys/start.htm?sid=393
Como preparar o frasco para coletar o leite humano?
- Escolha um frasco de vidro com tampa plástica, pode ser de café solúvel ou maionese;
- Retire o rótulo e o papelão que fica sob a tampa e lave com água e sabão, enxaguando bem;
- Em seguida coloque em uma panela o vidro e a tampa e cubra com água, deixando ferver por 15 minutos (conte o tempo a partir do início da fervura);
- Escorra a água da panela e coloque o frasco e a tampa para secar de boca para baixo em um pano limpo;
- Deixe escorrer a água do frasco e da tampa. Não enxugue;
- Você poderá usar quando estiver seco.
Como se preparar para retirar o leite humano (ordenhar)?
O leite deve ser retirado depois que o bebê mamar ou quando as mamas estiverem muito cheias.
Ao retirar o leite é importante que você siga algumas recomendações que fazem parte da garantia de qualidade do leite humano distribuído aos bebês hospitalizados:
1- Escolha um lugar limpo, tranquilo e longe de animais;
2- Prenda e cubra os cabelos com uma touca ou lenço;
3- Evite conversar durante a retirada do leite ou utilize uma máscara ou fralda cobrindo o nariz e a boca;
4- Lave as mãos e antebraços com água e sabão e seque em uma toalha limpa.
Como retirar o leite humano (ordenhar)?
Comece fazendo massagem suave e circular nas mamas.
Massageie as mamas com as polpas dos dedos começando na aréola (parte escura da mama) e, de forma circular, abrangendo toda mama.
Video-aula sobre ordenha manual
É ideal que o leite seja retirado de forma manual:
- Primeiro coloque os dedos polegar e indicador no local onde começa a aréola (parte escura da mama);
- Firme os dedos e empurre para trás em direção ao corpo;
- Comprima suavemente um dedo contra o outro, repetindo esse movimento várias vezes até o leite começar a sair;
- Despreze os primeiros jatos ou gotas e inicie a coleta no frasco.
Se você estiver com dificuldade de retirar seu leite, procure apoio no Banco de Leite Humano mais próximo de você.
Como guardar o leite retirado para doação?
O frasco com o leite retirado deve ser armazenado no congelador ou freezer.
Na próxima vez que for retirar o leite, utilize outro recipiente esterilizado e ao terminar acrescente este leite no frasco que está no freezer ou congelador.
O leite pode ficar armazenado congelado por até 15 dias.
O leite humano doado, após passar por processo que envolve seleção, classificação e pasteurização, é distribuído com qualidade certificada aos bebês internados em unidades neonatais.
(Texto retirado do site da Rede Brasileira de Bancos de Leite humano:
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