Por Zioneth Garcia, Fernanda Rezende Silva, Marcos Mendes e Ana Beatriz Herreros
Existem várias situações nas quais um bebê pode precisar de ajuda para aprender (ou reaprender) a mamar no peito: logo que nasce, quando passa por períodos longos de internação sem a possibilidade de mamar e quando passa por confusão de bicos - para todas essas situações as técnicas descritas neste texto serão úteis.
É estranho pensar que um bebê que acabou de nascer possa precisar de ajuda para mamar, pois este ato deveria ser instintivo. Sim, mamar é instintivo, o bebê precisa mamar para sobreviver, mas mamar e estimular corretamente o seio é uma aprendizagem e esta pode levar mais tempo em alguns casos. Na prática isso não deveria ser um problema - é normal a dupla mãe/bebê demorar um pouco a se acertar - mas nós sabemos que existe uma expectativa muito grande para que este bebê ganhe peso logo, então, para tentar evitar a indicação precoce de LA, é uma boa ideia dar uma ajudinha para que o bebê fique logo craque na arte de mamar.
Algumas interferências sofridas no nascimento, que levam à separação do bebê de sua mãe, podem atrapalhar o instinto de sucção do recém nascido, por exemplo: prematuridade (mesmo tardia), hipoglicemia, desconforto respiratório, falta de preparo da equipe médica (que acaba separando mãe e filho sem necessidade). É importante ressaltar que mesmo em casos de cesárea, se o bebê se encontra saudável, o alojamento conjunto desde o momento do nascimento é um direito da dupla protegido por lei. O bebê pode e deve ser colocado no colo da mãe para ter seu primeiro contato físico e tentar mamar, ativando assim seus instintos de sucção inatos.
E porque falamos em reaprender a mamar? Porque as dificuldades enfrentadas desde o nascimento têm provocado desmames cada vez mais precoces, porém queremos que as mães saibam que é possível reverter o quadro na maioria das vezes. Muitos bebês passam por confusão de bicos o que os leva a desaprender a mamar no peito - eles se acostumam com o tipo de sucção da chupeta e/ou da mamadeira (e com o fluxo contínuo da mamadeira, que não é o mesmo do peito) e por isso têm dificuldade para mamar no seio - tentam fazer no peito o mesmo tipo de sucção da mamadeira/chupeta, mas a sucção/ordenha do peito é completamente diferente da sucção dos bicos artificiais (no peito o bebê ordenha o leite antes de mamar), por isso bebês em confusão de bicos estão desaprendendo a mamar: são incapazes de obter do seio da mãe o alimento e o conforto emocional que ele deve oferecer.
O que pode ser feito então quando um bebê precisa de ajuda para mamar? O primeiro passo é, sem dúvida eliminar os bicos artificiais. Não adianta nada tentar ensinar um bebê a mamar se ele continua usando chupeta e/ou mamadeira - isso só trará mais sofrimento para mãe e bebê. Se o bebê toma LA (leite artificial) este deve continuar a ser oferecido até sua mãe garantir a sucção eficiente do seio (que estimula a volta da produção de leite materno na quantidade que o bebê precisa), porém esse LA deve ser oferecido de outra forma (copinho, por exemplo).
O segundo passo é estimular o bebê a procurar o seio. A mãe pode ficar sem sutiã e sem blusa, deitada na cama, de forma confortável (por exemplo, apoiada em travesseiros) com o bebê deitado de bruços (só de fralda) sobre seu peito, perto do seu coração, acariciando-lhe as costas e conversando com ele, de forma que ele fique tranquilo, relaxado - assim ele terá estímulo para procurar o seio. Outra ideia é a mãe ficar sem blusa e sem sutiã e colocar o bebê só de fralda em um sling - ele ficará coladinho no corpo da mãe, sentindo seu cheiro - isso ajudará a estimular a vontade de mamar, e o livre acesso ao peito facilitará as tentativas do bebê. O contato pele a pele sempre acalma, fazendo disso uma rotina o bebê passará a associar o seio a essa sensação de calma e segurança.
Especialmente para casos de confusão de bicos, costuma funcionar: amamentar o bebê quando ele estiver sonolento, tomar banho de chuveiro com o bebê (e tentar amamentar o bebê no banho).
As dicas acima ajudam, mas sempre é melhor (e muito mais fácil) prevenir do que remediar: não tenha bicos artificiais em casa, não use nunca - esta atitude pode parecer difícil mas com certeza evitará problemas futuros.
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domingo, 8 de fevereiro de 2015
quinta-feira, 13 de novembro de 2014
Como identificar sinais de Confusão de Bicos
Por Leidiana Pereira
Revisão: Zioneth Garcia e Luciana Freitas
Por mais que seja um costume cultural e muitos achem que não há problema algum em oferecer mamadeira e/ou chupeta a um bebê, desde os recém-nascidos até os mais velhos, é inquestionável o que sugerem as evidências científicas. Existem vários estudos e textos que indicam malefícios do uso de bicos artificiais. Por exemplo, Carlos Gonzalez, pediatra espanhol apoiador da amamentação, é autor de um texto no qual explica para as mães sobre a confusão de bicos (1). Andréia Stankiewicz, odontopediatra, em seu ensaio “A chupeta: o que toda mãe (e pai) deveria saber antes de oferecer uma chupeta para o seu bebê" (2), aborda amplamente os malefícios do uso desses bicos. Cristine Nogueira Nunes, doutora em Design, desenvolveu uma tese reconhecendo os efeitos do desenho da mamadeira em uma abordagem multidisciplinar (3) e, como resultado, criou o blogMamadeira nunca mais.
No Grupo Virtual de Amamentação, sempre chamou a nossa atenção o número expressivo de mães que nos procuram com bebês em processo de desmame por confusão de bicos. Iniciamos, então, a reunir esses casos e o resultado pode parecer surpreendente para aqueles que negam a possibilidade de o bebê que usa bicos artificiais deixar o peito em função disso (4). Muitas vezes acontece de a mãe estar muito cansada, ter que cuidar da casa, ter mais de um filho, estar em época de retorno ao trabalho e não contar com uma rede que possa dar o suporte necessário durante esse período tão importante de amamentação e de cuidados com o bebê. Portanto, esses e outros fatores podem acabar contribuindo para que a chupeta e mamadeira entrem em cena, prejudicando diretamente a amamentação. Os motivos e justificativas para o seu uso são incontáveis, porém é importante salientar que nosso trabalho é alertar, informar e orientar para que a amamentação transcorra de forma saudável, equilibrada e sem interferência de artifícios não apenas desnecessários, mas prejudiciais à saúde de nossos filhos. Como dissemos anteriormente, não importa se o bebê começou a fazer uso dos bicos artificiais quando sai da maternidade ou quando já está com 18 meses; tampouco importa se usa muitas ou poucas horas por dia: o risco existe, é iminente e pode acontecer a qualquer momento, por mais que a mãe não perceba os sinais.
Em todos os casos acompanhar de perto os diferentes sinais que o bebê oferece é importante para saber identificar as causas das necessidades aumentadas de sucção em cada idade, dessa forma é possível oferecer alternativas que satisfaçam realmente as necessidades do bebê. Não é raro a necessidade de sucção aumentar nos picos de crescimento e saltos de desenvolvimento, essa sucção aumentada é o mecanismo que o organismo do bebê tem para sinalizar ao corpo da sua mãe que deve aumentar a produção de leite materno para a próxima fase de vida, e nesses casos o uso de chupetas e mamadeiras podem atrapalhar enormemente a adequação da produção de leite materno à nova fase de vida do bebê. Muitas vezes a chupeta é um mecanismo usado para acalmar o bebê enquanto sua mãe ou cuidador realiza outras tarefas. Porém, aprender a priorizar, delegar e adiar as outras atividades é importante para conseguir observar e atender as necessidades dos bebês no tempo certo. O bebê que pede sucção está pedindo sua mãe e ao receber uma chupeta pode acabar dormindo sem mamar, de fralda suja, com uma etiqueta incomodando ou simplesmente com a sensação de ter sido abandonado. O uso de carregadores, ninho e diferentes estratégias para alongar as sonecas pode permitir a realização de algumas tarefas domesticas sem precisar que o bebê supra a sucção com bicos artificiais. Quando o bebê é deixado ao cuidado de terceiros mais que a sucção é importante suprir a demanda de atenção e carinho, se ele é amamentado suprirá sua demanda de sucção com sua mãe. A alimentação pode ser oferecida em copinho, colher ou copinho de transição de bico rígido e sem válvula. Em casos em que o bebê procura na sucção o alivio para o mal-estar da dentição podem ser usados como alternativas o uso de mordedores geladinhos, massagens na gengiva com os dedos da mãe ou pai ou mesmo oferecer picolé de leite materno, dessa forma o bebê obterá o alivio que precisa.
Aqui vamos ater-nos exatamente neste ponto: quais os sinais que o bebê amamentado que também faz uso de chupetas ou mamadeiras dá quando está passando pela confusão de bicos? Vamos dividi-los em três grupos distintos: sinais moderados, graves e muito graves.
SINAIS MODERADOS:
- morder o seio com maior frequência;
- apresentar dificuldade para realizar a pega do seio inicialmente, ele pode abocanhar o seio segurando-o pelo mamilo, pode ser necessário ajudá-lo a abrir a boca para acertar a pega;
- ao final da mamada empurra o seio para fora da boca para segurar apenas o mamilo;
- aceitar mamar apenas quando está dormindo ou sonolento;
- deixar os mamilos feridos ou assados após a mamada.
SINAIS GRAVES:
- chorar ao final das mamadas, querendo pegar a chupeta para dormir;
- chorar ou "brigar" com o seio no começo da mamada porque não sai leite materno imediatamente;
- recusar o seio como consolo em diversas situações.
SINAIS MUITO GRAVES:
- ter ânsia de vômito quando abocanha o seio;
- preferir claramente a mamadeira ou a chupeta ao seio;
- pouco ganho de peso.
As mães que amamentam e que desejam manter o aleitamento devem ter a atenção voltada ao bebê, caso faça uso dos bicos artificiais, pois esses sinais são importantes e servem de alerta de que algo não está bem com a amamentação. Nos casos de bebês que apresentem um ou mais sinais semelhantes aos da confusão de bicos e que realmente não façam nenhum tipo de uso de bicos artificiais, outras possibilidades devem ser levantadas, de preferência com o acompanhamento de um profissional ou de um grupo de apoio à amamentação.
As recomendações da Organização Mundial da Saúde, que são, em geral, seguidas pelos respectivos Ministérios da Saúde dos países, são muito claras em relação à amamentação, destacando-se aqui o número 9: “Não dar bicos artificiais ou chupetas a crianças amamentadas.” (5). Devemos entender que essa orientação não pode ser infundada e tomarmos consciência de que o uso de bicos artificiais por lactentes pode causar um desmame precoce, leia-se, aquele que ocorre antes dos 2 anos de idade da criança, além de outros problemas, de diversas naturezas.
Cabe às mães, pais e cuidadores em geral, oferecer aos bebês todo apoio emocional e nutricional de que eles necessitam, preferencialmente sem a interferência de apoios artificiais. Bebê precisa de calor humano e não de uma borracha que tenta imitar o seio materno.
Referências
1. Carlos González. 2009. Comer, Amar, Mamar. Madrid: Temasdehoy, p.288-291.
2. Stankiewicz, Andréia. A chupeta: O que toda mãe (e pai) deveria saber antes de oferecer uma chupeta para o seu bebê. Disponível em:http://grupovirtualdeamamentacao.blogspot.com.br/2014/07/a-chupeta-o-que-toda-mae-e-pai-deveria.html
3. Nunes, Cristine Nogueira. O design da mamadeira por uma avaliação periódica da produção industrial. Disponível em:http://www.bvsam.icict.fiocruz.br/lildbi/docsonline/pdf/Cristine_Nogueira_Nunes.pdf
4. Grupo Virtual de Amamentação. Confusão de Bicos é real. 2014. Disponivel em:
5.UNICEF. Dez Passos para o Sucesso do Aleitamento Materno. Disponível em:http://www.unicef.org/brazil/pt/activities_9999.htm
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