sábado, 1 de agosto de 2015

Adaptação a um novo cuidador em 4 passos

Por:Tracy G. Cassels
Tradução e adaptação: Gabriela de O. M. da Silva
Link para o original: http://evolutionaryparenting.com/transition-to-a-new-caregiver/

Uma das coisas mais difíceis para os pais fazerem é deixar o bebê nas mãos de outra pessoa. Mesmo quando esse outro, é alguém da família. Separar-se do bebê, pela razão que for, pode ser muito difícil, e quando o tempo de separação precisa ser longo (um dia de trabalho, por exemplo), fica mais complicado ainda. Uma parte disso vem do fato de ser muito comum ouvirmos histórias de bebês que começam a gritar, chorando, assim que os pais saem. Ao final do dia descobre-se que passaram horas gritando, até finalmente desistirem. Os cuidadores sempre afirmam que é comum e vai passar, mas muitos de nós temos a preocupação com o que vai acontecer com a confiança que nossos filhos depositam em nós. Algumas crianças se adaptam rapidamente, sem muitos problemas, mas outros sofrem bastante e nós, enquanto pais, pressentimos o que vai acontecer antes mesmo de começarem esses períodos de separação. E isso pode gerar muito estresse para nós e nossos filhos.

Mas o que podemos fazer? Vou indicar quatro passos que os pais podem seguir a fim de ajudar na adaptação dos bebês a um novo cuidador. [Estas sugestões podem não funcionar para todos, especialmente se o bebê está passando por uma fase forte de ansiedade da separação, então nesse caso cabe a cada família decidir como levar em conta suas necessidades e as necessidades do bebê.] Os passos partem do pressuposto de que você vai ter um cuidador em casa ou encontrou uma creche que permite sua presença por uma boa quantidade de horas durante algumas semanas, ajudando na adaptação. Nem todas as creches permitem isso(infelizmente). Se você tem uma criança que reage bastante às separações, seria bom ter isso como critério na hora de escolher a creche, se possível.


1º passo:Todos juntos
Um dos passos mais importantes para que sua criança sinta-se confortável é garantir que haverá uma exposição ao novo cuidador, estando você junto com ela. Conforme essa nova pessoa se torna uma presença constante na vida do bebê, ele tem mais chances de sentir-se confortável sob os cuidados dela quando você estiver ausente.

Obviamente,o tempo que demora para que isso ocorra varia de uma criança para outra, então quanto mais cedo começarem, melhor. A alimentação é uma das formas que você pode usar para ajudar nessa transição, principalmente se o cuidador vai  alimentar o bebê na sua ausência. Se você amamenta e vai deixar leite materno ordenhado, você pode observar como o bebê reage ao ser alimentado pelo cuidador, mesmo que para isso você comece segurando-o no seu colo, e o cuidador oferecendo o leite (ou vice-versa).
Outras dicas que ajudam: ter a presença do cuidador enquanto você troca a roupa ou a fralda do bebê, e tentar que essa pessoa faça a troca por algumas vezes na sua presença; deixar que o cuidador o segure no colo enquanto você estiver por perto pelo tempo que o bebê permitir; e deixar que o cuidador tente acalmar seu bebê no próprio colo, apenas ouvindo sua voz, antes de devolvê-lo imediatamente para os seus braços.


2º passo: Separações rápidas até o cômodo ao lado
O próximo passo é tentar separações breves, de forma que seu bebê consiga escutar o som da sua voz explicando que está apenas indo ao cômodo ao lado e já vai voltar.Você pode ir aos poucos aumentando o tempo que permanece fora do campo de visão dele, mas sempre retorne assim que ele chamar por você. Comece com cinco minutos (ou menos, se necessário), e tente deixar a criança com o novo cuidador(em cuja presença ela já deve estar se sentindo confortável a essa altura),enquanto você sai do ambiente. Se em algum momento a criança chamar por você,volte imediatamente para  confortá-la, e só tente repetir depois de um tempo (pelo menos meia hora) a separação. Vá aumentando os intervalos de tempo no ritmo que for mais confortável para você e o bebê, mas não aumente muito mais que 5 minutos a cada dia.

Além disso, você pode também começar a aumentar o tempo que demora para retornar quando a criança se mostra chateada. Nos primeiros dias, retorne imediatamente.Seu filho precisa acreditar fortemente que você sempre vai retornar para ficar com ele. Contudo, assim que começar a aumentar o tempo que fica no outro cômodo, você pode também aguardar um minuto para ver se o cuidador consegue acalmá-lo sem a sua presença. Contudo, não demore mais que alguns minutos, pois isso pode tornar negativa para o bebê a experiência de ficar com o cuidador, e assim tornar mais difícil o processo de criação de vínculo afetivo entre eles. Recomendo anotar o tempo que você consegue se distanciar. E tenha em mente que vão acontecer altos e baixos durante a adaptação, por isso não se assuste. Não é porque em um dia seu filho conseguiu ficar 10 minutos longe, e no dia seguinte apenas 5, que você vai pensar que não estão fazendo progressos, é apenas um solavanco na estrada.


 3º passo: Separações rápidas, saindo de casa
Assim que você conseguir ficar longe por 30 minutos sem que seu filho o chame de volta,pode começar a sair de casa (ou permitir que a criança e o cuidador saiam para dar um volta, se for o caso do cuidador ser uma babá ou membro da família). Isso quer dizer que não conseguirá retornar imediatamente no caso da criança ficar triste e chamar por você. Explique isso a ele(a). Não importa o quão novinhos sejam, se você criar o hábito de explicar esse tipo de coisa desde cedo, vai ser bastante útil mais adiante, e se seu filho já puder entender mesmo que parcialmente, já vai ajudar. Algumas crianças irão se sentir melhor com um novo cuidador em um ambiente diferente, enquanto outras preferirão permanecer no mesmo ambiente (em casa, por exemplo). Você precisa saber como seu filho reage e fazer os arranjos adequados às necessidades dele(a) se for possível.

 Mais uma vez, você vai aos poucos aumentando o tempo de separação, começando com os 30 minutos que vocês já conseguiam ficar longe dentro de casa. Isso permite ao novo cuidador ter tempo para acalmar acriança no caso de ficar chateada ou começar a chorar. Recomendo sempre que você esteja com um telefone à mão para conseguir ser alcançado. Se o bebê começar a ficar histérico, é melhor dirigir-se diretamente a ele: deixe que o cuidador coloque seu filho no telefone para que você possa explicar que está voltando imediatamente. Se isso acontecer, não tente sair novamente naquele dia, deixe para o dia seguinte, e permaneça ao lado do cuidador por um tempo extra, permitindo que a criança se acalme e fique novamente segura na presença dele. Mais uma vez, pode haver altos e baixos no processo, e a melhor coisa que você pode fazer para a sensação de segurança do seu bebê, é estar por perto e atendê-lo assim que precisar de você. Antes de ir para o passo número 4, você já deve estar conseguido ficar longe por pelo menos metade do tempo em que ficará no trabalho.


4ºPasso: Separações longas, mas podendo retornar rapidamente
Assim que vocês conseguirem passar metade do tempo do seu dia de trabalho com poucas dificuldades, você pode começar a tentar aumentar o tempo de separação para o horário integral. Contudo, o fundamental é que você possa retornar rapidamente caso algo dê errado. Tenha certeza de que não ficará em um local a 1 hora de distância, mas sim de preferência 10 minutos apenas, para que o cuidador consiga entrar em contato caso seu filho fique chateado.
A chave para o sucesso dessa etapa é garantir que você irá responder ao chamado do bebê o mais rápido possível nesse período de longa ausência. Provavelmente você não vai conseguir fazer isso sempre assim que voltar ao trabalho, então é preciso construir na criança esse senso de segurança. Além disso, ele vai aprender que o cuidador vai conseguir trazer de volta a mamãe ou o papai quando for mesmo necessário, e isso pode ajudar a fortalecer o vínculo de confiança entre eles. Mas ao final desta fase (que pode não demorar muito, ou demorar uma semana ou mais), seu filho deve sentir-se seguro e confiante com o novo cuidador, e seguro e confiante de que você enquanto pai ou mãe ainda estarão presentes quando for extremamente necessário para ele.


                                                                               ***


O ponto principal nessa adaptação é seguir o ritmo da criança, oferecendo sempre segurança e evitando levá-los para muito longe da zona de conforto. Eles já estão sendo forçados a ficar um pouco mais distante do que é mais seguro para eles, o que é normal (afinal de contas, é isso que desenvolver qualquer habilidade requer),mas ir muito longe ou muito rápido pode ser traumático. Permitir que a própria criança dê os passos necessários para o seu conforto em um ambiente diferente,pode facilitar bastante a situação para todos.

Reforço que sei que isso pode não ser possível sempre. Ou necessário. Algumas crianças simplesmente se adaptam muito mais rápido que outras e demoram poucos dias para se acostumarem a alguém diferente. Ótimo! Isso é para as crianças que não se encontram nessa situação. Contudo, o problema dessa possibilidade é a questão central. Frequentemente as creches não querem a presença dos pais, e têm a crença equivocada de que as crianças se adaptam rapidamente, mas sabemos que isso não é o caso de muitas crianças que começam a mostrar aumento na resposta ao estresse em ambientes de creche de período integral, mesmo depois que chegam na fase de parar de chorar.[1][2].  Crianças com apego seguro aos pais não mostram essas respostas ao estresse quando um deles está presente na fase de adaptação, mas essas respostas aparecem assim que o responsável precisa ir embora (nesses estudos o período de adaptação era de 3 dias). Por isso um período mais longo de adaptação pode ajudar. Se possível, procure uma creche que ofereça essa possibilidade, ou uma babá que possa fazer esse tipo de adaptação caso necessário.

Outro problema é que muitas famílias simplesmente não têm o tempo necessário para aplicar esses quatro passos, já que duram um período de tempo extenso. Isso é uma questão predominante nos Estados Unidos, onde as licenças podem ser de 6 semanas (ou ainda mais curtas). Não há tempo para se conectar e depois  fazer uma adaptação. De certa forma, bebês tão novinhos se adaptam a novos cuidadores facilmente, então a dificuldade passa a ser encontrar um ótimo cuidador. A grande maioria das creches nos Estados Unidos não são boas, infelizmente, e não proporcionam a atenção individualizada de que os bebês pequenos precisam. O outro lado disso, é a luta por licenças maternidade mais longas.

Independente da sua situação, o mais importante é encontrar um cuidador em que você confie e que trate seu bebê com amor e respeito. Isso pode significar que ele(a) irá te ligar várias vezes durante as primeiras etapas, mas é parte da adaptação e de ajudar seu filho a saber que você estará por perto quando for necessário. Há excelentes cuidadores por aí, só é preciso procurar um pouco! Boa sorte!

[1] Ahnert L, Gunnar MR, LambME, Barthel M.  Transition to child care: associations with infant-motherattachment, infant negative emotion, and cortisol elevations.  ChildDevelopment 2004; 75: 639-650.
[2] Watamura SE, Donzella B,Alwin J, Gunnar MR.  Morning-to-afternoon increases in cortisolconcentrations for infants and toddlers at child care: age differences andbehavioral correlates.  Child Development 2003; 74: 1006-1020.

sábado, 25 de julho de 2015

SMAM 2015

O tema da Semana Mundial de Aleitamento Materno 2015 (que ocorrerá entre 1/8 e 7/8) é "Amamentar e Trabalhar é Possível" (http://www.aleitamento.com/promocao/conteudo.asp?cod=2007).


Como parte dos eventos da SMAM 2015 o GVA publicará uma série de vídeos - um vídeo por dia - sobre o tema "Retornar ao trabalho sem desmamar". Várias moderadoras contarão suas experiências de volta ao trabalho e responderão dúvidas enviadas por participantes.
Você amamenta e tem alguma dúvida sobre a volta ao trabalho? Envie-nos sua pergunta no e-mail: smamgva2015@gmail.com. As perguntas serão selecionadas e respondidas na série de vídeos do evento. No assunto do e-mail colocar "SMAM 2015". As perguntas devem ser enviadas até dia 27/07/2015.
#WABA #WBW2015 #breastfeeding #maternity #mother #SMAM2015 #GVA #amamentação #volta_ao_trabalho


https://www.facebook.com/gvamamentacao/photos/a.167058623346510.49117.166584723393900/985529271499437/?type=1&permPage=1

quinta-feira, 16 de julho de 2015

As mulheres podem amamentar - como as mudanças culturais as fizeram duvidar disso

Por Fernanda Rezende Silva
Revisão: Juliana Gieppner, Gabriela Silva e Luciana Freitas


Era uma vez um país chamado ABC onde as mulheres amamentavam seus bebês com naturalidade - elas não se sentiam constrangidas por amamentar em público, mesmo se fosse um bebê grande ou uma criança, pois todas faziam isso. Era comum ver crianças de 7 anos que ainda mamavam e ninguém via problemas nisso.

Para amamentar as mães não precisavam de relógios, regras ou artefatos - davam o peito sempre que estavam com seus filhos e eles pediam, e isso não era motivo para se sentirem presas ou cansadas (1). Elas acreditavam no poder do próprio leite pois praticamente todas as mulheres próximas amamentaram, então elas sabiam que não ser capaz de amamentar era algo tão raro quanto uma criança nascer sem um dedo, por exemplo.

Quando uma mulher engravidava ela já tinha a experiência de ter visto outras mães amamentando e já tinha aprendido também, pelo exemplo, que um recém-nascido depende 100% da mãe, então logo se formava sua rede de apoio para o puerpério. Estar com o bebê sempre no colo e dormir junto com o bebê (2) eram coisas tão naturais quanto a própria amamentação.

Num certo dia chega neste país a notícia sobre um artefato que prometia acabar com o choro dos bebês instantaneamente, mesmo sem a mãe do bebê por perto. Diziam que o tal artefato já era usado no "estrangeiro" com sucesso - parecia ser algo tão inovador quanto a televisão ou a internet. Tanta propaganda fez com que vários pais e mães resolvessem testar o objeto, com o inocente pensamento "se for ruim a gente para".

No "estrangeiro" já havia indústrias lucrando com as vendas do artefato, mas elas queriam mais: o departamento de marketing estava encarregado de convencer mais pessoas a usarem o produto e para cumprir esta meta criaram dois mitos, que alavancaram as vendas: chupar chupeta é melhor que chupar dedo (3); bebê que usa chupeta fica menos grudado na mãe e cresce mais "independente".

Durante alguns meses parecia estar tudo bem lá no país ABC, o país do início do texto, mas depois de um tempo já se percebia que a maioria dos bebês haviam desmamado precocemente (antes de 2 anos) (5, 6). Estes bebês pararam de mamar no peito mas continuaram precisando de leite, o que fez aumentar o uso (e as vendas) de mamadeiras.

Algumas pessoas desconfiaram que chupetas e mamadeiras fossem culpadas pelos desmames, mas o efeito nem sempre era imediato, então a maioria das pessoas não fazia essa associação - logo começaram a culpar as mães e duvidar da capacidade delas de produzir leite. As pessoas não tinham explicação para o novo fenômeno "desmame precoce", então quando um bebê desaprendia a mamar no peito diziam que o leite da mãe tinha secado (7) e inventavam as mais fantasiosas histórias para justificar isso, por exemplo: bebê arrotou no peito e isso fez o leite secar, a mãe voltou a menstruar por isso o leite secou, a mãe ficou sem leite porque passou uma grande tristeza (8).

Conforme o tempo foi passando as mães já não tinham muitos exemplos de mulheres próximas que amamentaram e isso fez surgir um novo problema: pega errada (9). Elas colocavam seus bebês para mamar no peito como se fossem tomar mamadeira, os bebês não conseguiam abocanhar corretamente o peito, o uso de chupetas fazia a pega piorar muito, os seios feriam e muitas desistiam pensando "amamentar é muito doloroso, difícil" - esta era a mensagem que infelizmente seria passada para as próximas gerações, tanto que algumas mulheres decidiam nem tentar e já levavam mamadeiras para a maternidade.

Junto com a imagem do "bebê independente" passaram também a vender a ideia de que bebês deveriam dormir em berços, mas para que esta indústria tivesse sucesso também precisavam de um bom argumento, então mais um mito foi criado: dormir com os pais é perigoso, todos os bebês devem dormir em berços (hoje sabemos que é uma ideia tão sensacionalista quanto dizer "uma criança morreu afogada numa piscina, então nenhuma criança deveria entrar em piscinas") (10). E mais um mito colaborou com as vendas de berços: se a mãe amamenta deitada causa otite no bebê (11).

As indústrias estavam rindo à toa, mas não contavam com um detalhe: a fisiologia da raça humana não mudaria tanto em tão pouco tempo, o que significa que os bebês não aceitaram facilmente este novo cenário: eles precisavam estar com suas mães, dormir com elas, mamar também de madrugada (12). Como as mães já não podiam dormir com seus bebês, ficavam extremamente cansadas, ansiavam pelo dia em que seus filhos dormiriam a noite toda (13), e isso criou mercado para "especialistas" do sono - muitas técnicas foram inventadas para tentar enquadrar os bebês que resistiam a toda essa "modernidade". E como estas técnicas poderiam atrapalhar ainda mais a amamentação? Uma delas se baseava no mito de que bebê novinho só chora por fome. Já não havia muitos exemplos de bebês amamentados, então também se perderam as referências sobre os motivos do choro - cada vez que o bebê chorava aparecia uma "boa alma" para dizer: "você tem pouco leite", "seu leite é fraco" (14). O mito do leite fraco surgiu com força total, daí veio a ideia "empanturre esse bebê com leite artificial para ele não acordar à noite". Durante alguns meses a técnica funcionava - o bebê ia dormir realmente empanturrado (como um adulto ao comer uma feijoada) e aí o bebê não acordava nem quando precisava (ex.: apneia em bebê empanturrado pode ser fatal).

Neste ponto da história a inversão já estava feita: as pessoas passaram a considerar normal o comportamento dos bebês de mamadeira, e não o dos bebês de peito. Ficavam com dó do bebê se uma mãe dizia que o bebê não pegou chupeta. Achavam estranho ver crianças com mais de um ano mamando, e aí as mães dos bravos bebês que faziam aniversário mamando se viam na obrigação de desmamar, pois "é feio amamentar bebê grande", "precisa ficar independente", "leite materno vira água depois de um ano" (15). Ah, essa do leite virar água é um mito descarado - as mães passaram a acreditar que mais cedo ou mais tarde todo bebê tomaria mamadeira - êxtase para a indústria de leite artificial. Surgiu a cárie de mamadeira, e junto com ela o mito da cárie do leite materno (16), pois as pessoas passaram a colocar tudo no mesmo bolo, assim como fizeram ao criar a nova regra "todo bebê precisa arrotar depois de mamar": quando se toma mamadeira entra ar, então precisa sim arrotar, mas mamando no peito com a pega correta isso não acontece, por isso essa história do arroto é mais um mito e só fez aumentar o cansaço das mães que tentavam amamentar.

Chegamos no ponto mais triste da história: a grande maioria dos bebês usavam chupeta e mamadeira e desmamavam "sozinhos" por volta de 3 meses. A imagem de um bebê maior mamando no peito passou a ser associada a pobreza (coitada dessa mãe, não pode comprar leite). Apenas 10% dos bebês chegavam a 6 meses com amamentação exclusiva e os efeitos disso eram notáveis: crianças adoecendo com frequência, aumento da mortalidade. Problemas respiratórios passaram a ser considerados "normais", assim como o uso de aparelhos ortodônticos - as pessoas chegavam a dizer "ah, hoje em dia todo mundo usa aparelho, né", sem pararem para pensar que até algumas décadas atrás estes problemas não eram comuns.

É possível reverter este cenário? Será que nos dias de hoje, com a maioria das mães trabalhando fora, é possível amamentar como no início do texto? É possível sim, e este resgate da amamentação já está começando. Vamos quebrar mais um mito? Segundo Gonzalez a média de duração da amamentação é maior entre as mães que trabalham fora do que entre as mães que passam o dia todo com seus filhos (17). Será que é porque as mães que trabalham fora sentem saudades de seus filhos e resistem mais ao desmame? Talvez seja, mas o detalhe mais importante desta pesquisa é comprovar que é possível sim continuar amamentando mesmo trabalhando fora, e se há mulheres seguindo este caminho então podemos afirmar que o resgate da amamentação já começou.

Referências:
1 - Livre Demanda - http://grupovirtualdeamamentacao.blogspot.com.br/2014/07/livre-demanda-o-que-e-realmente-dr.html
2 - Eu deveria deixar meu bebê dormir comigo? http://grupovirtualdeamamentacao.blogspot.com.br/2015/03/eu-deveria-deixar-meu-bebe-dormir-comigo.html
3 - Se o bebê está chupando o dedo, o que ele pode estar querendo dizer? http://grupovirtualdeamamentacao.blogspot.com.br/2015/01/se-o-bebe-esta-chupando-o-dedo-o-que.html
4 - Cama ou quarto compartilhado: promovendo a independência
http://grupovirtualdeamamentacao.blogspot.com.br/2015/07/cama-ou-quarto-compartilhado-promovendo.html
5 - O que acontece com os músculos bucais quando um bebê usa qualquer bico artificial (chupetas, mamadeiras, bicos de silicone) - http://grupovirtualdeamamentacao.blogspot.com.br/2015/03/o-que-acontece-com-os-musculos-bucais.html
6 - A CHUPETA: O que toda mãe (e pai) deveria saber antes de oferecer uma chupeta para o seu bebê - http://grupovirtualdeamamentacao.blogspot.com.br/2014/07/a-chupeta-o-que-toda-mae-e-pai-deveria.html
7 - Mamadeira contém “substância” que seca o leite materno - http://grupovirtualdeamamentacao.blogspot.com.br/2014/07/mamadeira-contem-substancia-que-seca-o.html
8 - Passei por uma situação de estresse e meu leite acabou!
http://grupovirtualdeamamentacao.blogspot.com.br/2014/06/passei-por-uma-situacao-de-estresse-e.html
9 - A importância da correção da pega - http://grupovirtualdeamamentacao.blogspot.com.br/2014/06/a-importancia-da-correcao-da-pega.html
10 - Normas gerais de segurança da cama compartilhada - http://grupovirtualdeamamentacao.blogspot.com.br/2014/07/normas-gerais-de-seguranca-da-cama.html
11 - Pode amamentar deitada? http://grupovirtualdeamamentacao.blogspot.com.br/2014/06/pode-amamentar-deitada.html
12 - Porque a amamentação noturna é tão importante - http://grupovirtualdeamamentacao.blogspot.com.br/2014/06/porque-amamentacao-noturna-e-tao.html
13 - 8 fatos sobre o sono dos bebês que todo pai e toda mãe deveriam saber - http://grupovirtualdeamamentacao.blogspot.com.br/2014/08/8-fatos-sobre-o-sono-dos-bebes-que-todo.html
14 - Você está amamentando e seu peito está sempre murcho? Que maravilha!!! http://grupovirtualdeamamentacao.blogspot.com.br/2014/09/voce-esta-amamentando-e-seu-peito-esta.html
15 - Como o leite materno vira água e a vaca passa a fazer melhor leite que o seu - http://grupovirtualdeamamentacao.blogspot.com.br/2015/07/como-o-leite-materno-vira-agua-e-vaca.html
16 - Cáries e Leite Materno - http://grupovirtualdeamamentacao.blogspot.com.br/2015/06/leite-materno-nao-causa-caries.html
17 - Trabalho e Amamentação, página 112 do livro "Manual Prático de Aleitamento Materno", Dr. Carlos Gonzalez

Relato de Amamentação e Desmame Natural - Jé Bonizzi e Valentina

Alguns dizem que é muito tempo, que foi muito prolongada. Eu? Eu acho que foi o necessário, o natural.
Você me guiou, do primeiro até o ultimo dia, você me disse quais eram as suas necessidades (fisiológicas / psicológicas).
Valentina, minha pequena, muito obrigada por permitir que eu nutrisse você, por se aconchegar, mamar e me amar. Lembro-me de ti pequena, muito pequena, se aconchegando e mamando, olho no olho a sua mão do tamanho do meu dedo mindinho, do teu chorinho do teu cheiro de cria nova, da força ao sugar o peito e de como tu ficava toda mole e com cara de mamei pra porra vou morrer em leite hahahaha.
Finalizamos os seis primeiros meses somente com leite materno, sem águas, sucos ou chás ou qualquer outra coisa ♥ 
Nunca te neguei peito por estarmos fora de casa, nunca te cobri com um pano, sempre levei a amamentação como o ato natural e fisiológico que ela é. Sim, paguei peitinhos inúmeras vezes com você no sling, te amamentei das formas mais variadas possíveis (tínhamos um álbum aqui no FB que chamava “mamasutra”, você foi, literalmente, amamentada na rua, na chuva, na fazenda e numa casinha de sapê. ♥


Obrigada filha, por conduzir o nosso desmame de forma mais natural possível, tão natural que quando me dei conta você já não mamava mais durante o dia, não mamava mais pra dormir, não mamava mais quando tinha medo ou estava com um dodói (passar leite no machucado pra sarar ainda você pede haahahaha) de mamar a cada 3 minutos você passou a mamar a cada 2/3 dias e cada vez mais espaçado. Hoje faz 11 dias que você não pede pra mamar, meu peito não está cheio, mais ainda tenho bastante leite, como o processo foi 100% natural e nada conduzido o leite foi diminuindo conforme a sua demanda e estamos aqui no corpo normal graças a natureza 100% perfeita! Sem leite empedrado, sem dor no peito!
Agora vou contar pra você sobre a nossa última mamada:
Eu fui no shopping buscar um aquecedor pq o frio estava bravo, e quando voltei você estava meio dormindo e meio acordada, pediu pra ir no banheiro e chorava muito, como se tivesse acordado no susto! Chegando lá tu me disse, chorando horrores :
- Mamãe ocê pode me dar um peito pa me ajudar a fazer um cocô?
E assim, desse jeito romântico, sqn, eu abaixei com as peitolas de fora e te dei mama enquanto você fazia cocô! HAHAHAHHA ♥
Filha obrigada por me proporcionar esses 3A09M07 dias de amamentação ♥ obrigada por me fazer completa e obrigada por esse fechamento de ciclo ♥

















quarta-feira, 15 de julho de 2015

Cama ou quarto compartilhado: promovendo a independência

Link para o texto original em inglês: http://www.evolutionaryparenting.com/?p=63
Tradução: Gabriela de O. M. da Silva

Não é segredo que sou uma GRANDE fã da cama compartilhada. Além da amamentação, eu acho que é a melhor coisa que você pode fazer pelo seu bebê. E ainda assim, quando você comenta com alguém a respeito de fazer essa prática, sobrancelhas se levantam mais rápido do que com uso de Botox.

Geralmente as pessoas começam com um olhar de espanto e logo perguntam quando você pensa em parar com isso, como se fosse um hábito desagradável, comparável a fumar ou deixar sua criança fazer xixi no chão. Se você questionar essas pessoas a respeito de porquê pensam que é um hábito nocivo, na maioria das vezes é devido ao fato de acreditarem que dormir com seu bebê vai torná-lo menos independente, mais carente, e assim meio que inútil para o restante da vida. Afinal, nós todos queremos que nossos filhos saiam para enfrentar o mundo, e se você tem uma criança que é muito ligada ao pai ou à mãe, como ela poderá ser um indivíduo com personalidade própria? E compartilhar a cama é visto como uma das coisas que tornará a criança dependente da mamã e do papai para sempre. Certo? Bem, se existissem evidências de que esse é realmente o caso, eu não estaria escrevendo esse artigo agora, estaria? Não, e na verdade parece que é justamente o contrário do que muita gente acredita.

Aqui vamos nós… Crianças que dormem em cama/quarto compartilhado tendem a ser – veja só – MENOS medrosas e MAIS independentes do que aquelas que dormem sozinhas. Por alguma razão, as pessoas começaram a acreditar que os bebês precisavam ser mais independentes, e que aprender a dormir sozinhos desde o primeiro dia de nascidos seria uma forma de fazer isso. Primeiramente, é uma besteira enorme dizer que os bebês precisam ser independentes – eles não podem ser, afinal, são bebês! Eles sequer sabem que existem até completarem um aninho de vida ou mais, então como podem ser independentes antes disso?  Contudo, conforme as crianças crescem, elas se tornam (felizmente) mais independentes, e nessa fase são as crianças que dormiram com os pais (ou continuam dormindo) e receberam toneladas de carinho e contato corporal que se mostram as mais destemidas, enquanto as que foram deixadas sozinhas para serem "independentes" enquanto bebês tendem a ser mais tímidas, ansiosas e amedrontadas. (Eu adoro ter uma parte de mim que ama esse paradoxo porque é completamente intuitivo quando você pensa pelo ponto de vista de um bebê. É exatamente o que a maioria das pessoas não fazem – elas pensam nos bebês como se fossem adultos, com pensamentos e crenças de adultos, apenas em uma escala menor.)

Parte da explicação desse paradoxo vem do apego – bebês que dormem com os pais tendem a ser mais apegados às mães, e pesquisas mostraram que crianças que são mais apegadas exploram mais e são mais independentes que aquelas que não têm apego com os pais. Bem, é importante notar que pode ser que os pais façam cama/quarto compartilhado por serem mais responsivos aos filhos, e não seja o fato de dormir com o bebê em si que o torne mais apegado/independente. Contudo, existem outros motivos para se acreditar que esse arranjo para dormir promova sim independência.
Tudo gira em torno dos hormônios. Como um dos milhares de apontamentos do Dr. Sears, a hora de dormir à noite é um dos momentos mais estressantes para um bebê. A escuridão e o silêncio da casa são na verdade bastante assustadores para crianças novas, que foram acostumadas com som estático constante dentro do útero (por exemplo as batidas do coração da mamãe) e a sensação de estar sendo mantido apertado, segurado forte. Assim, ser colocado longe de outras pessoas (e sem contato humano) aumenta a resposta ao estresse nessas crianças. O contato entre mãe e bebê a qualquer momento do dia reduz o estresse do pequeno através da liberação de ocitocina, um hormônio que é conhecido por promover contato e comportamento amoroso (também conhecido como hormônio do "aconchego"), especialmente quando há contato pele a pele (ex., Uvnas Moberg, 2003).  Dormir com o bebê também diminui no corpinho dele os níveis do hormônio do estresse chamado cortisol (Waynforth, 2007).  Então, ao fazer cama/quarto compartilhado você dá ao seu bebê uma carga de hormônios que lhe trarão prazer e são relacionados a ligações afetivas maiores, bem como à redução dos hormônios associados ao estresse.

Mas aí você vai me perguntar: como esses hormônios contribuem para a independência? Pense em você mesmo e em suas reações a várias situações. Todos já tivemos dias em que estávamos super estressados, quase arrancando nossos próprios cabelos. Nesses dias, quão disposto você estava para sair e explorar novos lugares, conhecer pessoas novas, tentar coisas diferentes? Se você estiver no grupo chamado "normal" e está sendo honesto, provavelmente vai dizer "Nem um pouco." Ao invés disso, você pediria uma taça (ou garrafa) de vinho em um lugar seguro, aconchegante, longe das pessoas ou locais potencialmente estressantes, pois evitar o estresse é parte da nossa reação – enfiar a cabeça num buraco e esperar que o que estiver te estressando desapareça. Isso é devido ao fato de que o estresse tem relação com o medo, e dessa forma ambos ativam a resposta de "lutar ou fugir", ainda que em diferentes níveis de intensidade. Logo, um bebê que está constantemente sob estresse tende a procurar lugares seguros e permanecer por lá. Assim como nós adultos fazemos. Agora lembre-se de momentos em que você estava feliz, relaxado e calmo. Durante esses momentos da sua vida você procura fazer coisas novas? Conhecer gente diferente? Ir a outros lugares? Sim, porque esse é o estado de espírito do qual necessitamos para sair e explorar o mundo. Então um bebê que tem níveis mais baixos de cortisol e mais altos de ocitocina, tende a estar mais disposto a conhecer o mundo frequentemente.

Outra razão que associa a cama/quarto compartilhado a independência é que dormir perto do seu bebê gera uma sensação de segurança devido à resposta imediata durante períodos críticos. Todos os recém-nascidos possuem o reflexo de moro, que o faz se assustarem e costuma ocorrer enquanto dormem. (Para aqueles que não têm mais um recém nascido, até os 3 meses de idade, enquanto dorme, os braços e pernas do seu bebê tremem como se ele estivesse caindo. Esse é o reflexo de moro). Se a sua criança estiver no colo de um adulto ou estiver por perto (como em um berço grudado à sua cama, com a grade lateral abaixada), é muito mais fácil controlar o reflexo e acalmá-lo antes que acorde e entre em pânico. Contudo, se você não estiver segurando o bebê, o reflexo de moro vai acordar seu bebê em pânico. O cortisol estará então circulando pela sua corrente sanguínea e vai demorar bem mais tempo até você conseguir acalmá-lo. Muitos pais passam por isso quando são acordados por um bebê que está gritando. Quando isso acontece, o que o bebê aprende a partir dessa experiência? Que o mundo não é um lugar seguro e que deve estar sempre alerta. Quando seus níveis de estresse estão constantemente altos, você aprende a estar mais vigilante para conseguir manter-se longe de perigos em potencial. Honestamente, eu me surpreendo com o fato de tais crianças não estarem clamando para voltar ao útero, após essas boas-vindas ao mundo.

Os bebês que dormem com seus pais aprendem algo bem diferente. Como eles são imediatamente tocados e confortados quando passam por esse reflexo de moro (e muitas vezes nem chegam a acordar), eles aprendem que o mundo é seguro para eles. Alguém estará por perto para socorrer quando precisarem de ajuda. Quando você sabe que tem uma rede de proteção, é muito mais fácil tentar andar na corda bamba do que se você não soubesse se iria ser amparado ou não no caso de uma queda. E uma vez que você começa a acreditar que há uma rede de proteção (chamada mamãe e papai), você se torna mais propenso a se arriscar e tentar coisas novas. Então, através da cama/quarto compartilhado você está oferecendo ao seu filho a base para um forte senso de segurança e sensações duradouras de conforto e proteção. Você está também alterando o balanço hormonal para melhor – reduzindo hormônios negativos (cortisol, por exemplo) e promovendo os positivos (oxitocina, por exemplo). E para culminar, você está aumentando as chances de seu filho ter uma ligação estreita com você, o que traz uma enorme variedade de resultados futuros maravilhosos. Eu acho que isso explica porque evoluímos para a cama/quarto compartilhado. [1].

Então quando você pensar em como você quer que seu filho seja criado e que tipo de pessoa você quer que ele seja – extrovertido ou inibido? Aventureiro ou tímido? Medroso ou corajoso? – pense a respeito do que você está ensinando a respeito do mundo através de suas ações frente ao bebê. E saiba que uma forma de dar à criança uma base sólida é dormir junto dela ou dele – seu filho vai agradecer a longo prazo.

[1] Existem regras a respeito de como fazer a cama/quarto compartilhado com segurança. Leia o artigo a respeito disso se você quiser saber mais, pois existem algumas coisas que podem tornar o ato de dormir com o bebê algo perigoso. Como você vai perceber, algumas dessas coisas (estar bêbado, por exemplo) são bem óbvias e nem precisariam ser ditas, mas existem outras com as quais você vai ficar surpreso.

https://www.facebook.com/notes/solu%C3%A7%C3%B5es-para-noites-sem-choro/normas-gerais-de-seguran%C3%A7a-da-cama-compartilhada/301069299917486

terça-feira, 14 de julho de 2015

Como o leite materno vira água e a vaca passa a fazer melhor leite que o seu

Jenny Thomas, pediatra membro da Associação Americana de Pediatria, membro do Comitê Internacional de Certificação de Consultoria de Aleitamento e da Academy of Breastfeeding Medicine.<p> </p>
http://www.facebook.com/notes/lakeshore-medical-breastfeeding-medicine-clinic/when-breastmilk-turns-to-water-and-a-cow-makes-better-milk-than-you-do/155702701154727

Tradução de Bel Kock-Allaman 


Eu acho que se você amamenta por um ano alguém deveria fazer uma festa para você. O melhor que eu pude fazer foi dar camisetas comemorativas. Eu já dei mais camisetas do que posso contar e atualmente eu tenho uma lista comemorativa para celebrar as mães que conseguiram isso no meu website.


Então, com todas essas mães no meu consultório alcançando esse objetivo, eu comecei a considerar fazer algo para reconhecer as mães que continuavam a amamentar aos 18 meses. Essas mães maravilhosas, que ganharam a camiseta e os parabéns pelo primeiro ano diziam “Não, obrigada.” quando eu mencionei o que tinha em mente – elas não queriam que outras pessoas soubessem. Elas amamentavam, mas não queriam reconhecimento público. Elas amamentavam “no armário” e estavam bem assim.

A revisão dos 12 meses é uma ótima oportunidade para falar dos benefícios de continuar a amamentar além do primeiro ano. Eu vou tentar não dizer “amamentação prolongada” porque isso revela um viés cultural que existe onde eu vivo, mas talvez não onde você viva. Mundialmente, amamentar até os 2 ou 4 anos é simplesmente normal. E antes que o viés cultural interrompa a discussão, a política da Associação Americana de Pediatria diz que “não existe limite para a duração da amamentação e não há evidência psicológica de prejuízo ao desenvolvimento devido à amamentação no terceiro ano de vida ou mais”.

Então, o que acontece aos doze meses? De acordo com a crença popular, no momento em que o seu lindo bebê amamentado está dormindo na noite anterior do seu primeiro aniversário, o mundo se transforma: no dia seguinte, eles descobrem que o leite materno já não serve. Eles descobriram que a vaca faz um leite melhor que a mãe.


E como você faz que uma criança de um ano que ainda não fala entenda isso? Eles estão contando com continuar recebendo a calidez, a expressão de amor e a maravilhosa nutrição que tinham no dia anterior. Qual é a mágica daquele 366º dia da sua vida?

Eu sei que não faz sentido e que o bebê de um ano provavelmente está confuso, mas eu conheço algumas mulheres maravilhosas que acreditam que se elas continuarem a amamentar, seus filhos vão precisar de um complemento de leite de vaca “para que tenham todos os nutrientes”. Eu devo morar no paraíso dos laticínios, onde pessoas usam chapéus de queijo em público, mas o leite da vaca é para os bezerros. E como eu normalmente tenho essa conversa no meio de uma consulta, com a criança presente, eu posso fazer um bom trabalho convencendo a família de que o meu exame clínico sugere que o seu filho não é um bezerro.

Os componentes do leite materno que combatem infecções continuam presentes: lisozima, lactoferrina, imunoglobulina (IgA) estão presentes em quantidades estáveis. Os níveis de proteína, cálcio, ácidos graxos de cadeia longa são mais baixos comparados com o leite de um bebê de 3 meses, mas não estamos falando de bebês de 3 meses que só se alimentam de leite materno. A criança de um ano já come outros alimentos. Além disso, sabemos que mães que amamentam por mais tempo diminuem o seu risco de câncer de mama.

Eu entendo. Muitas pessoas, incluindo os profissionais de saúde, não entendem porque você quer amamentar por mais de um ano. Mas não são eles que tem que acalmar uma criança de 15 meses berrando. Eu só estou dizendo isso – se eu tivesse que escolher entre uma criança chorando que eu tenho que distrair e fazer feliz de alguma maneira e uma criança chorando que eu posso dar o peito e fazer feliz em 5 minutos, eu prefiro o segundo.


Algum dia, eu espero poder fazer algo pelas minhas amigas, as mães que amamentam “no armário” e eu saberei que estarei fazendo progresso aqui no meu pedacinho de mundo. Talvez então nós possamos convencer o resto do mundo que amamentar um bebê de mais de um ano é normal.

domingo, 12 de julho de 2015

Amamentação Durante a Gravidez

Fragmento traduzido de um artigo de Hilary Dervin Flower, MA - Midwifery Today – Winter 2003
Original: http://kellymom.com/pregnancy/bf-preg/bfpregnancy_safety/
[Nota da Moderação GVA: desconhecemos o tradutor e o local de publicação da tradução]

É um assunto pouco discutido, mas uma preocupação bastante comum.
A mãe tem toda razão de evitar desmamar um filho mais velho durante a gravidez. O filho que está sendo amamentado ganha com o leite materno, o qual dá reforços à nutrição e ao sistema imunológico da criança. Desmamar antes dos dois anos de idade pode aumentar o risco daquela criança adoecer.

Preocupações:
*Medo de entrar em trabalho de parto precocemente ou de ter um aborto espontâneo.
*A amamentação vai roubar os nutrientes do feto.
*É demais para o corpo da mãe, ela ficaria cansada.

Amamentação e contrações:

A estimulação do mamilo estimula a liberação de ocitocina (hormônio). A ocitocina é importante na amamentação porque controla a ejeção do leite. A ocitocina também estimula o útero a contrair. A estimulação do mamilo pode intensificar o trabalho de parto se o mesmo já estiver acontecendo. A amamentação depois do parto ajuda o útero (com contrações) a voltar ao tamanho que tinha antes da gravidez.

A amamentação NÃO inicia o trabalho de parto antes da hora certa!

O útero tem receptores sensíveis à ocitocina (células que detectam a presença da ocitocina e causam uma contração). Normalmente, durante as primeiras 38 semanas da gravidez o útero tem poucos destes receptores, os quais aumentam em número aos poucos depois disto até chegarem a 300 vezes mais quando o trabalho de parto já houver iniciado. Isto protege a gravidez.

Também há outros fatores que protegem a gravidez. Para que os receptores possam responder à ocitocina, eles precisam de um tipo de proteína especifica. A progesterona (outro hormônio) bloqueia a conexão entre a ocitocina e os receptores.

A ocitocina sozinha não é capaz de iniciar o trabalho de parto. O útero está na fase de carregar o bebê, bem protegido contra um trabalho de parto precoce.

Várias mulheres entrevistadas e que fizeram parte de pesquisas notaram que sentiam contrações quando o filho estava mamando, mas que as contrações paravam logo depois (dentro de 10 – 15 minutos) da sessão.

É sempre uma decisão da mulher. Numa gravidez saudável não é arriscado amamentar. Numa gravidez de risco a decisão pode ser mais complicada, mas ainda é possível. Existem mulheres que amamentaram durante uma gravidez de alto risco, até mesmo durante uma ameaça de trabalho de parto prematuro, e deram à luz filhos sadios à termo (entre 38 a 42 semanas). Outras acharam melhor desmamar por causa da sua situação. Todas as mulheres devem conhecer os sinais de trabalho de parto precoce. Se perceberem contrações preocupantes devem parar a sessão de amamentação e ver se as contrações cessam. (Seu médico ou parteira também pode querer avaliar o efeito da amamentação sobre o útero – contrações, batimentos cardíacos do bebê, ou colo uterino).

Comendo por três

Uma mulher é capaz de comer o suficiente para o seu feto, sua produção de leite e ela mesma?

Uma dieta básica com alimentos variados e calorias suficientes vai cobrir a maioria das necessidades de mulheres que estão amamentando ou grávidas.

Mulheres já com algum nível de desnutrição podem ter dificuldades, mas uma mulher bem nutrida tem pouca razão para se preocupar.

Reservas de gordura são esvaziadas durante a amamentação exclusiva. Quando o bebê começa a comer outras coisas e continua mamando, as reservas de gordura da mãe voltam aos poucos. Quanto mais tempo ela amamenta, maior quantidade de gordura ela recupera (**nota - é saudável e natural para a mulher ter estas reservas – para manter a gravidez e a amamentação**). Mas se ela engravidar logo depois, ela não vai recuperar estas reservas, e se ela estiver desnutrida e resolver amamentar durante a gravidez, as reservas vão diminuir mais ainda.

Outra preocupação relacionada à amamentação durante a gravidez é com a saúde dos ossos da mulher. Pesquisas mais recentes mostram que a mulher recupera a densidade mineral dos ossos quando o bebê começa a comer outras coisas, e aos 12 meses de idade da criança a densidade mineral dos ossos da mãe deve ter voltado ao normal.

E as necessidades do feto? Pesquisas mostram que as mães que ganharam peso suficiente durante a gravidez tiveram bebês de peso normal (2,52 a 4,93kg). Se a mulher estiver desnutrida (ou sem condições de aumentar sua ingestão alimentar) ela pode ter dificuldades de ganhar peso suficiente na gravidez ou seu bebê pode nascer com peso abaixo do normal. A recomendação de saúde pública, considerando que o desmame precoce pode prejudicar a saúde do bebê, é de dar um maior intervalo entre os filhos.

A produção de leite normalmente diminui no meio da gravidez. As duas perguntas mais importantes são: “Ela está mantendo seu apetite?” e “Ela está ganhando peso dentro do padrão esperado?” Ela precisa ganhar o mesmo peso que ganharia se não estivesse amamentando (meio quilo por semana depois de 20 semanas de gravidez). É preciso avaliar como aumentar o consumo da mãe – se ela estiver com dificuldades. Também é necessário avaliar a hidratação materna. A cor da urina indica: amarela clara – bem hidratada; amarela escura - desidratação.

A sensação de bem-estar da mãe diz tudo. O que o corpo da mãe está dizendo a ela?

A mulher deve estar empoderada e escutar a sabedoria do seu corpo enquanto ela cuida do seu filho e da sua gravidez.
Os hormônios da gravidez podem causar desconforto para a mãe durante a amamentação. Dói! Não sempre, mas para a maioria das mulheres a amamentação provoca alguma dor, a qual poderá ser mais forte numa fase da gravidez do que em outra. Ela também pode se sentir agitada, querendo tirar a criança do peito. A mãe que sente-se comprometida com a continuidade da amamentação pode precisar de apoio durante sua adaptação a estes desconfortos.

É fundamental ajudar cada mulher a processar suas necessidades e escolhas, e apoiá-la em sua decisão de desmamar ou de diminuir o número de mamadas do mais velho.

Hilary Flower – autora do livro Aventuras na Amamentação Tandem: Amamentação durante a gravidez e depois (Adventures in Tandem Nursing: Breastfeeding During Pregnancy and Beyond – 2003).
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