segunda-feira, 15 de maio de 2017

Amamentação de gêmeos

Por Sarita Oliveira, com contribuições de  Mariana Santana e Ana Carolina Dantas Loureiro
Revisado por Luciana Freitas

Nosso agradecimento às mães de gêmeos e trigêmeos que confiaram no GVA para o sucesso da amamentação de seus bebês e que nos inspiraram a escrever esse texto em auxílio a outras mães.

Antes do nascimento

- Ter uma rede de apoio pode fazer a diferença. Converse com sua família, explique seu desejo de amamentar os bebês, fale sobre a livre demanda e sobre os riscos dos bicos artificiais.

- Pense em coisas para se distrair enquanto estiver amamentando. Ler, ver TV, conversar, ouvir música... Se a livre demanda de um bebê novinho consome muito tempo da mãe, a disponibilidade é ainda maior com gêmeos. Aceitar que você ficará muito tempo com um bebê no colo mamando é uma preparação psicológica e emocional muito importante para deixar o processo um pouco mais leve.

No hospital

- Informe-se junto à maternidade/hospital quanto às práticas adotadas pelo berçário. Hospital amigo da criança não oferece o leite em mamadeira ou chuquinha, mesmo que o bebê precise ficar internado. Converse com o pediatra, converse com a equipe e certifique-se de que se os bebês precisarem ficar em incubadora e se alimentar lá, não será usada a mamadeira.

- O nascimento de gêmeos pode ser prematuro. Caso isso aconteça, é importante que os bebês tenham acompanhamento por profissional especializado, que conheça métodos seguros de estimulação. Alguns profissionais utilizam a chupeta como meio de ensinar o bebê a sugar, porém isso não é adequado e pode levar a um quadro de confusão de bicos quando o bebê for apresentado ao peito para mamar (veja aqui como estimular o bebê a mamar).  

- Caso os bebês precisem ficar internados, tente manter uma rotina de ordenha (veja aqui como fazer a ordenha e aqui como fazer a massagem de Mohri, que pode ajudar na ordenha). Muitos hospitais possuem lactário, verifique se você pode ordenhar o leite e manter no lactário para que ele seja oferecido aos bebês nos momentos em que você estiver ausente ou caso eles ainda não mamem diretamente no peito. Mesmo que não haja lactário, a rotina de ordenha ajudará a estimular a produção de leite, facilitando o processo quando eles puderem mamar.

Em casa

- Faça a livre demanda, oferecendo o peito sempre que os bebês quiserem aos primeiros sinais de fome (veja aqui como identificar esses sinais), mas, caso os bebês estejam com menos de 3kg, não os deixe sem mamar por intervalos maiores que 2h durante o dia e 3h durante a noite.

- Não ofereça chupeta e mamadeira, nem use o bico intermediário de silicone para amamentar. Se for necessário complementar (seja com leite artificial, seja com o leite materno ordenhado), use o copo ou a colher dosadora, para não haver risco de confusão de bicos e desmame precoce (veja aqui sobre confusão de bicos).

- Verifique a pega! Pode acontecer um certo incômodo nos primeiros dias de amamentação devido ao atrito no peito e por causa do ingurgitamento da aréola, ou seja, o peito muito cheio (veja aqui como fazer no caso de ingurgitamento), mas caso você sinta dor além de uma fisgada no início da mamada e se seu peito está ferido, veja se os bebês estão pegando corretamente o seio - o bebê deve abocanhar a aréola, não apenas o mamilo (veja aqui como corrigir a pega).

- Não é necessário limpar ou higienizar o peito entre as mamadas. Algumas pessoas orientam a limpar o seio entre as mamadas ou quando for trocar o bebê, mas isso não é necessário.

- Para que você consiga descansar, uma boa solução é ordenhar o peito e armazenar o leite para que outra pessoa ofereça ao bebê (veja aqui como ordenhar e armazenar). Lembre-se de não usar a mamadeira para oferecer o leite ordenhado. Outra opção é amamentar deitada e tirar uns bons cochilos enquanto os bebês mamam.

- Alimente-se bem e mantenha-se hidratada. Descanse sempre que possível e faça em casa apenas o essencial. A cama compartilhada pode ser uma aliada para ajudar durante as noites ou durante as sonecas dos bebês (veja aqui como fazer cama compartilhada de forma segura).

- Monte seu kit-amamentação: livros, programas de TV (e os controles remoto dos aparelhos que for usar), fone de ouvido, celular, carregador de celular, uma garrafa de água, coisas para beliscar; tudo deve ser mantido ao alcance da sua mão. Encontre os locais confortáveis de sua casa onde você se sente melhor amamentando.

- Aceite toda a ajuda que puder. A única coisa que só você pode fazer é amamentar. Todo o resto (banho, passeio, trocar fralda, cuidar da casa, fazer comida) pode ser feito por outras pessoas. Compartilhe as atribuições, delegue, deixe que as outras pessoas ditem o ritmo da casa por um tempo. Essa reserva de energia parece pouca, mas será muito importante.

Sugestões de posições para amamentar simultaneamente

- Variação da posição invertida: apoiar os dois bebês sobre almofada/travesseiro. Segurar as cabeças uma ao lado da outra, deixando os pés para trás por baixo dos braços (como se segurasse uma bola de rúgbi).

- Variação da posição clássica: apoiar as cabeças nos braços, deixando os pés para dentro, como se os bebês estivessem cada um sentado de lado em uma das pernas.

- Posição combinada: deixar um dos bebês na posição clássica e o outro na posição invertida. O bebê que ficar na posição invertida apoia a cabeça sobre as pernas do irmão.

- Amamentar deitada de lado: o bebê que mamar o peito que ficar apoiado na cama deve ficar com os pés na direção da cabeça da mãe; o outro bebê, que mamar o peito “de cima”, pode ser apoiado sobre uma almofada, ficando semissentado.

- Amamentar deitada de costas: apoiar os braços sobre travesseiros e neles apoiar os bebês deitados, deixando um seio para cada um.

Veja fotos das posições clicando aqui.

Relatos

Julia Aidar

https://www.facebook.com/notes/grupo-virtual-de-amamenta%C3%A7%C3%A3o-gva/413675808748701/

LuziaeMarcelo Ramos

https://www.facebook.com/groups/grupovirtualdeamamentacao/permalink/870657179717226/

Vanessa Acosta

https://www.facebook.com/groups/grupovirtualdeamamentacao/permalink/888864091229868/

Luhana Laritza Pawlick

https://www.facebook.com/groups/grupovirtualdeamamentacao/permalink/811664425616502

July Moura

https://www.facebook.com/groups/grupovirtualdeamamentacao/permalink/895289697253974/

terça-feira, 2 de maio de 2017

O que tem no leite do bebê?

Artigo de Kelly Winder, publicado originalmente em www.bellybelly.com.au
Adaptado por Andréia Stankiewicz
Você já sentiu curiosidade em saber quais ingredientes são encontrados no leite dos bebês? É surpreendente! Confira os componentes presentes na fórmula infantil e no Leite Materno e perceba as diferenças.

FÓRMULA INFANTIL:
Primeiramente, observe que as formulações mudam ao longo do tempo - ingredientes e composições podem variar um pouco da lista abaixo. Há também uma gama de fórmulas no mercado para atender a diferentes necessidades. Por exemplo, existem fórmulas hipoalergênicas, fórmulas de soja e muito mais. Portanto, esta é uma indicação geral da lista de ingredientes que normalmente pode ser encontrada em uma fórmula.

Água
Carboidratos
- Lactose
- Maltodextrina
Proteína
- Proteína do soro do leite de vaca parcialmente hidrolisada*
Gorduras
- Oleína de palma
- Óleo de soja
- Óleo de coco
- Óleo de açafrão com alto teor de ácido oléico (ou óleo de girassol)
- Óleo de M. alpina (DHA Fungal)
- Óleo de C. cohnii (Algal ARA)
Minerais
- Citrato de potássio
- Fosfato de potássio
- Cloreto de cálcio
- Fosfato tricálcico
- Citrato de sódio
- Cloreto de magnésio
- Sulfato ferroso
- Sulfato de zinco
- Cloreto de sódio
- Sulfato de cobre
- Iodeto de potássio
- Sulfato de manganês
- Selenato de sódio
Vitaminas
- Ascorbato de sódio
- Inositol
- Bitartrato de colina
- Acetato de alfa-tocoferila
- Niacinamida
- Pantotenato de cálcio
- Riboflavina
- Acetato de vitamina A
- Cloridrato de piridoxina
- Tiamina mononitrato
- Ácido fólico
- Filoquinona
- Biotina
- Vitamina D3
- Vitamina B12
Enzima
- Tripsina
Aminoácido
- Taurina
- L-Carnitina (uma combinação de dois diferentes aminoácidos)
Nucleotídeos
- Citidina 5-monofosfato
- Uridina disódica 5-monofosfato
- Adenosina 5-monofosfato
- Guanosina disódica 5-monofosfato
Lecitina de Soja (um emulsificante)
*Um estudo recente encontrou que muitas fórmulas estão sendo feitas nos limites aceitáveis mais elevados da proteína, o que pode ser uma explicação para a ligação entre a fórmula ea obesidade infantil.

LEITE MATERNO:
Os componentes que podem ser encontrados no Leite Materno, em resumo, são:
Água
Carboidratos (fonte de energia)
- Lactose
- Oligossacarídeos
Ácido Carboxílico
- Alfa-hidróxi-ácido
- Ácido lático
Proteínas (construtores musculares e esqueléticos)
- Proteína de soro de leite humano (whey protein)
- Alfa-lactoalbumina
- HAMLET (alfa-lactoalbumina humana anti-células tumorais)
- Lactoferrina
- Fatores antimicrobianos
- Caseína
- Albumina sérica
Nitrogens não-protéicos
- Creatina
- Creatinina
- Uréia
- Ácido Úrico
- Peptídeos
Aminoácidos (os blocos de construção das proteínas)
- Alanina
- Arginina
- Aspartato
- Clicina
- Cistina
- Glutamato
- Histidina
- Isoleucina
- Leucina
- Licina
- Metionina
- Fenilalanina
- Prolina
- Serina
- Taurina
- Teronina
- Triptofano
- Tirosina
- Valina
- Carnitina (aminoácido necessário para utilizar ácidos graxos como fonte de energia)
Nucleotídeos (Compostos químicos que compoem as unidades estruturais de RNA e DNA)
- 5’-Adenosina monofosfato (5”-AMP)
- 3’:5’-Adenosina monofosfato cíclico (3’:5’-cyclic AMP)
- 5’-Citidina monofosfato (5’-CMP)
- Citidina difosfato colina (CDP choline)
- Guanosina difosfato (UDP)
- Guanosina difosfato – manose
- 3’- Uridina monofosfato (3’-UMP)
- 5’-Uridina monofosfato (5’-UMP)
- Uridina difosfato (UDP)
- Uridina difosfato hexose (UDPH)
- Uridina difosfato-N-acetil-hexosamina (UDPAH)
- Uridina ácido difosfoglucurônico (UDPGA)
- Vários outros nucleotídeos do tipo UDP
Gorduras
- Triglicerídeos
- Ácidos graxos poliinsaturados de cadeia longa
- Ácido Docosahexaenóico (DHA) (importante para o desenvolvimento cerebral)
- Ácido Araquidônico (AHA) (importante para o desenvolvimento cerebral)
- Ácido Linoléico
- Ácido Alfa-linolênico (ALA)
- Ácido Eicosapentaenóico (EPA)
- Ácido linoléico conjugado (ácido Rumênico)
Ácidos graxos livres
Ácidos graxos monoinsaturados
- Ácido oléico
- Ácido palmitoléico
- Ácido heptadecenóico
Ácidos graxos saturados
- Esteárico
- Ácido palmítico
- Ácido láurico
- Ácido mirístico
Fosfolipídeos
- Fosfatidilcolina
- Fosfatidiletanolamina
- Fosfatidillinositol
- Lisofosfatidilcolina
- Lisofosfatidiletanolamina
- Plasmalogênios
Esfingolipídeos
- Esfingomielina
- Gangliosideos
- GM1
- GM2
- GM3
- Glucosilceramida
- Glicosfingolipídeos
- Galactosilceramida
- Lactosilceramida
- Globotriaosilceramida (GB3)
- Glogosida (GB4)
Esteróis
- Esqualene
- Lanosterol
- Dimetilsterol
- Metosterol
- Latosterol
- Desmosterol
- Triacilglicerol
- Colesterol 7-dehidrocolesterol
- Estigma e campesterol
- 7-quetocolesterol
- Sitosterol beta-latosterol
- Metabólitos Vitamina D
- Hormônios esteróides
Vitaminas
- Vitamina A
- Betacaroteno
- Vitamina B6
- Vitamina B8 (Inositol)
- Vitamina B12
- Vitamina C
- Vitamina D
- Vitamina E
- A-tocoferol
- Vitamina K
- Tiamina
- Riboflavina
- Niacina
- Ácido Fólico
- Ácido pantotênico
- Biotina
Minerais
- Cálcio
- Sódio
- Potássio
- Ferro
- Zinco
- Clorida
- Fósforo
- Magnésio
- Cobre
- Manganês
- Iodo
- Selênio
- Colina
- Enxofre
- Cromo
- Cobalto
- Flúor
- Níquel
Metal
- Molibdenium (elemento essencial em muitas enzimas)
Fatores de crescimento (ajudam na maturação da mucosa intestinal)
- Citocinas
- Interleucina-1β (IL-1β)
- IL-2
- IL-4
- IL-6
- IL-8
- IL-10
- Fatores estimulantes de colônias de granulócitos (G-CSF)
- Fatores estimulantes de colônias de macrófagos (M-CSF)
- Fatores de crescimento derivados de plaquetas
- Fatores de crescimento vascular endotelial (VEGF)
- Fator de crescimento α-hepatócito (HGF- α)
- HGF-β
- Fator de necrose tumoral - α
- Interferon-γ
- Fator de crescimento epitelial (EGF)
- Fator de crescimento de transformação- α (TGF- α)
- TGF β1
- TGF-β2
- Fator de crescimento tipo-insulínico I (IGF-I)(também conhecido como somatomedina C)
- Fator de crescimento tipo-insulínico II
- Fator de crescimento neural (NGF)
- Eritropoietina
Peptídeos (combinação de aminoácidos)
- HMGF I (Fator de Crescimento Humano)
- HMGF II
- HMGF III
- Colecistoquinina (CCK)
- β-endorfinas
- Hormônio paratireodiano (PTH)
- Peptídeo relacionado ao Hormônio paratireodiano (PTHrP)
- Β-defensina-1
- Calcitonina
- Bombesina Motilina Gastrina (peptídeo liberador gástrico, também conhecido como neuromedina B)
- Neurotensina
- Somatostatina
- Hormônios (Mensageiros químicos que transportam sinais de uma célula, ou grupo de células, para outro através do sangue)
- Cortisol
- Triiodotironina (T3)
- Tiroxina (T4)
- Hormônio Estimulador da Tireóide (TSH) (tirotropina)
- Hormônio liberador da tireóide (TRH)
- Prolactina
- Ocitocina
- Insulina
- Corticoesterona
- Trombopoietina
- Hormônio Liberador de Gonadotropina (GnRH)
- GRH Leptina (ajuda na regulação da saciedade)
- Grelina (ajuda na regulação da saciedade)
- Adiponectina
- Fator inibidor da lactação (FIL)
- Prostaglandinas Eicosanóides (enzimaticamente derivadas dos ácidos graxos)
- PG-E1
- PG-E2
- PG-F2
- Leucotrienos
- Tromboxanos
- Prostaciclinas
Enzimas (catalisadores que suportam as reações químicas no corpo)
- Amilase
- Arisulfatase
- Catalase
- Histaminase
- Lipase
- Lisozima
- PAF-acetilhidrolase
- Fosfatase
- Xantina oxidase
Antiproteases (ligam-se a macromoléculas, como as enzimas, e assim previnem reações alérgicas e anafiláticas)
- a-1-antitripsina
- a-1-antiquimotripsina
Fatores antimicrobianos (usados pelo sistema imunológico para identificar e neutralizar corpos estranhos, como bactérias e vírus)
- Leucócitos (células brancas do sangue)
- Fagócitos
- Basófilos
- Neutrófilos
- Eosinófilos
- Macrófagos
- Linfócitos
- Linfócitos B (células B)
- Linfócitos T (células C)
- Imunoglobullina secretora A (sIgA) (o mais importante fator antimicrobiano)
- IgA2
- IgG
- IgD
- IgM
- IgE
- Complemento C1
- Complemento C2
 - Complemento C3
- Complemento C4
- Complemento C5
- Complemento C6
- Complemento C7
- Complemento C8
- Complemento C9
- Glicoproteínas
-Mucinas (impedem a adesão de virus e bactérias às mucosas)
- Lactaderina
- Alfa-lactoglobulina
- Alpha-2 macroglobulina
- Antígenos de Lewis
- Ribonuclease
- Inibidor de Hemaglutinina
- Fatores Bifidus (estimulam o crescimento de Lactobacillus bifidus – flora benéfica)
- Lactoferrina (se liga ao ferro, impedindo que as bactérias o utilizem como substrato)
- Lactoperoxidase
- Proteína de ligação de B12 (priva os microorganismos de vitamina B12)
- Fibronectina (realiza fagocitoses mais agressivas, minimizando inflamações e reparando danos causados pela inflamação)
- Oligosacarídeos (mais de 200 tipos diferentes!)

Concluindo:
O Leite Materno é reconhecido pelas suas propriedades protetoras e imunológicas que não são encontradas em nenhum outro tipo de leite. O Leite Materno contém prebióticos e probióticos na medida certa, em perfeito equilíbrio, de acordo com as necessidades do bebê humano para estabelecer uma flora intestinal saudável.
Provavelmente o principal fator anti-infeccioso presente no Leite Materno seja um anticorpo chamado IGA secretor (sIgA), que ajuda a proteger o bebê dos patógenos mais comuns encontrados no ambiente em que ele vive (isso é chamado de “proteção direcionada”). Os bebês amamentados podem ter infecções assintomáticas (que não apresentem qualquer sinal de inflamação) por causa dos fatores antiinflamatórios do Leite Materno, os quais atuam sobre as células inflamatórias agudas (como os neutrófilos).
As gorduras presentes no Leite Materno também são essenciais! 88% dessas gorduras são feitas de ácidos graxos de cadeia longa. São esses ácidos graxos de cadeia longa (por exemplo, os ácidos graxos ômega 3, especialmente o DHA) que são constituintes do cérebro e do tecido nervoso e são necessários no início da vida para o desenvolvimento cerebral e visual.
Finalmente, as propriedades de autoregulação do leite humano também são muito importantes - o Leite Materno é feito sob medida para o bebê, com base na idade e necessidades dele a cada momento. "O leite materno que uma mãe faz para seu bebê é diferente no primeiro dia, no dia sete, no dia 30, e assim por diante. Por exemplo, o leite materno feito por uma mãe de um bebê prematuro tem diferentes concentrações de várias substâncias para atender às necessidades especiais de seu bebê. E, ao longo do processo de desmame, o leite materno aumenta a concentração de fatores imunológicos de proteção para dar ao bebê uma dose final de proteção imunológica antes do desmame estar completo.” (Renee Kam, International Board Certified Lactation Consultant).
Portanto, quando você ouvir falar que o Leite Materno é ralo, é fraco e não sustenta, volte e releia esta lista. E nunca esqueça o quanto o seu leite é FORTE e COMPLETO para o seu bebê!

quinta-feira, 23 de fevereiro de 2017

O bebê e a separação

Por José Martins Filho, em A criança terceirizada - os descaminhos das relações familiares no mundo contemporâneo, p.54
Fico muito preocupado quando a mãe de filhos com menos de dois anos de idade, particularmente dos que estão no primeiro ano de vida, decidem viajar durante dez, 15 dias. Isso é realmente traumático para o bebê, que, para se defender da dor profunda da perda (ele imagina que perdeu a mãe para sempre, que seu objeto de amor profundo foi embora, morreu), acaba transferindo seu vínculo, seu afeto para a pessoa que fica cuidando dele (uma avó, uma tia ou alguém da família). Nos casos em que a pessoa que substitui a mãe é alguém a quem a criança já está afeiçoada, a dor não é tão intensa e as consequências menos graves. É como se a criança considerasse sua mãe essa pessoa e não aquela que realmente a deu à luz. Infelizmente, quando a mãe volta, sofre, porque se dá conta que a criança está distante, relutante em vir para seus braços, quer ficar com a babá ou com a vovó, que não a “traíram”. Algumas mulheres, quando enfrentam essa situação, ficam desesperadas. Felizmente, aos poucos, e dependendo de como refaçam o vínculo, a situação tende a voltar ao normal.
Não se pode esquecer, principalmente nesse período de tanto contato, de tanta dependência, de tanta preocupação com a oralidade, a alimentação, a higiene etc., que a parte afetiva é fundamental nas relações humanas. Sem ela, o desenvolvimento enfrenta dificuldades para se realizar plenamente. Baseados nesses conhecimentos é que os pediatras insistem na atenção com afastamentos e distanciamentos. Uma criança de menos de dois anos sofre com afastamentos superiores a 12 horas. Se forem mais de 24 horas, podem marcar profundamente a psique e o comportamento da criança. Será que os pais sabem disso? Será que os pediatras e os psicólogos alertam os pais sobre isso? Falo dos pediatras porque são eles que têm a chance de monitorar e acompanhar as crianças com um pouco de frequência.

segunda-feira, 16 de janeiro de 2017

O que fazer se o bebê está mordendo o peito?


Por Pítia Villar e Fernanda Rezende Silva
Revisão: Luciana Freitas



Mordidas no peito são uma reclamação comum das mães que amamentam - algumas chegam até mesmo a pensar em desmame por esse motivo. Vamos entender porque elas acontecem e o que pode ser feito para evitá-las.
O primeiro ponto que deve ser analisado: é mordida mesmo? Em alguns casos, o bebê não está de fato mordendo a mãe, mas ela tem essa sensação, pois sente dor e o peito acaba ferido. Vamos falar sobre as possíveis causas de “falsas mordidas” e, logo em seguida, falaremos das mordidas verdadeiras.

Pega errada
O bebê recém-nascido ainda está aprendendo a mamar; portanto, precisa aprender a pega correta para não ferir o peito da mãe. Se o bebê perde a pega quando está sonolento, é preciso ficar vigilante para agir antes que ele tente segurar o mamilo que escorregou com uma “mordida”. Para evitar esse problema, sugerimos que logo que o bebê começar a ficar “molinho” a mãe coloque o dedo mindinho no canto da boca do bebê, de forma que, se os lábios escorregarem, o bebê vai morder o dedo, e não o mamilo. Não tente tirar o mamilo da boca do bebê quando ele ainda está sonolento pois poderá acordá-lo, apenas mantenha o dedo no canto da boca até que o bebê termine de adormecer para depois tirar o mamilo.

Freio de língua curto

Se o bebê tem o freio curto, então ele precisa ser avaliado por um profissional, pois em muitos desses casos ele não consegue fazer a pega correta e acaba “mordendo” o peito da mãe.

Confusão de bicos

Quando o bebê usa mamadeira, chupeta, copo com bico/canudo, ou se a mãe usa bico intermediário de silicone, pode estar acontecendo problema na pega por causa desses utensílios e isso é sinal de confusão de bicos. Não importa se os bicos foram dados na saída da maternidade, se após o retorno ao trabalho ou se em ausências ocasionais da mãe - em qualquer situação há riscos. Um único uso de mamadeira, por exemplo, pode prejudicar a pega e causar mordidas. Copo de treinamento também pode prejudicar a pega, mesmo se usado sem válvula.

Nascimento de dentes

Quando os dentes nascem, a gengiva do bebê pode doer e coçar, e alguns bebês usam tudo o que estiver ao seu alcance para aliviar o desconforto, até mesmo o peito da mãe. É possível ajudar o seu bebê a aliviar o desconforto recorrendo a mordedores, picolé de leite materno e massagens com as pontas dos dedos na gengiva do bebê. É interessante oferecer esses recursos para ele se distrair durante o dia, tendo atenção especial no momento antes da mamada. Caso o dente esteja rompendo ou já tenha rompido, considere que o bebê ainda não se habituou aos novos “habitantes” da boca e pode levar algum tempo para que a pega se ajuste, portanto fique de olho na pega: peça para o bebê abrir um “bocão” quando for mamar.

Dente lascado ou quebrado 

Há casos em que o bebê quebra o dente parcialmente e ele não é restaurado de imediato, então a mãe começa a ser “mordida” pelo bebê. Depois que o dente é restaurado a sensação de mordida some - ou seja, o dente lascado estava roçando no mamilo e causava essa sensação de mordida. Se você desconfia que possa ser o seu caso, procure um dentista.

Boca ferida ou doente

É importante avaliar cuidadosamente a boca do bebê procurando qualquer situação diferente que possa estar causando incômodo. Estomatite, sapinho e aftas podem fazer com que mamar seja bem dolorido e por isso o bebê pode ter irritação ou mesmo morder o seio materno ao ser amamentado. Caso identifique marcas, feridas ou aftas na boca do bebê que causem incômodo ou dor não force a mamada. Nesse caso, é conveniente que seja oferecido leite materno ordenhado em um copo e que procure auxílio médico; assim, evita-se que o desconforto se transforme em greve de amamentação e qualquer outro dano ao bebê.

Mordidas verdadeiras
Durante a fase oral, que vai do nascimento até cerca de 18 meses, o bebê usa a boca para conhecer e experimentar o universo ao seu redor. É um momento marcado pela necessidade elevada de sucção, que deve ser saciada no seio. Por isso, alguns bebês mordem a mama da mãe e, quando já têm dentes, pode ser doloroso demais. Mesmo sendo algo característico dessa fase, isso não significa que não devemos fazer nada para tentar amenizar as ocorrências.
Se o bebê morde quando a mãe está distraída, pode ser que ele esteja usando a mordida para chamar a atenção materna. Como amenizar ou resolver o problema? Com carinho, brincadeiras, caprichar no contato olho no olho.
O bebê também sente a agitação do local e pode tentar demonstrar seu medo, agitação e insegurança com essas mordidas desagradáveis. Caso você esteja em um recinto agitado, desconhecido ou com visitas em casa, o ideal é tentar se retirar para um local mais calmo, de modo que o bebê mame mais tranquilamente.
Alguns bebês maiores podem acham entediante ficar “só mamando”, procuram mais atividades para fazerem enquanto são amamentados e, por conta disso, acabam descobrindo a “diversão” de mordiscar o mamilo da mãe enquanto mamam. Nesse caso, brinquedinhos ou colares de amamentação podem ajudar a distrai-lo e evitar mordidas.
E quando está tudo bem e o bebê simplesmente morde porque quer, ou porque acha divertido? A mãe deve tomar uma atitude para que o bebê entenda que morder não é bom, não é divertido. Não grite; tire o peito da boca do bebê introduzindo o seu dedo mindinho na lateral da boca para conseguir retirar o mamilo sem machucar mais e fale com voz firme que não é para morder. Não repreenda demasiadamente, mas também não brinque. Manter a postura séria, mesmo que o bebê sorria, faz com que o entendimento dele seja maior, pois a expressão da mãe representa muito mais para o bebê do que as palavras. Use frases curtas, sem muitas palavras, como por exemplo, "morder dói na mamãe". Por fim, espere uns minutos antes de oferecer o peito novamente. Sempre que a situação se repetir, busque ser consistente nas atitudes, repetindo continuamente a mesma ação e as mesmas palavras, se possível, pois o bebê associará "morder = sem peito". 

terça-feira, 3 de janeiro de 2017

Bebê não faz o peito de chupeta

Por Luzinete R. C. Carvalho (Psicanalista)

Para adormecer, o bebê precisa estar relaxado, sentindo-se seguro e acolhido.
O ato de sugar proporciona grande parte das sensações agradáveis e a tranquilidade que o bebê precisa para atingir tal relaxamento e conseguir adormecer e para continuar dormindo.
Se o bebê ou criança usa chupeta, esta serve para saciar a necessidade de sucção para adormecer.
A chupeta também é usada para acalmar o bebê ou a criança em situações de nervoso, irritação, quando se machuca ou se assusta por qualquer motivo.
Percebam que é um gesto inconsciente este de oferecer a chupeta para o bebê que chora, que se machucou ou que está sonolento.
Não vejo ninguém criticando um bebê, que usa chupeta, por precisar usar sua chupeta para dormir.
Nunca vi ninguém dizendo que um bebê, que usa chupeta, não pode usar sua chupeta para fazer sua soneca.
É o contrário, geralmente justificam dizendo que a chupeta é "só para dormir".
Mas vai um bebê precisar do peito da sua mãe para conseguir adormecer...
Me contem, quantas vezes ouviram críticas a respeito de bebês que precisam do peito para dormir?
Ninguém diz que um bebê não pode recorrer a chupeta para dormir, mas dizem que um bebê não pode recorrer ao peito para dormir.
E então, em uma grande inversão de conceitos e valores, dizem que o bebê faz "o peito de chupeta".
Como se o peito tivesse a função limitada de apenas alimentar.
Desconsideram o papel que o peito tem para transmitir segurança, tranquilidade, aconchego e para relaxar e acalmar os bebês.
Não.
Nenhum bebê faz o "peito de chupeta".
A chupeta é que é introduzida para: conter, acalmar, relaxar, tranquilizar, auxiliar no processo de adormecer, etc.
Se a chupeta foi introduzida, por qualquer razão, e serve como "suporte" em todos esses casos, as pessoas só precisam saber que o peito essencialmente também serve para tudo isso.
Se a chupeta é socialmente aceita, com tanta passividade e displicência, para ser usada em todos esses casos, então é preciso aceitar que o peito da mãe pode, e deve, ser oferecido sempre que o bebê precisar ser acalmado, acolhido, adormecido.
O papel da amamentação vai para além de saciar a fome física.
A amamentação também é aporte psíquico, também sacia a fome emocional.
Este texto não é para falar sobre os males e os riscos de oferecer a chupeta, que existem e devem ser levados em conta individualmente por cada família.
Este texto não é para que ninguém precise justificar ou explicar o uso da chupeta.
Este texto é para que as mães que NÃO usam a chupeta, possam se sentir a vontade para continuar recorrendo ao peito, caso vejam utilidade e necessidade.
Este texto é apenas para dizer que é errado criticar uma mãe por permitir que seu bebê adormeça mamando.
É errado criticar uma mãe por permitir que seu bebê se recupere de uma queda mamando.
É errado criticar uma mãe por permitir que seu bebê se acalme mamando.
A chupeta é colocada na boca dos bebês e crianças em todas as situações citadas (e muitas outras) sem que ninguém se exaspere, afinal, é para isso que a chupeta serve.
O peito, antes da invenção da chupeta (sim, a chupeta foi inventada depois do peito), sempre serviu para saciar todas as necessidades físicas e emocionais de um bebê.
Antes de criticar a maneira como uma mãe conduz a amamentação do bebê DELA, reveja seus preconceitos, reflita sobre a sua própria ignorância a respeito da amamentação.
Antes de criticar a maneira como uma mãe conduz a amamentação, respire fundo 10 vezes, e não diga nada sem se informar melhor sobre o assunto, e tentar perceber se, por acaso, não são os seus conceitos que precisam mudar, expandir, melhorar...
Resumindo, era só para dizer que:
- Bebês possuem necessidades não nutritivas de sucção.
- Não é errado bebê recorrer ao peito para dormir.
- Não é errado bebê recorrer ao peito para se acalmar.
- Não é errado a mãe acolher, acalmar e adormecer seu bebê no peito, se ela puder e quiser.
- É muito errado criticar uma mãe por causa da maneira que ela escolheu manejar a amamentação.
- Sempre dá tempo de refletir e mudar preconceitos.



sexta-feira, 9 de dezembro de 2016

A privação do afeto como recurso "educativo"

Por Luzinete R. C. Carvalho ( Psicanalista )
Publicado originalmente em: https://www.facebook.com/notes/vis%C3%A3o-clara/a-priva%C3%A7%C3%A3o-do-afeto-como-recurso-educativo/370263859987720

Quando nos apaixonamos, quando amamos alguém, ou mesmo queremos bem alguém, procuramos conhecer seus gostos, suas vontades e suas necessidades.

E sem que represente um sacrifício, tentamos corresponder aos anseios e desejos da pessoa querida.

Tentamos nos mostrar interessados em seu bem estar e em sua felicidade de mil maneiras muito pessoais.

Telefonamos, mandamos mensagens pelo what's app, recados pelo facebook.

Levamos para jantar no restaurante preferido, levamos em shows e passeios que agradem.

Quando vemos em uma loja algo que a pessoa gosta pensamos em comprar, mesmo não sendo nenhuma "data especial", pois a pessoa é especial e vale o presente fora de hora.

Para facilitar a reflexão, e evitar distorções desnecessárias, aviso que neste texto estou falando de relações saudáveis, onde o carinho e atenção são recíprocos, onde não há abuso de um lado, nem baixa autoestima de outro.
Estou falando de relações nas quais nos sentimos bem em deixar claro que conhecemos muito bem os gostos, as vontades e as necessidades da pessoa.

Estou falando de relações em que nos sentimos bem quando acertamos no presente, na guloseima, no passeio, na surpresa.

Nos sentimos genuinamente felizes quando deixamos claro o quanto conhecemos a pessoa querida, e o quanto conseguimos supri-la com nosso carinho, atenção e amor.

É a frase feita, mas que é tão verdadeira quando diz que "não basta amar, é preciso conseguir fazer com que a pessoa se sinta amada".

E quando amamos uma pessoa nos esforçamos para que ela se sinta amada do jeito que ela entende que é amada. 

Apenas me pergunto as razões disso ser plenamente aceitável quando se trata das relações entre adultos, mas quando se trata de amar nossos filhos pequenos, a regra não vale...

Se nos esforçamos tanto para que um adulto se sinta amado do jeito que ele precisa, por que criticamos quando os pais tentam fazer com que seus bebês e suas crianças se sintam amadas do jeito que elas precisam?
Serei mais clara.

Bebês e crianças pequenas não vão entender se você apenas disser "eu te amo".

Tenho minhas dúvidas se apenas dizer "eu te amo" é o suficiente inclusive para adultos.

Bebês são mais simples que os adultos, não precisam de presentes, não precisam de eventos elaborados, não precisam de declarações rebuscadas.

Bebês entendem que são amados através do abraço, do toque, do peito, do colo.

Se um bebê chora precisando de colo, não vai ser o suficiente acenar de longe dizendo que estamos ali.

Se um bebê chora precisando de peito, não vai ser o suficiente ficar por perto repetindo que o amamos, com voz branda e mantendo-nos calmos e tranquilos. 

Os profissionais e as pessoas em geral precisam parar de recomendar que mães e pais neguem colo para seus bebês e crianças.

As pessoas precisam parar de recomendar que mães neguem peito como forma de consolo para seus bebês e crianças.

Não entender o papel da amamentação, do colo, do contato físico na formação de uma base emocional forte e saudável da criança é estar, além de limitado, ignorante de muitos estudos a respeito do assunto.

Amamentação é nutrição física e também emocional.

Colo é nutrição emocional e psíquica.

É cruel, ignorante e perigoso  negar que uma criança se sinta amada do jeito que entende: através do peito, do abraço, do contato físico, do colo.

E vamos deixar tudo bem claro para não haver más interpretações: não me refiro a situações em que pode ser impossível amamentar ou pegar no colo, não me refiro a situações em que a própria criança não deseja ser tocada ou embalada.

Me refiro a situações em que deliberadamente, sem nenhuma necessidade real, se aconselha que mães e pais neguem para bebês e crianças aquilo que é plenamente possível ser oferecido. 

Me refiro a situações nas quais, sem nenhuma razão verdadeira, se nega carinho, afeto e aconchego do jeito que um bebê pode compreender.

Vários são os pretextos para que se indique a negação do afeto: preparar a criança para vida, treinar para que durma, treinar para que obedeça, "educar", castigar.

Percebam que a privação do afeto é usada tanto como desculpa para "educar" quanto para punir.

A natureza dúbia deste recurso já deveria ser o suficiente para que relutássemos em aceita-lo.

A privação do afeto é usada para manipular, chantagear e amedrontar.

O amor e o afeto dos pais ficam condicionados a um suposto "bom comportamento" por parte do bebê ou da criança, que na maioria das vezes ainda nem consegue compreender o que está sendo esperado ou exigido dela.

Geralmente os pais não se sentem confortáveis em aderir a este tipo de recomendação, geralmente os pais estão passando por alguma situação em que já esgotaram seus próprios recursos para solucionar a questão, e acabam cedendo mediante previsões nada boas sobre o futuro dos filhos, que, segundo muitos profissionais, se tornarão mimados e dependentes.

Os pais são estimulados a negarem afeto aos filhos como forma de se mostrarem firmes e fortes. Aqueles que não seguem as recomendações são taxados de manipulados e fracos.

A verdade é que não se prepara uma criança para a vida através de lições que deixam a mensagem de que ela não pode contar com as pessoas em quem mais confia, nos momentos em que mais precisa.
Não se educa através do medo de perder o amor.
Não se fortalece uma pessoa abalando suas bases emocionais com negativas de carinho e segurança.

Não vou incluir neste texto considerações sobre muitos estudos sérios que falam da importância da amamentação, do colo, do toque e do contato físico para a formação do cérebro do bebê durante seu primeiro ano de vida.

Aqui me basta dizer que os estudos sérios existem, inclusive sobre a importância do contato físico e do acolhimento nos primeiros anos de vida para o desenvolvimento da inteligência emocional do ser humano.

Por hora basta dizer que estudos sérios e confiáveis existem, e uma pesquisa simples pode dar acesso a eles.

Neste texto quero apenas instigar uma outra visão sobre o assunto e propor uma reflexão inicial necessária a cada pai e mãe, sobre quais mensagens gostariam de deixar gravadas na mente e no coração dos seus filhos.

Se tanto nos esforçamos para atender aos desejos, necessidades e anseios de quem amamos, como podemos recomendar que se negue para um bebê ou para uma criança aquilo que ela precisa no momento, para se sentir tranquila, calma, relaxada e segura?
Se fazemos tudo que está ao nosso alcance para que quem amamos sinta nosso amor do jeito que conseguem, então que façamos o mesmo com nossos bebês e nossas crianças.

Não precisamos negar ajuda, afeto e acolhimento para nossos filhos pequenos por medo de não prepara-los bem para o futuro.

Não precisamos criar momentos de frustração e batalhas que servem apenas para desgastar a família e destruir o vínculo entre pais e filhos.

Não precisamos negar ou privar nossos filhos de afeto sem necessidade, o tempo inteiro surgem frustrações e situações em que realmente a negativa é necessária e verdadeira.
A verdade pura e cruel é que a vida, dinâmica em sua natureza, proporciona, e sempre  proporcionará, muitas situações em que nada poderemos fazer para consolar nossos filhos.
A vida por si só trará frustrações e dissabores que não poderemos evitar, e, na melhor das hipóteses, nos restará apenas estar ao lado deles, torcendo para que a fortaleza interior adquirida ao longo da vida, os ajude a suportar e superar as dificuldades.

Que possamos então fortalece-los em suas bases emocionais, enquanto nos é possível agir ativamente para contribuir que desenvolvam a resiliência tão necessária diante as adversidades inevitáveis.

Que possamos mostrar para eles que não importa onde estejam, nem o que tiver acontecido, que somos nós, seus pais, as pessoas em quem eles sempre poderão confiar e contar, ainda que apenas para oferecer a oração, a torcida, o carinho, a companhia.

E enquanto são bebês e crianças que possamos ter a liberdade de demonstrar o quanto são amados do jeito que conseguem entender, através do peito e do nosso colo quente e seguro.

A verdade é que nunca mais teremos tempos mais felizes do que esses em que conseguimos resolver tudo e ajudar nossos filhos com um "simples" abraço. 



sexta-feira, 11 de novembro de 2016

Refluxo patológico em bebês – Conceito, diagnósticos diferenciais e tratamento

Por Ana Carolina Dantas Loureiro

CONSIDERAÇÕES INICIAIS

Refluxo Gastroesofágico é a passagem de conteúdo gástrico ao esôfago. Por ser considerado um evento normal nos bebês, dada a imaturidade da válvula entre o esôfago e o estômago, é chamado de Refluxo Fisiológico. Os bebês que refluem rotineiramente sem demonstração de incômodo são considerados “golfadores-felizes”, dispensando preocupação e intervenção médica.

A regurgitação de um bebê em aleitamento materno exclusivo não significa que o bebê mamou demais, mas apenas que a válvula (cárdia) é imatura. Desse modo, com os meses e amadurecimento do organismo da criança, esse refluxo tende a melhorar sensivelmente sem a necessidade de intervenção médica ou farmacológica.

O Refluxo é oculto quando o indivíduo não regurgita (golfa).

Excepcionalmente, o refluxo pode ser considerado uma doença quando associado a outros sintomas ou complicações (Refluxo Patológico = Doença do refluxo gastroesofágico), passando a incomodar o bebê e afetar o ganho de peso. Como se demonstrará, o melhor tratamento é adoção de medidas posturais e bons hábitos.

Destaque-se que há um grupo de bebês que apresenta uma maior probabilidade de incidência de Refluxo Patológico, quais sejam: neuropatas, portadores de síndromes genéticas, de atresia de esôfago operada, de doença pulmonar crônica, prematuros e as crianças com sobrepeso e obesidade (estas, em caso de aleitamento misto ou em uso exclusivo de leite artificial). Tais casos merecem o acompanhamento do profissional gastropediatra em caso de suspeita da Doença do Refluxo Gastroesofágico.

DIAGNÓSTICO DO REFLUXO PATOLÓGICO

O diagnóstico do Refluxo é realizado com maior exatidão a partir da clínica (com base nos sintomas e exames físicos).

Ressalte-se que os exames disponíveis não são efetivamente precisos para identificar refluxo em crianças e, muitas vezes, incapazes de diferenciar o Fisiológico do Patológico – a exemplo da ultrassonografia de abdome. Outros exames são muito invasivos, não devendo ser passados de rotina – inclusive porque, como dito, a melhor forma de diagnóstico do Refluxo Patológico é a clínica do paciente (padrão-ouro em diagnóstico).

Tratando-se de bebês, sintomas inespecíficos (como choro, dificuldades com o sono e irritabilidade), não são suficientes para a conclusão do diagnóstico.

Desse modo, antes de se concluir por Refluxo Patológico, é importante investigar se há livre demanda de leite materno, ausência de bicos artificiais e se o bebê tem muito acesso ao colo e contato com a mãe, quando preservada a exterogestação. Isso porque são questões que podem afetar o estado geral da criança e influenciar no ganho de peso.

De igual forma, como os bebês nascem neurologicamente imaturos e totalmente dependentes de seu cuidador principal (no caso, a mãe), é natural que sofram se deixados muito tempo no berço ou em um local em que se sintam fragilizados – sem que esse desconforto seja exatamente uma dor física. Sobre o assunto: A cólica, por dr González, Livre demanda: o que realmente é, Teoria da extero-gestação, O Conceito do Continuum.

Destaque-se que a amamentação não serve apenas para alimentar, mas também para matar a sede, satisfazer a necessidade de sucção e calor. Por isso, os lactentes precisam muito de colo e leite materno quando novinhos, muitas vezes até para permanecerem dormindo.

Dito isso, é comum que o bebê não consiga dormir diretamente no berço ou desperte pouco após ser colocado nele. Nesse caso, a falta de sonecas de qualidade pode deflagrar uma irritação por cansaço excessivo (efeito vulcão).

Outro ponto a ser afastado é o uso de bicos artificiais no caso de bebês em aleitamento materno, pois alguns dos possíveis sintomas de Refluxo Patológico se parecem com confusão de bicos, como exemplo: arquear o corpo para trás ao mamar, mamadas rápidas, irritabilidade e dificuldade no ganho de peso.

Confusão de bicos é um fenômeno reconhecido pelo Ministério da Saúde e OMS, que contraindicam bicos artificiais para bebês amamentados, pois a musculatura envolvida para o bebê pegá-los é diferente da usada no peito. Com isso, pode-se estimular uma musculatura orofacial inadequada, impedindo o lactente de ordenhar corretamente o peito, prejudicando a produção de leite, dentre outros possíveis malefícios.

Por fim, necessário ainda excluir a hipótese de hiperlactação da nutriz, tendo em vista que o fluxo de leite pode ser maior do que o bebê consegue administrar, especialmente nas primeiras semanas após a apojadura.

Vale enfatizar que deve ser sempre preservada a livre demanda ainda que confirmado o Refluxo Patológico, pois o controle de horários para as mamadas é inútil no tratamento e pode causar ainda mais sofrimento ao lactente, com riscos à sua adequada nutrição.

O aleitamento materno é recomendável quando há Refluxo Patológico, sendo equivocada orientação de desmame nessa hipótese. Nenhuma fórmula é tão boa ao bebê, inclusive em caso de Refluxo Patológico.

ALERGIA ALIMENTAR E REFLUXO
 

Há refluxo que decorre de alergia alimentar, sendo a Alergia à Proteína do Leite de Vaca (APLV) a mais comum em bebês. Quando o Refluxo Patológico é consequência da APLV, melhora gradualmente com a dieta correta.
 

Ocorre que Refluxo não costuma ser um sintoma isolado em Alergia Alimentar. Por isso, em caso de só haver sintomas de Refluxo Patológico, apenas essa condição merece um tratamento inicial, para se evitar uma dieta desnecessária e até prejudicial ao bebê, especialmente porque o contato com proteínas potencialmente alérgenas, via leite materno, ajuda a evitar alergias na fase de introdução alimentar.
 

Em regra, os alimentos ingeridos pela mãe que amamenta não causam refluxo no bebê - nem quaisquer outros incômodos. A única exceção é para o caso de confirmação de alergia alimentar a alguma proteína.

TRATAMENTO
 

Como dito, Refluxo Fisiológico é natural em bebês e não requer tratamento.
 

O mesmo acontece com bebês que apresentam sintomas leves de Refluxo Patológico, no qual o tratamento com remédios é desnecessário (e até prejudicial face alguns dos efeitos adversos possíveis e falta de eficácia comprovada de outros), podendo se resolver espontaneamente com o crescimento da criança, sem sequelas.
 

Confirmado o diagnóstico de Refluxo Patológico, o tratamento conservador (não farmacológico) é recomendável, podendo trazer benefícios sem efeitos colaterais.
 

O tratamento do Refluxo Patológico dá-se de forma progressiva, começando com as medidas posturais e novos hábitos. Após, permanecendo o incômodo do paciente, pode-se associar tais práticas a determinados remédios, sob supervisão médica especializada.
 

A posição prona (barriga para baixo) consiste na postura anti-refluxo mais eficaz. Porém, recomenda-se que todos os bebês (até conseguirem se virar sozinhos) durmam na posição supina (barriga para cima) por diminuir o risco de morte súbita.
 

São exemplos de medidas posturais: mamar mais ereto, como na posição cavaleiro, deixar ereto após mamar, não usar fraldas ou calças apertadas.
 

A elevação da cabeceira da cama/berço com calços (no mínimo 30 graus) é relatada como medida postural que traz benefícios. Para tanto, pode-se usar livros ou pedaços de madeiras. Por sua vez, travesseiros e colchões anti-refluxo podem não ter a mesma eficácia, apesar de usualmente empregados.
 

O uso de slings ou cangurus ergonômicos pode ajudar a manter a criança em posição ereta, equilibrando o peso da criança, com maior conforto ao cuidador.
 

Importante ainda evitar a exposição ao cigarro (fumo passivo), pois o tabaco induz o relaxamento da cárdia (válvula entre esôfago e estômago) – além de outros malefícios (aumenta a predisposição à asma, pneumonia, apneia e síndrome de morte súbita).
 

Nos indivíduos que apresentam sintomas severos de Refluxo Patológico sem melhora após a utilização das medidas posturais, é recomendável o acompanhamento com gastropediatra para investigação apropriada a partir da clínica e de exames (preferencialmente os menos invasivos).
 

Ainda que seja necessário ingressar com medicamentos, é importante a manutenção das medidas posturais acima indicadas.
 

Algumas medicações possuem reações adversas sérias que podem confundir sintomas, a exemplo de irritabilidade, falta de apetite e náuseas. Portanto, necessário que o médico acompanhe a evolução do paciente e que os pais estejam cientes desses possíveis efeitos presentes na bula.     

REFERÊNCIAS:   

CAVALCANTI, Maria Birman. A alimentação da mãe pode causar cólicas e gases no bebê? Disponível em <http://grupovirtualdeamamentacao.blogspot.com.br/2016/10/dieta-altera-composicao-do-leite-materno.html>  

CAVALCANTI, Maria Birman.  Carregadores de bebês. Disponível em <http://grupovirtualdeamamentacao.blogspot.com.br/2016/11/carregadores-de-bebes.html>

Consenso Brasileiro sobre Alergia Alimentar 2007 - Documento conjunto elaborado pela Sociedade Brasileira de Pediatria e Associação Brasileira de Alergia e Imunopatologia (ASBAI). Disponível em <http://www.asbai.org.br/revistas/vol312/ART%202-08%20-%20Consenso%20Brasileiro%20sobre%20Alergia%20Alimentar%20-%202007.pdf>   

Guia Prático de diagnóstico e tratamento da Alergia às Proteínas do Leite de Vaca mediada pela imunoglobulina E – elaborado pela Associação Brasileira de Alergia e Imunopatologia (ASBAI) e Sociedade Brasileira de Alimentação e Nutrição. Disponível em <http://www.asbai.org.br/revistas/vol356/Guia-35-6.pdf>.   

FERREIRA, Cristina Targ & outros. Doença do refluxo gastroesofágico: exageros, evidências e a prática clínica. J. Pediatr. (Rio J.) vol.90 no.2 Porto Alegre Mar./Apr. 2014. Disponível em <http://www.scielo.br/scielo.php?pid=S0021-75572014000200105&script=sci_arttext&tlng=pt>   

GONZÁLEZ, Carlos. Manual Prático de Aleitamento Materno. São Paulo: Editora Timo, 2014.  

GONZÁLEZ, Carlos. Un regalo para toda la vida - Guía de la lactancia materna. Trecho “A Cólica”. Disponível em <http://grupovirtualdeamamentacao.blogspot.com.br/2014/06/a-colica-por-dr-gonzalez.html>   

KARP, Harvey. The Happiest Baby on The Block. Trecho “Teoria da Exterogestação” disponível em <http://grupovirtualdeamamentacao.blogspot.com.br/2014/06/teoria-da-extero-gestacao.html

JUNQUEIRA, José Cesar da Fonseca. Doença do refluxo gastroesofágico: diagnóstico e tratamento. Disponível em <http://revistadepediatriasoperj.org.br/detalhe_artigo.asp?id=106>

Moderadoras GVA. O jogo hormonal entre mãe e filho na cama compartilhada. Disponível em <http://grupovirtualdeamamentacao.blogspot.com.br/2015/01/o-jogo-hormonal-entre-mae-e-filho-na.html>.

PANTLEY, Elizabeth. Soluções para noites sem choro. Trecho “O Conceito do Continuum - a importância da fase do colo” Disponível em: <http://grupovirtualdeamamentacao.blogspot.com.br/2014/06/o-conceito-do-continuum-importancia-da.html>

PEREIRA, Leidiana. Como identificar sinais de Confusão de Bicos. Disponível em <http://grupovirtualdeamamentacao.blogspot.com.br/2014/11/como-identificar-sinais-de-confusao-de.html>

 RODRIGUES, Maraci & outros. Manifestações clínicas, terapêutica e evolução de crianças e adolescentes com esofagite eosinofílica. Disponível em <http://dx.doi.org/10.1016/j.jped.2013.03.001>  

OLIVEIRA, SARITA. Hiperlactação ou hipergalactia: eu estou produzindo muito leite? Disponível em <http://grupovirtualdeamamentacao.blogspot.com.br/2015/01/quando-muito-leite-e-um-problema.html>  

 SILVA, Fernanda Rezende e GARCIA, Zioneth. O que acontece com os músculos bucais quando um bebê usa qualquer bico artificial (chupetas, mamadeiras, bicos de silicone) <http://grupovirtualdeamamentacao.blogspot.com.br/2015/03/o-que-acontece-com-os-musculos-bucais.html>
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