sexta-feira, 11 de novembro de 2016

Refluxo patológico em bebês – Conceito, diagnósticos diferenciais e tratamento

Por Ana Carolina Dantas Loureiro

CONSIDERAÇÕES INICIAIS

Refluxo Gastroesofágico é a passagem de conteúdo gástrico ao esôfago. Por ser considerado um evento normal nos bebês, dada a imaturidade da válvula entre o esôfago e o estômago, é chamado de Refluxo Fisiológico. Os bebês que refluem rotineiramente sem demonstração de incômodo são considerados “golfadores-felizes”, dispensando preocupação e intervenção médica.

A regurgitação de um bebê em aleitamento materno exclusivo não significa que o bebê mamou demais, mas apenas que a válvula (cárdia) é imatura. Desse modo, com os meses e amadurecimento do organismo da criança, esse refluxo tende a melhorar sensivelmente sem a necessidade de intervenção médica ou farmacológica.

O Refluxo é oculto quando o indivíduo não regurgita (golfa).

Excepcionalmente, o refluxo pode ser considerado uma doença quando associado a outros sintomas ou complicações (Refluxo Patológico = Doença do refluxo gastroesofágico), passando a incomodar o bebê e afetar o ganho de peso. Como se demonstrará, o melhor tratamento é adoção de medidas posturais e bons hábitos.

Destaque-se que há um grupo de bebês que apresenta uma maior probabilidade de incidência de Refluxo Patológico, quais sejam: neuropatas, portadores de síndromes genéticas, de atresia de esôfago operada, de doença pulmonar crônica, prematuros e as crianças com sobrepeso e obesidade (estas, em caso de aleitamento misto ou em uso exclusivo de leite artificial). Tais casos merecem o acompanhamento do profissional gastropediatra em caso de suspeita da Doença do Refluxo Gastroesofágico.

DIAGNÓSTICO DO REFLUXO PATOLÓGICO

O diagnóstico do Refluxo é realizado com maior exatidão a partir da clínica (com base nos sintomas e exames físicos).

Ressalte-se que os exames disponíveis não são efetivamente precisos para identificar refluxo em crianças e, muitas vezes, incapazes de diferenciar o Fisiológico do Patológico – a exemplo da ultrassonografia de abdome. Outros exames são muito invasivos, não devendo ser passados de rotina – inclusive porque, como dito, a melhor forma de diagnóstico do Refluxo Patológico é a clínica do paciente (padrão-ouro em diagnóstico).

Tratando-se de bebês, sintomas inespecíficos (como choro, dificuldades com o sono e irritabilidade), não são suficientes para a conclusão do diagnóstico.

Desse modo, antes de se concluir por Refluxo Patológico, é importante investigar se há livre demanda de leite materno, ausência de bicos artificiais e se o bebê tem muito acesso ao colo e contato com a mãe, quando preservada a exterogestação. Isso porque são questões que podem afetar o estado geral da criança e influenciar no ganho de peso.

De igual forma, como os bebês nascem neurologicamente imaturos e totalmente dependentes de seu cuidador principal (no caso, a mãe), é natural que sofram se deixados muito tempo no berço ou em um local em que se sintam fragilizados – sem que esse desconforto seja exatamente uma dor física. Sobre o assunto: A cólica, por dr González, Livre demanda: o que realmente é, Teoria da extero-gestação, O Conceito do Continuum.

Destaque-se que a amamentação não serve apenas para alimentar, mas também para matar a sede, satisfazer a necessidade de sucção e calor. Por isso, os lactentes precisam muito de colo e leite materno quando novinhos, muitas vezes até para permanecerem dormindo.

Dito isso, é comum que o bebê não consiga dormir diretamente no berço ou desperte pouco após ser colocado nele. Nesse caso, a falta de sonecas de qualidade pode deflagrar uma irritação por cansaço excessivo (efeito vulcão).

Outro ponto a ser afastado é o uso de bicos artificiais no caso de bebês em aleitamento materno, pois alguns dos possíveis sintomas de Refluxo Patológico se parecem com confusão de bicos, como exemplo: arquear o corpo para trás ao mamar, mamadas rápidas, irritabilidade e dificuldade no ganho de peso.

Confusão de bicos é um fenômeno reconhecido pelo Ministério da Saúde e OMS, que contraindicam bicos artificiais para bebês amamentados, pois a musculatura envolvida para o bebê pegá-los é diferente da usada no peito. Com isso, pode-se estimular uma musculatura orofacial inadequada, impedindo o lactente de ordenhar corretamente o peito, prejudicando a produção de leite, dentre outros possíveis malefícios.

Por fim, necessário ainda excluir a hipótese de hiperlactação da nutriz, tendo em vista que o fluxo de leite pode ser maior do que o bebê consegue administrar, especialmente nas primeiras semanas após a apojadura.

Vale enfatizar que deve ser sempre preservada a livre demanda ainda que confirmado o Refluxo Patológico, pois o controle de horários para as mamadas é inútil no tratamento e pode causar ainda mais sofrimento ao lactente, com riscos à sua adequada nutrição.

O aleitamento materno é recomendável quando há Refluxo Patológico, sendo equivocada orientação de desmame nessa hipótese. Nenhuma fórmula é tão boa ao bebê, inclusive em caso de Refluxo Patológico.

ALERGIA ALIMENTAR E REFLUXO
 

Há refluxo que decorre de alergia alimentar, sendo a Alergia à Proteína do Leite de Vaca (APLV) a mais comum em bebês. Quando o Refluxo Patológico é consequência da APLV, melhora gradualmente com a dieta correta.
 

Ocorre que Refluxo não costuma ser um sintoma isolado em Alergia Alimentar. Por isso, em caso de só haver sintomas de Refluxo Patológico, apenas essa condição merece um tratamento inicial, para se evitar uma dieta desnecessária e até prejudicial ao bebê, especialmente porque o contato com proteínas potencialmente alérgenas, via leite materno, ajuda a evitar alergias na fase de introdução alimentar.
 

Em regra, os alimentos ingeridos pela mãe que amamenta não causam refluxo no bebê - nem quaisquer outros incômodos. A única exceção é para o caso de confirmação de alergia alimentar a alguma proteína.

TRATAMENTO
 

Como dito, Refluxo Fisiológico é natural em bebês e não requer tratamento.
 

O mesmo acontece com bebês que apresentam sintomas leves de Refluxo Patológico, no qual o tratamento com remédios é desnecessário (e até prejudicial face alguns dos efeitos adversos possíveis e falta de eficácia comprovada de outros), podendo se resolver espontaneamente com o crescimento da criança, sem sequelas.
 

Confirmado o diagnóstico de Refluxo Patológico, o tratamento conservador (não farmacológico) é recomendável, podendo trazer benefícios sem efeitos colaterais.
 

O tratamento do Refluxo Patológico dá-se de forma progressiva, começando com as medidas posturais e novos hábitos. Após, permanecendo o incômodo do paciente, pode-se associar tais práticas a determinados remédios, sob supervisão médica especializada.
 

A posição prona (barriga para baixo) consiste na postura anti-refluxo mais eficaz. Porém, recomenda-se que todos os bebês (até conseguirem se virar sozinhos) durmam na posição supina (barriga para cima) por diminuir o risco de morte súbita.
 

São exemplos de medidas posturais: mamar mais ereto, como na posição cavaleiro, deixar ereto após mamar, não usar fraldas ou calças apertadas.
 

A elevação da cabeceira da cama/berço com calços (no mínimo 30 graus) é relatada como medida postural que traz benefícios. Para tanto, pode-se usar livros ou pedaços de madeiras. Por sua vez, travesseiros e colchões anti-refluxo podem não ter a mesma eficácia, apesar de usualmente empregados.
 

O uso de slings ou cangurus ergonômicos pode ajudar a manter a criança em posição ereta, equilibrando o peso da criança, com maior conforto ao cuidador.
 

Importante ainda evitar a exposição ao cigarro (fumo passivo), pois o tabaco induz o relaxamento da cárdia (válvula entre esôfago e estômago) – além de outros malefícios (aumenta a predisposição à asma, pneumonia, apneia e síndrome de morte súbita).
 

Nos indivíduos que apresentam sintomas severos de Refluxo Patológico sem melhora após a utilização das medidas posturais, é recomendável o acompanhamento com gastropediatra para investigação apropriada a partir da clínica e de exames (preferencialmente os menos invasivos).
 

Ainda que seja necessário ingressar com medicamentos, é importante a manutenção das medidas posturais acima indicadas.
 

Algumas medicações possuem reações adversas sérias que podem confundir sintomas, a exemplo de irritabilidade, falta de apetite e náuseas. Portanto, necessário que o médico acompanhe a evolução do paciente e que os pais estejam cientes desses possíveis efeitos presentes na bula.     

REFERÊNCIAS:   

CAVALCANTI, Maria Birman. A alimentação da mãe pode causar cólicas e gases no bebê? Disponível em <http://grupovirtualdeamamentacao.blogspot.com.br/2016/10/dieta-altera-composicao-do-leite-materno.html>  

CAVALCANTI, Maria Birman.  Carregadores de bebês. Disponível em <http://grupovirtualdeamamentacao.blogspot.com.br/2016/11/carregadores-de-bebes.html>

Consenso Brasileiro sobre Alergia Alimentar 2007 - Documento conjunto elaborado pela Sociedade Brasileira de Pediatria e Associação Brasileira de Alergia e Imunopatologia (ASBAI). Disponível em <http://www.asbai.org.br/revistas/vol312/ART%202-08%20-%20Consenso%20Brasileiro%20sobre%20Alergia%20Alimentar%20-%202007.pdf>   

Guia Prático de diagnóstico e tratamento da Alergia às Proteínas do Leite de Vaca mediada pela imunoglobulina E – elaborado pela Associação Brasileira de Alergia e Imunopatologia (ASBAI) e Sociedade Brasileira de Alimentação e Nutrição. Disponível em <http://www.asbai.org.br/revistas/vol356/Guia-35-6.pdf>.   

FERREIRA, Cristina Targ & outros. Doença do refluxo gastroesofágico: exageros, evidências e a prática clínica. J. Pediatr. (Rio J.) vol.90 no.2 Porto Alegre Mar./Apr. 2014. Disponível em <http://www.scielo.br/scielo.php?pid=S0021-75572014000200105&script=sci_arttext&tlng=pt>   

GONZÁLEZ, Carlos. Manual Prático de Aleitamento Materno. São Paulo: Editora Timo, 2014.  

GONZÁLEZ, Carlos. Un regalo para toda la vida - Guía de la lactancia materna. Trecho “A Cólica”. Disponível em <http://grupovirtualdeamamentacao.blogspot.com.br/2014/06/a-colica-por-dr-gonzalez.html>   

KARP, Harvey. The Happiest Baby on The Block. Trecho “Teoria da Exterogestação” disponível em <http://grupovirtualdeamamentacao.blogspot.com.br/2014/06/teoria-da-extero-gestacao.html

JUNQUEIRA, José Cesar da Fonseca. Doença do refluxo gastroesofágico: diagnóstico e tratamento. Disponível em <http://revistadepediatriasoperj.org.br/detalhe_artigo.asp?id=106>

Moderadoras GVA. O jogo hormonal entre mãe e filho na cama compartilhada. Disponível em <http://grupovirtualdeamamentacao.blogspot.com.br/2015/01/o-jogo-hormonal-entre-mae-e-filho-na.html>.

PANTLEY, Elizabeth. Soluções para noites sem choro. Trecho “O Conceito do Continuum - a importância da fase do colo” Disponível em: <http://grupovirtualdeamamentacao.blogspot.com.br/2014/06/o-conceito-do-continuum-importancia-da.html>

PEREIRA, Leidiana. Como identificar sinais de Confusão de Bicos. Disponível em <http://grupovirtualdeamamentacao.blogspot.com.br/2014/11/como-identificar-sinais-de-confusao-de.html>

 RODRIGUES, Maraci & outros. Manifestações clínicas, terapêutica e evolução de crianças e adolescentes com esofagite eosinofílica. Disponível em <http://dx.doi.org/10.1016/j.jped.2013.03.001>  

OLIVEIRA, SARITA. Hiperlactação ou hipergalactia: eu estou produzindo muito leite? Disponível em <http://grupovirtualdeamamentacao.blogspot.com.br/2015/01/quando-muito-leite-e-um-problema.html>  

 SILVA, Fernanda Rezende e GARCIA, Zioneth. O que acontece com os músculos bucais quando um bebê usa qualquer bico artificial (chupetas, mamadeiras, bicos de silicone) <http://grupovirtualdeamamentacao.blogspot.com.br/2015/03/o-que-acontece-com-os-musculos-bucais.html>

terça-feira, 1 de novembro de 2016

Carregadores de bebês


Por Maria Birman Cavalcanti
Revisão: Juliana Gieppner
 
O objetivo deste texto é incentivar as mães a carregar juntinho! O GVA entende que carregar bebês junto ao corpo preserva a exterogestação e facilita a amamentação. Queremos orientar os cuidadores em relação às questões fisiológicas que estão envolvidas no carregar para que isso possa ser posto em prática com conforto e segurança.  
Ao redor do mundo e através do tempo diversas culturas tradicionais desenvolveram formas de carregar seus bebês. Bebês pequenos têm extrema necessidade de colo e contato humano, e não costumam aceitar ser deixados sozinhos no berço ou no carrinho sem protestar. Há quem diga que se deve deixar o bebê chorar para “acostumá-lo” a ficar sozinho, que assim se tornará independente – o que sabemos que não é verdade. Quando uma mãe decide, por saber ser o melhor para ela e para o bebê, dar colo contínuo, em livre demanda, como pode então sair na rua, passear, ou mesmo executar tarefas simples dentro de casa, como lanchar ou mexer no celular, se tem as mãos constantemente ocupadas?
Felizmente, existem os carregadores de bebês, que são verdadeiros facilitadores de colo. Um carregador de pano ou uma mochila ergonômica funciona como um par de braços extra, que permite carregar o bebê junto ao corpo, satisfazendo sua necessidade de colo, aconchego e calor humano, ao mesmo tempo em que permite a quem carrega liberdade de movimento.
  
Nos primeiros três meses de vida do bebê, a fase da exterogestação, ter um carregador é muito útil para a puérpera. Nessa idade os bebês demandam muito colo e muitas mães não conseguem sequer comer ou usar o banheiro sem que a criança chore ao ser afastada dela. Nesses casos o carregador torna possível realizar essas atividades com a criança no colo e as mãos livres. Tarefas domésticas como lavar louça, varrer a casa ou passar as roupas do bebê também são possíveis. É muito comum recebermos queixas de bebês novinhos que fazem mamadas intermináveis – bebês são espertos, e se percebem que só tem colo e contato com a mãe quando estão sendo amamentados podem reagir a isso aumentando a demanda do seio. Carregar o bebê constantemente pode ajudar, nesses casos, pois a demanda de colo estará suprida e o bebê só irá mamar quando realmente o desejar.
Mais tarde, com bebês mais velhos, que já exploram outros espaços e não demandam mais tanto colo o pano de carregar continua sendo extremamente útil. Dá enorme liberdade para passeios, sendo muito mais prático que o carrinho no transporte público e em terrenos acidentados. É um ótimo aliado para ninar os bebês e colocá-los para dormir, especialmente na rua, quando estão fora de seu ambiente – mas se sentem em casa no colo das mães.
Para carregar recém-nascidos: o corpo do bebê deve estar apoiado completamente sobre o corpo da pessoa adulta, sem sobrecargas nas costas ou articulações. O joelhos ficam elevados, com as pernas formando um M, e a coluna fica em C, postura saudável e característica de bebês até os três meses. A ideia é que o pano proporcione estabilidade para esse apoio total corpo a corpo, como as mãos do adulto fariam naturalmente ao segurar a criança verticalizada no colo. O peso do bebê não deve recair sobre seu bumbum (numa posição “sentado”) ou sobre os tornozelos (numa posição de “sapinho” com os pés dentro do pano), mas sim sobre o corpo do adulto. A altura que o bebê fica em relação ao corpo do adulto é fundamental para garantir conforto para quem carrega – muito baixo ou muito alto, o peso do bebê forma um vetor que causa mudanças na postura do adulto, o que pode ocasionar dores na coluna. Um bebê bem posicionado não sobrecarrega a coluna de quem carrega, que consegue manter uma postura ereta e levar o peso do bebê sem, por exemplo, projetar o quadril ou abaixar os ombros. Conforme o bebê cresce e passa a sustentar melhor seu próprio peso, a posição que assume no carregador muda, naturalmente.
Há diversas formas de carregar bebês: diferentes tipos de carregadores, tecidos e acabamentos. As regras para carregar com segurança e conforto, entretanto, são as mesmas para todos os modelos.
Até os seis meses:
  • O bebê deve sempre ser carregado voltado para quem o carrega e nunca de frente para o mundo
  • O bebê deve sempre ser carregado na vertical
  • A coluna do bebê deve estar em forma de C
  • A coluna e o pescoço devem estar sustentados
  • O bumbum do bebê deve estar profundo em posição de cócoras
  • Os joelhos do bebê devem ficar acima do bumbum em forma de M
  • O assento deve fornecer apoio de joelho a joelho
  • O bebê deve ficar na “altura de beijinhos” (altura em que a pessoa que está carregando consegue beijar o topo da cabeça do bebê ao abaixar o rosto)
  • Os pés ficam para fora
Após os seis meses:
  • O bebê continua sempre de frente para quem o carrega, e na vertical
  • Conforme o bebê adquire mais controle da coluna, ele fica menos curvado
  • O pescoço não precisa ser sustentado pelo pano se o bebê estiver acordado
  • O bumbum deve ficar na mesma altura dos joelhos (posição sentado)
  • Carregadores pré-formados (mochilas e mei-tais) não precisam ir de joelho a joelho, desde que os joelhos estejam na mesma altura do bumbum – carregadores de pano devem continuar sendo usados de forma que deem apoio de joelho a joelho
  • O bebê deve ficar na altura de beijinhos, se posicionado na frente, e deve conseguir ver por cima dos ombros de quem carrega, se posicionado atrás
  • Os pés ficam para fora
Os cangurus tradicionais não são recomendados pois não são ergonômicos, isso é, não permitem que o bebê fique em posição fisiológica. Isso torna a experiência de ser carregado desconfortável para o bebê, que fica “pendurado” pela região genital, e pode protestar veementemente, além de perigosa, na medida em que a articulação coxofemoral (entre a perninha e o quadril) fica sem apoio, favorecendo a má formação do quadril, algo que pode repercutir até a vida adulta. Além disso ficar virado para o mundo é uma experiência sensorial estimulante demais para o bebê, que rapidamente se cansa e fica estressado.
Existem várias formas de carregar e o mais importante é atentar para a segurança: escolher um tecido que sustente o peso do bebê, que não seja quente demais e que deixe a pessoa que carrega confortável. É possível amarrar com xales, cangas, lençol, coberta, camiseta velha, tecido de sacaria... Desde que o bebê esteja bem ajustado e quem o carrega se sinta bem, um pedaço de pano com único nó pode ser o suficiente para levar um bebê numa amarração lateral.

Mochilas ergonômicas se parecem com os cangurus, mas conseguem manter o bebê na posição fisiológica, e são opções muito práticas para carregar. Elas não exigem amarração e são facilmente ajustáveis para diferentes bebês e corpos. Para bebês novinhos, que ainda não controlam a coluna, é preciso usar um insert, uma peça extra que torna a mochila segura para eles. 

Os panos de carregar bebê são conhecidos no Brasil genericamente como “slings” e são subdivididos nos seguintes tipos mais comuns:
  • Wrap: nada mais é do que uma faixa de tecido sem emendas, que pode ser amarrada em torno do torso para carregar o bebê. Os wraps são classificados de acordo com o material do qual são feitos e de acordo com o comprimento do pano. Existem wraps elásticos e rígidos/planos.


    • Wrap Elástico: pode ser confeccionado em malha ou dry-fit de poliéster ou poliamida. Deve ter entre 5 e 6 metros de comprimento, pois é preciso reforçar o assento com mais de uma camada de pano, e pode ter entre 60cm e 70cm de largura. É o tipo de carregador de pano mais fácil de encontrar e costuma ser o mais barato. Como são necessárias várias camadas de pano para sustentar adequadamente o bebê, costuma ser mais quente. 


    • Wrap de tecido plano/rígido: feito em tear industrial ou manual, pode ser bem curto, com pouco mais de dois metros de comprimento, ou longo, com até cinco metros, e tem 70cm de largura. Permite diversas amarrações diferentes, na frente, de lado e nas costas, com apenas uma camada de tecido, duas ou três. É o carregador mais versátil, dá conta de recém-nascidos e crianças mais velhas, aguenta bastante peso sem ceder e distribui o peso do bebê nas costas de maneira uniforme. Entretanto, é menos prático do que outras opções porque exige mais técnica para amarrar. Diversos materiais podem ser utilizados, entre eles o algodão, o linho e a seda, por exemplo. Algumas tramas são o jaquard, a sarja cruzada, a sarja diamante e sarja espinha de peixe. Os tamanhos longos (entre quatro e cinco metros, dependendo do tamanho da pessoa) possibilitam mais amarrações, mas também podem ser mais difíceis de manusear. Uma opção barata de wrap rígido é o tecido de sacaria, ou pano de prato. Ele já vem em rolos com 70cm de largura, basta comprar a metragem desejada para começar a usar. 

  • Sling de argola: é um carregador unilateral feito sempre de tecido plano – nunca de tecido elástico. Tem entre 1,80m e 2m de comprimento e 70cm de largura, e duas argolas especiais costuradas em uma das extremidades. É muito prático de tirar e colocar, pois não arrasta no chão, e pode ser usado com recém nascidos e com crianças mais velhas, que gostam de “subir e descer” do colo a toda hora. Para ser seguro deve-se atentar para as argolas apropriadas, que devem ser roliças e sem emendas, e para as bordas, que não podem ser acolchoadas para que sejam ajustáveis. Permite carregar a criança de frente para o cuidador ou de lado.


  • Mei-tai: é um carregador de pano inspirado nos carregadores tradicionais orientais, com um painel retangular onde a criança fica e quatro faixas para amarrar em volta dos ombros e do quadril. Permite levar o bebê na frente, nas costas e de lado. Existem versões “evolutivas”, nas quais é possível ajustar as medidas da base e das laterais do painel. Se for usado na frente as alças do mei-tai se cruzam nas costas, o que possibilita uma distribuição confortável do peso do bebê.

Mas... Qual é o melhor carregador de bebês??
Depende!
Depende de inúmeros fatores, mas aqui estão alguns que devem ser considerados: acessibilidade (o que eu posso adquirir nesse momento?); limitações do cuidador (carregadores e amarrações unilaterais não são recomendados para quem tem problemas de coluna); idade da criança (um recém nascido ainda precisa de apoio total da coluna até o pescoço, um bebê mais velho pode querer ver o mundo e se irritar por ficar barriga com barriga, um bebê que já anda pode querer subir e descer com frequência); preferência pessoal (há quem prefere a praticidade de uma mochila com insert, e quem adora aprender várias amarrações desafiadoras com um wrap rígido, há quem não goste de panos longos porque as pontas arrastam no chão); disponibilidade e vontade de aprender amarrações diferentes (um mei-tai, por exemplo, é mais simples de amarrar que um wrap...); condições do local onde vive e tipo de passeio que costuma fazer (wrap de malha e mochila com insert são muito quentes, e podem até superaquecer recém-nascidos no verão, enquanto mochilas e mei-tais são mais frescos), entre outras.
Quando o carregador é útil?
Bebê no colo, mãos livres, e nada de carrinho para empurrar, tudo ao mesmo tempo!! Além da liberdade de movimento que carregar no pano permite, o uso de carregadores traz outras vantagens, em diversos momentos ao longo da sua história com o bebê! Nos primeiros meses o pano recria o ambiente intrauterino (restrição de movimentos, barulho dos batimentos cardíacos, cheiro característico) e é uma ótima opção para acalmar bebês inquietos. Uma crise de choro – seja ela causada por “cólicas”, pela “hora da bruxa ou pela confusão de bicos – pode cessar muito mais rapidamente com a ajuda de um carregador e algum movimento do cuidador. Bebês com refluxo se beneficiam enormemente de serem mantidos em posição vertical. Quando a rotina é quebrada ou estamos fora de casa, tirar uma soneca amarradinho com a mamãe é uma ótima forma de isolar o bebê do excesso de estímulos do ambiente. Carregar no pano permite o colo contínuo, estreita laços entre cuidador e bebê, e facilita a amamentação. Por último, mas não menos importante: todos os cuidadores podem ser estimulados a carregar o bebê com ajuda de um carregador, não só a mãe!

sábado, 29 de outubro de 2016

Textos da campanha #mandoudesmamar

Você já escutou esse tipo de coisa? Estão te pressionando a desmamar?
Publique no seu Facebook um relato em modo público com a hashtag #mandoudesmamar.
O GVA está fazendo uma campanha para que as mães contem suas experiências: precisamos falar sobre isso!
Todos os dias ouvimos relatos de mães que receberam a sentença: tem que desmamar. Quem decidiu? Profissionais da área da saúde (médicos, enfermeiros, dentistas, ...), a escola, a babá, a avó, vizinhos... sob as mais diversas alegações e motivos, entre os mais comuns: porque a criança não se alimenta conforme as expectativas dos adultos; porque a criança chora quando a mãe se afasta; porque a criança acorda de madrugada; porque a criança tem cárie ou para evitar que tenha; porque a criança "está muito grande" pra mamar; porque a mãe está muito magra; porque a mãe quer emagrecer; porque a mãe precisa fazer tratamento médico ou odontológico.
Salvo raros casos de doenças graves que não possuem tratamento compatível, essas indicações não tem fundamento, seja quando o bebê tem 3-6-9 meses, sejam com 1-2-n anos.
Só cabe à mãe e à criança decidirem a hora do desmame.

Os links abaixo explicam porque a maioria dos motivos usados para indicações de desmame são infundados:

1) Só a mãe e a criança podem decidir a hora do desmame: 

http://grupovirtualdeamamentacao.blogspot.com.br/2014/08/para-quem-escolheu-amamentar-liberdade.html

2) Existem muitos medicamentos (e também anestesias, para o caso de cirurgia ou tratamento dentário) que são compatíveis com a amamentação (ou possuem substituto compatível). A maioria das mães não precisa desmamar para fazer tratamentos: http://grupovirtualdeamamentacao.blogspot.com.br/2015/06/estou-amamentando-posso-tomar.html

3) Leite materno nunca vira água:
http://grupovirtualdeamamentacao.blogspot.com.br/2015/07/como-o-leite-materno-vira-agua-e-vaca.html

4) Desmame não é solução para criança que não come bem e leite materno é o melhor alimento do mundo. Dr. González explica isso nesta entrevista:
http://grupovirtualdeamamentacao.blogspot.com.br/2013/09/trascricao-e-traducao-do-video-do-dr.html

5) A indicação da OMS de amamentar por 2 anos ou mais não serve só para famílias pobres:
http://grupovirtualdeamamentacao.blogspot.com.br/2014/08/amamentar-nao-e-bom-apenas-por-3-6-ou.html

6) Leite materno não causa cáries:
https://www.facebook.com/gvamamentacao/photos/a.758574380861595.1073741838.166584723393900/774642772588089/?type=1&theater

7) Amamentação não torna a criança dependente nem insegura:
http://grupovirtualdeamamentacao.blogspot.com.br/2014/08/amamentar-nao-torna-crianca-insegura.html

8) Volta ao trabalho não é motivo para desmame:
http://grupovirtualdeamamentacao.blogspot.com.br/2015/11/volta-ao-trabalho-e-ausencia-ocacional.html

9) Nova gravidez não é motivo para desmame:
http://grupovirtualdeamamentacao.blogspot.com.br/2015/07/amamentacao-durante-gravidez.html

10) Amamentar em tandem é possível e é benéfico:
https://www.facebook.com/gvamamentacao/photos/a.758574380861595.1073741838.166584723393900/769839976401702/?type=1&theater

11) Amamentação continuada não é carência materna:
https://www.facebook.com/gvamamentacao/photos/a.758574380861595.1073741838.166584723393900/778931888825844/?type=1&theater

12) A manutenção da amamentação é indicada para bebês com alergia alimentar:
http://grupovirtualdeamamentacao.blogspot.com.br/2016/10/carta-de-uma-mae-aplv-um-pediatra.html

13) Bebê desmamado não dorme melhor. Diferenças no sono do bebê que mama ou toma Leite artificial:
http://grupovirtualdeamamentacao.blogspot.com.br/2015/03/diferencas-do-sono-do-bebe-que-e.html

14) Amamentação Continuada: Os benefícios da amamentação para lactentes e crianças pequenas nutricional, imunológica e psicologicamente:
http://grupovirtualdeamamentacao.blogspot.com.br/2014/07/amamentacao-continuada-os-beneficios-da.html

sexta-feira, 28 de outubro de 2016

Carta de uma mãe APLV a um pediatra

Por Luciana Freitas

Prezado Doutor,

Sou profunda admiradora do seu trabalho, da sua história em defesa da amamentação, dos seus textos. Sou sua fã. De verdade.

No entanto, não posso esconder a profunda tristeza que sinto ao ler o que você já disse, mais de uma vez, sobre ter recomendado desmame de bebês com alergia às proteínas do leite de vaca (APLV). Me dá uma tristeza, um desânimo... Só eu sei... Eu vou te pedir uma coisa, doutor: repense. Eu sei o tamanho do meu atrevimento ao dizer isso. Já não sou profissional de saúde, sou uma mãe. Uma mãe APLV, ou melhor, ex-APLV, pois meu filho está curado há mais de um ano. Não pense que não me coloco no seu lugar, porque me coloco. Eu sou pesquisadora, embora não tenha, na minha área, o peso que você tem na pediatria. O que ocorreria se um leigo viesse me pedir para repensar algo sobre a minha especialidade? Não sei. Talvez não gostasse. Talvez repensasse. Realmente não sei.

Se o estímulo ao desmame é enorme entre crianças saudáveis, é maior ainda entre crianças APLV. Imagino que muitas tenham passado pelo seu consultório, não tenho ideia de quantas. Sei que sua experiência é enorme, mas eu gostaria de falar um pouco da minha e peço, por favor, que leia o longo texto que escreverei.

Eu tenho contato com centenas de mães com filhos APLV. Sim, centenas. Temos, há alguns anos, um grupo virtual de apoio às mães. Para ser mais exata, hoje somos 1691* mães. Muitas delas nunca nos relataram suas experiências, é verdade. Mas muitas outras, pelo menos a metade, participa ativamente do nosso grupo. Temos de tudo: mães ricas e mães pobres; mães muito bem informadas e mães pouco informadas; mães que querem amamentar e mães que não querem amamentar; mães que pagam 800 reais por uma consulta médica e mães que mal podem pagar o ônibus até o posto de saúde. Nosso objetivo? Apoio mútuo e informação.

Aprendi algumas coisas ao longo desse tempo. Muitas delas, aprendi estudando. Como tenho acesso a todos os periódicos pela minha universidade, eu leio bastante sobre APLV (e sobre amamentação também). No entanto, aprendi muito mais com as outras mães. Muito mais mesmo!

Não preciso dizer o que aprendi estudando, porque isso você já sabe. Prefiro contar o que eu aprendi com as mães, que passo a relatar abaixo:

1) Por melhor que seja o pediatra, APLV requer acompanhamento de um bom especialista. Na maioria dos casos, a melhor opção é um gastro. O problema é, infelizmente, encontrar um que entenda bem do assunto e, mais ainda, que apóie a manutenção da amamentação, se esse for o desejo da mãe. Eu, sinceramente, depois de tudo o que já vi e ouvi, só entregaria meu filho APLV aos cuidados de três médicos: César Junqueira e Sheila Pércope, ambos da UFRJ, e uma jovem médica pediatra de São Paulo, Barbara Seabra, mãe APLV, que humildemente foi buscar informação e apoio no nosso grupo quando se viu com seu próprio bebê alérgico a leite; Hoje ela entende muito do assunto, embora não seja gastro. Deve haver mais médicos que entendam da APLV e que apoiem a amamentação. Eu desejo demais que haja, mas eu não conheço. Sei de mães que cruzaram o país e uma que cruzou o Atlântico para vir se consultar com esses médicos.

2) Por melhor que seja o gastro, mesmo os que eu citei e que são da minha maior confiança, quem entende de dieta é a mãe. Deixando de lado casos de erros absurdos, como médico que manda a mãe tomar leite sem lactose ou leite de cabra (que acontecem muito mais do que deveria, veja este artigo:  http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0103-05822007000200002&lng=en&nrm=iss), o fato é que profissionais de saúde não têm como saber, excetuando-se o óbvio, o que tem e o que não tem leite, soja ou qualquer outro ingrediente. Nem eu sei mais. Meu filho está curado há mais de um ano e eu já estou desatualizada quanto a isso, porque não leio mais rótulos, não ligo mais para SACs. Já vi um caso gravíssimo de alergia, criança tratada em um dos mais importantes hospitais de São Paulo e sabe o que aconteceu? A nutricionista, com aval do pediatra, mandou colocar uma determinada marca de maltodextrina, que tem traços de leite, na fórmula de aminoácidos! A mãe confiou, não leu o rótulo e o resultado foi lamentável. Teria muitos exemplos semelhantes para dar.

3) Conheço dezenas de mães que, como eu, fizeram meses ou anos de dieta rigorosíssima. Eu fiz 15 meses de carne e 23 meses de leite (incluindo traços), cítricos e oleaginosas. Conheço várias que fizeram leite, soja e carne; outras que fizeram dietas ainda mais rigorosas, pois precisaram excluir ovo, glúten, frutas. Conheci até mesmo uma que passou meses com arroz e fórmula de aminoácidos. Sim, ela preferiu tomar a fórmula especial para poder amamentar seu filho! Eu acho que não aguentaria, mas ela aguentou. Cada um sabe seu limite, não é? Eu fiz a dieta sem dificuldade. Nunca sofri. As pessoas sofriam por mim, eu não sofria. Sei que há mães que sofrem, umas mais, outras menos. No entanto, ninguém pode decidir pela mãe se o sofrimento dela vai ser grande ou pequeno, se ela vai fazer a dieta direito ou não, se ela vai ou não vai aguentar. Isso só ELA pode saber. Eu ouvi de uma nutricionista que eu não iria aguentar e que meu leite não seria suficiente. Eu ri. Ainda bem. Porque eu poderia ter acreditado nela, mas mas eu preferi acreditar em mim! Minha vontade, quando meu filho fez dois anos sem nenhum tipo de leite exceto o meu, um touro com quase 15kg e 95 cm, embora ainda APLV, era voltar lá, para mostrar a ela a nossa “desnutrição”. Essas dezenas de mães, doutor, estão todas saudáveis. Nenhuma ficou desnutrida. Nenhuma. Nem aquelas que tinham dietas extremamente restritas. Eu me alimentava perfeitamente: no café da manhã e no lanche, pães caseiros, azeite, uma marca permitida de margarina, sucos, bolos caseiros sem leite, até pão de queijo sem queijo existe! No almoço e no jantar, arroz, feijão, aves (frango, pato, peru, avestruz), rã, coelho, ovos, todos os legumes e verduras. Isso desnutre alguém? Pois eu sequer perdi peso, e olha que ia ficar bem feliz se acontecesse! Meus exames foram excelentes durante todo o período, até melhores do que são agora, com colesterol e triglicéridos mais baixos. Algumas mães suplementam ferro e cálcio, mas eu confesso que não tive paciência para isso. E não tem tantos vegetarianos e veganos hoje em dia? Eles ficam desnutridos?

4) A dieta não é de simples manejo, mas também não é um bicho-de-sete-cabeças quando a mãe se sente apoiada e informada. Temos centenas de receitas no nosso grupo. De tudo o que você puder imaginar: bolos, brigadeiros, salgadinhos, tudo mesmo! Muitos deles sem leite, soja, ovo, carne e glúten. Eu sou um zero à esquerda na cozinha, mas botei a mão na massa, literalmente. Eu sou impaciente, mas aprendi a passar horas para fazer compras no supermercado, para ler todos os rótulos minúsculos e infames.

5) Meu filho tinha sangue nas fezes. Sangue MESMO, fralda cheia, visível. Nada de raios, não. Outra criança teve 10 meses de sangue oculto positivo. Outras mais tempo que isso. Casos graves, mas que foram acompanhados por médicos que acreditam que o poder de cura do leite materno é superior a qualquer deslize na dieta. E, obviamente, mães que desejavam amamentar e persistiam. Com dieta, com perseverança, essas crianças  foram amamentadas por logo tempo e muitas delas já se curaram. Inclusive o meu. Inclusive a que teve 10 meses de sangue oculto positivo. Inclusive muitas outras que tinham alergias gravíssimas e cujas mães fizeram dietas rigorosíssimas.

6) Bebê APLV, amamentado. Criança com reação, médico “manda” suspender aleitamento e dar extensamente hidrolisado (que sempre deve ser a 1ª opção, segundo o Consenso Brasileiro de Alergia Alimentar, documento que deveria ser lido por todos os que tratam de crianças alérgicas) ou fórmula de aminoácidos. A mãe desmama uma criança doente; ela sofre, a criança, mais ainda. A criança faz 6 meses, começa a introdução dos sólidos, mas seu organismo não mais conhece proteínas inteiras e o resultado, ao receber o sólido, podemos imaginar qual é... De fato, não é uma nenhuma evidência, mas o que observamos é isso: a criança APLV amamentada pode até demorar mais tempo a ficar assintomática, mas a médio e a longo prazo, tudo é melhor, inclusive a tolerância aos sólidos. Continuando a historinha: a criança faz 8 meses e começa a engatinhar... Um espetáculo de traços de todos os alimentos no chão. A criança coloca a mão na boca... Imagine o chão de uma festa infantil... Ah, antes mesmo de aprender a engatinhar, ainda tem a tia com aquela boca que acabou de comer pão com manteiga direto na bochecha do bebê... O pai que bebeu leite... O irmão, o vizinho... Onde há mais “contaminação” pelo alérgeno? No leite da mãe ou em tudo isso que eu disse? Olha, o que eu conheço de criança APLV desmamada e cheia de reações mesmo em exclusividade de fórmula de aminoácidos... Desmamou, privou a criança do LM e de tudo o que envolve a amamentação, mas livrou a criança dos alérgenos? E nem falei de creche e escolinha. Você acha que vão separar utensílios como fazemos em casa? Que vão impedir que uma criança roube um biscoito da outra?

7) Em teoria, a criança com APLV desmamada tem fórmula fornecida pelo poder público. Tudo parece lindo e maravilhoso. Até o dia que o leite atrasa. O leite acaba. O leite, mesmo com liminar, não sai. Não conheço uma mãe cujo filho dependa de fórmulas especiais que nunca tenha passado por isso. Aí, aquele desespero, claro. Junta daqui, pede dali, compra no mercado negro, é enganada por golpistas... Conheço lugares em que as crianças passaram meses sem receber as fórmulas.

8) Já vi criança APLV com os mais variados sintomas, respiratórios, dermatológicos, já vi casos graves de refluxo, otite crônica, esofagite eosinofílica, proctite, enterocolite, hiperplasia nodular linfóide... Algumas já desmamadas quando se juntaram a nós, outras que desmamaram depois, mas muitas que mantiveram a amamentação, felizmente. Desmamou porque a mãe não aguentou a dieta? Perfeito, cada um tem seu limite e ele deve ser respeitado. Mas desmamar porque “fórmula de aminoácidos é a solução” e o “leite materno está fazendo mal ao bebê”, isso eu não aceito e não tem respaldo em evidências científicas... A mãe que quer amamentar costuma lutar por isso, mas ouvir de um médico que é preciso desmamar consegue destruir a segurança de muitas delas. Se o médico já na consulta do diagnóstico diz: “se não melhorar com a dieta vamos entrar com fórmulas especiais” ou “se você não aguentar a dieta”, pronto! Lá se foi a determinação de muitas mães! Eu, com meu filho sangrando bastante por 3 meses nunca ouvi nada disso. Se ouvisse, não me abalaria, porque eu estava determinada. Mas muitas mães ouvem e ficam arrasadas, fracassadas e aí tudo fracassa mesmo.

9) Os casos que você cita que recomendou o desmame eu, obviamente, não conheço. Não estou de forma alguma afirmando que foi um erro e não estou te criticando, mas preciso dizer que nunca vi caso que não melhorasse com ajuste na dieta e apoio e informação à mãe. Eu não chegaria aonde cheguei sem o apoio das minhas queridas companheiras, muitas delas amigas de verdade hoje em dia. Onde eu aprenderia que existe pão de queijo sem queijo? Como eu imaginaria que tem que separar a esponja? Como eu aventaria a hipótese de que há produtos de higiene infantis com proteínas do leite? Xampu, lenços umedecidos, sabonete, creme... Isso tudo e muitos, muitos outros detalhes.

10) Eu poderia escrever não apenas uma mensagem longuíssima como esta, mas talvez um livro com tantas histórias sobre APLV, mas não dá. Deixo, então, uma foto de mães e seus bebês APLVs amamentados. Todos mamaram por mais de um ano, exceto dois que ainda têm menos de 3 meses. Quase todas amamentaram por mais de 2 anos. Uma delas faz dieta de leite, soja e glúten há mais de 2 anos, pois suas gêmeas têm APLV. Eu também estou na montagem, no aniversário de 2 anos do meu filho, eu completando 22 meses sem leite. Ambos em dieta e felizes.



Com carinho e admiração,

Luciana Freitas



*Atualização: em 28/10/2016 o grupo atingiu 15.250 participantes. 

Carta publicada originalmente dia 12/06/2011 em https://www.facebook.com/notes/meu-filho-%C3%A9-al%C3%A9rgico-a-leite/carta-de-uma-m%C3%A3e-aplv-a-um-pediatra/130125460401323

Amamentar um bebê com alergia alimentar não é contra-indicado. Amamentar é... O caminho para a cura!


O leite materno é sempre o melhor alimento. Nos casos que se apresenta qualquer alergia alimentar a primeira conduta deve ser a restrição alimentar da mãe e a procura do profissional idôneo para avaliar o problema (gastropediatra ou alergista). 

O diagnóstico de APLV (Alergia às proteínas do leite de vaca) ou qualquer outra alergia alimentar em bebês depende basicamente do teste clínico, a observação da reação e melhora com a evolução da dieta restritiva na mãe que amamenta. 
Em nenhum caso o desmame é recomendado, mas sim deve de se orientar a mãe a realizar a deita de forma correta, controlando os traços, lendo rótulos dos alimentos e tendo plena consciência do que come. 
O bebê com alergia alimentar que é amamentado tem melhores chances de cura, com menores chances de reações adversas durante introdução alimentar e uma qualidade de vida muito melhor para mãe e bebê. 

A mãe que precisa fazer a dieta restritiva de leite de vaca, soja, ovos, oleaginosas e/ou glúten não precisa encarar isto como uma tragédia na sua vida. É um investimento na saúde e qualidade de vida do seu filho, e uma oportunidade de reavaliar a alimentação familiar para torna-a mais saudável. 

Recomendamos: 

Carta de uma mãe APLV a um pediatra
http://grupovirtualdeamamentacao.blogspot.com.br/2016/10/carta-de-uma-mae-aplv-um-pediatra.html

Intolerância x galactossemia x alergia a leite de vaca
https://www.facebook.com/notes/meu-filho-é-alérgico-a-leite/intolerância-x-galactossemia-x-alergia-a-leite-de-vaca/117234975023705

Orientações sobra a dieta de LV
https://www.facebook.com/notes/meu-filho-é-alérgico-a-leite/orientações-sobra-a-dieta-de-lv/116963151717554

Mas afinal, o que são “traços de leite”?
https://www.facebook.com/notes/meu-filho-é-alérgico-a-leite/mas-afinal-o-que-são-traços-de-leite/118606494886553

Alergia a LV e problemas respiratórios
https://www.facebook.com/notes/meu-filho-é-alérgico-a-leite/alergia-a-lv-e-problemas-respiratórios/118122651601604

O papel dos exames para o diagnóstico da alergia alimentar
https://www.facebook.com/notes/meu-filho-é-alérgico-a-leite/o-papel-dos-exames-para-o-diagnóstico-da-alergia-alimentar/120334648047071

Texto por Zioneth Garcia

segunda-feira, 10 de outubro de 2016

A alimentação da mãe pode causar cólicas e gases no bebê?

Por Maria Birman Cavalcanti
Revisão: Luciana Freitas



 O leite materno é composto principalmente de água, carboidratos, lipídios e proteínas, além de vitaminas, minerais e componentes imunológicos. No seio há células que literalmente produzem os componentes do leite sob demanda (estímulo), mas a água do leite vem do sangue da mãe. O sangue é "filtrado", e apenas a parte líquida (o plasma) chega nos alvéolos das glândulas lactíferas, para diluir os componentes nutritivos produzidos pelo corpo materno. Esses componentes nutritivos seguem uma "receita" específica, que praticamente não se altera. Por isso o leite materno sempre tem qualidade e composição adequadas para o bebê, independente da dieta da mãe. Entretanto, junto com o plasma, chega ao leite uma amostragem bem pequena das coisas que a mãe consumiu e absorveu. 

Uma porcentagem microscópica de todas as proteínas que chegam na nossa corrente sanguínea pode chegar ao leite materno. As proteínas são variadas e sua concentração é muito baixa, e isso é benéfico, pois estimula o sistema imunológico do bebê. Não há quantidade suficiente para provocar uma reação intestinal, como gases, dores ou "cólica", a não ser que o bebê já tenha sensibilidade para alguma proteína específica (como no caso da APLV). A dieta da mãe não interfere no funcionamento das células da glândula lactífera, portanto, a "receita" do leite materno nunca muda: ele é sempre forte, perfeito e sustenta! A dieta para APLV não muda a composição do leite materno, só tira a proteína do leite de vaca circulante no sangue da mãe, pois ela deixa de consumir leite de vaca, derivados e traços.
 

E os alimentos que causam gases na mãe, por exemplo, feijão - o pouco que passa para o leite pode afetar o bebê? Alimentos que causam gases não têm esse efeito devido às suas proteínas, mas sim devido a carboidratos específicos - e esses são totalmente degradados, absorvidos ou excretados nos intestinos. Eles não chegam à corrente sanguínea, por isso não passam pelo leite materno e não causam gases no bebê.

 

Referências:
 

GONZÁLEZ, Carlos. Manual Prático de Aleitamento Materno. São Paulo: Editora Timo, 2014,p.46 e 47. 

Ballard O1, Morrow AL. Pediatrics Clinics of North America 2013 Feb;60(1):49-74.Human milk composition: nutrients and bioactive factors.
(Disponível em: https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pmc/articles/PMC3586783/).



Leituras recomendadas:

A cólica - pelo pediatra Dr. González
http://grupovirtualdeamamentacao.blogspot.com.br/2014/06/a-colica-por-dr-gonzalez.html 


Os gases, por Carlos González
http://grupovirtualdeamamentacao.blogspot.com.br/2015/06/os-gases-carlos-gonzalez.html 

segunda-feira, 18 de julho de 2016

Tempo de Armazenamento de Leite Materno


Traduzido e adaptado por Marla Stern
Revisão: Sarita Oliveira e Daniela Guerreiro Do Valle



PORQUE HÁ DIFERENTES ORIENTAÇÕES SOBRE ARMAZENAMENTO DE LEITE MATERNO ORDENHADO?

Ler diferentes orientações para armazenamento de leite materno em fontes diferentes pode te deixar confusa! Quais orientações estão corretas? Por que os especialistas não entram em consenso? O que você realmente precisa saber?
A boa notícia é que há explicações lógicas para estas diferenças. E uma vez que você as conheça, você pode armazenar e usar seu leite com confiança.

Ideal Versus Seguro
Nas orientações dadas no final deste texto, alguns prazos de armazenamento para o leite refrigerado e para o congelado são classificados como “Seguro” enquanto outros são classificados como “Ideal”. Dentro dos prazos “Seguro” o leite ordenhado não irá estragar. Entre “Ideal” e “Seguro” o leite ainda estará bom, mas algumas vitaminas, antioxidantes, e outros nutrientes são perdidos. Algumas organizações de saúde, como a Academia de Medicina de Amamentação, recomendam o menor tempo de armazenamento como “Ideal” porque eles preferem que o leite seja consumido antes que estas perdas aconteçam.
É sempre melhor usar seu leite o quanto antes do que mais tarde, porém seu leite não deverá estragar dentro dos períodos de tempo “Seguro”. Leite materno encontrado no fundo da geladeira depois de 8 dias ainda vai ser muito melhor para o seu bebê que fórmula.

Qual é a sua temperatura ambiente?
Algumas orientações de armazenamento de LM também variam porque elas levam em consideração diferentes definições de temperatura ambiente. Se você vive em um clima tropical ou subtropical, a maior temperatura ambiente das orientações abaixo deve condizer melhor com a sua realidade. Nas zonas temperadas, a menor temperatura, provavelmente, se encaixe melhor, pelo menos durante as estações mais frias.

Congelado previamente ou não?
O período de armazenamento para o para o LM descongelado é menor que o período de armazenamento do LM fresco ou refrigerado que nunca foi congelado. O congelamento mata anticorpos, que protegem o leite de estragar. Quando as células vivas do leite estão mortas, ele estraga mais facilmente. Quando tiver dúvida, cheire ou prove. Leite estragado tem cheiro de estragado.
 

A sua situação particular faz diferença

Se você ainda está com dúvida sobre quais orientações seguir e como melhor armazenar seu leite, se faça as seguintes perguntas:
 

- Seu bebê é saudável?  Estas orientações são para bebês a termo, saudáveis em casa (não hospitalizado).
- Se o seu bebê está hospitalizado, as orientações para armazenamento de LM do seu
hospital provavelmente são diferentes destas. Bebês pré termo e doentes são mais vulneráveis a doenças, então as recomendações para ordenha e armazenamento podem ser mais rigorosas.
 

- Quanto LM ordenhado o seu bebê toma? Se o seu bebê toma a maior parte do LM direto dos seus seios, você não precisa se preocupar se a pequena quantidade de leite ordenhado que ele toma está fresco, refrigerado, ou congelado previamente. Se uma grande parte do LM que o seu bebê toma é leite ordenhado, pese suas opções com mais cautela. O congelamento mata anticorpos, então ao invés de congelar todo o seu leite ordenhado, ofereça a maior quantidade de leite fresco ou refrigerado que você puder. Mas mesmo sem os anticorpos, leite congelado é ainda uma escolha muito mais saudável que fórmula.

Tempo de armazenamento de LM para bebês a termo em casa (não hospitalizados): 

 
Temperatura ambiente (19°C-22°C)
• Fresco, nunca congelado: 6-10 horas.
• Congelado e descongelado: 4 horas.
• Congelado então descongelado, aquecido mas não oferecido ao bebê: usar imediatamente.
• Congelado então descongelado, aquecido e oferecido ao bebê: até que se termine de
oferecer ao bebê (descartar o que sobrar).

Temperatura ambiente (23°C–25°C)
• Fresco, nunca congelado: 4 horas.
• Congelado e descongelado: 4 horas.
• Congelado então descongelado, aquecido mas não oferecido ao bebê: usar imediatamente.

• Congelado então descongelado, aquecido e oferecido ao bebê: até que se termine de
oferecer ao bebê (descartar o que sobrar).

Térmica com gelox
• Fresco, nunca congelado: 24 horas.
• Congelado e descongelado: não armazenar dessa forma.
• Congelado então descongelado, aquecido mas não oferecido ao bebê: não armazenar dessa forma.
• Congelado então descongelado, aquecido e oferecido ao bebê: não armazenar dessa forma.

Geladeira (4°C)
• Fresco, nunca congelado: ideal: até 72 horas, seguro: até 8 dias.
• Congelado e descongelado: 24 horas.
• Congelado então descongelado, aquecido mas não oferecido ao bebê: 4 horas.

• Congelado então descongelado, aquecido e oferecido ao bebê: descartar.

Freezer de geladeira (variável -18°C)
• Fresco, nunca congelado anteriormente: 3 a 4 meses.

• Congelado e descongelado: não armazenar dessa forma (não congelar novamente).
• Congelado então descongelado, aquecido, mas não oferecido ao bebê:
não armazenar dessa forma (não congelar novamente).
• Congelado então descongelado, aquecido e oferecido ao bebê: descartar.

Freezer separado fundo (-18°C)
• Fresco, nunca congelado: ideal: até 6 meses, seguro: até 12 meses.
• Congelado e descongelado:
não armazenar dessa forma (não congelar novamente).
• Congelado então descongelado, aquecido, mas não oferecido ao bebê: não armazenar dessa forma (não congelar novamente).
• Congelado então descongelado, aquecido e oferecido ao bebê: descartar.

Referências
Jones, F. Best Practices for Expressing, Storing and Handling Human Milk, 3rd edition.
Raleigh, NC: Human Milk Banking Association of North America, 2011.
Mohrbacher, N. Breastfeeding Answers Made Simple. Amarillo, TX: Hale Publishing, 2010.


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