Mostrando postagens com marcador desmame precoce. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador desmame precoce. Mostrar todas as postagens

sexta-feira, 27 de março de 2015

Alternativas à mamadeira


Muitas mães pensam que na volta ao trabalho, ao deixar o bebê aos cuidados de terceiros ou na introdução de outros líquidos (leite artificial, água, sucos, etc), a mamadeira é a única opção, mas ela está longe de ser a única e é, de longe, a PIOR opção para a manutenção do aleitamento materno e para a formação da musculatura orofacial do bebê.
A mamadeira causa confusão de bicos, pois o movimento que o bebê faz na mamadeira é diferente do que o bebê faz no peito. Por consequência, o bebê desaprende a mamar, prejudicando a produção de leite e podendo passar a rejeitar o peito.
 

Existem algumas opções seguras para se oferecer o LM ou outros líquidos, sendo a mais barata e acessível, o copinho de cachaça. Adotar estas alternativas parece algo desafiador, afinal, a cultura do desmame está arraigada no senso comum, depois de décadas de um exaustivo trabalho de marketing promovido pela indústria de leites artificiais. Na prática, sabe-se que oferecer líquidos para o bebê que não no peito demanda um pouco de treinamento da dupla cuidador-bebê e muitas vezes é mais desafiador para o cuidador do que para o bebê.

O movimento de sorver o leite com a língua é inato e é o mesmo utilizado para ordenhar o peito, portanto, se o líquido for oferecido da forma correta, em pequenos goles despejados na boca do bebê ou apenas encostado na língua, o processo se desenrola de forma relativamente simples e, com a prática, tudo passa a ser tão natural que é como se os bebês tivessem nascido sabendo! Ao sorver os leite desta forma, o bebê exercita a musculatura que utilizará para a mastigação, gozando de um melhor desenvolvimento orofacial, que traz benefícios à fala, nutrição e respiração.
 

O risco de engasgo ao se oferecer líquidos fora da mamadeira também é menor, já que o bebê passa a ter maior controle da quantidade ingerida e permanece com a boca desobstruída para eventualmente colocar pra fora alguma quantidade a mais que tenha caído na boca.
Voltar ao trabalho e manter o aleitamento é possível e é a opção mais barata para a família e saudável para o bebê, que pode receber um alimento de menor custo e melhor qualidade na ausência da mãe. Para isto, sugerimos que a mãe comece a se organizar com antecedência, fazendo o seu estoque de LM (leite materno) e adaptando o bebê ao novo cuidador e a receber o leite em uma das alternativas a seguir.




Copo ou xícara de vidro



São a primeira opção porque nelas o bebê não vai sugar, mas sim sorver o líquido usando a língua como fazem os gatinhos. Aos poucos, o bebê também vai aprendendo a manusear o copo da forma como fazem os adultos, ou seja, dando goles maiores com ajuda dos lábios, empurrando o líquido para a garganta com ajuda da língua.
Devem ser preferencialmente, mas não necessariamente, transparentes. A transparência serve para que o cuidador possa observar se o bebê está posicionando corretamente a língua e se o lábio inferior fica virado para fora, e quanto de líquido há dentro do recipiente.
Podem ser pequenos, como copos de cachaça ou xícara de café, ou maiores, como copos de requeijão ou xícaras de chá. Por serem de fácil acesso (praticamente todas as pessoas já os tem em casa), o cuidador pode testar os diferentes modelos para descobrir ao que melhor se adaptam.
São preferíveis os de vidro ou louça por serem mais fáceis de higienizar e esterilizar.


Copos diferenciados sem bico


São os copos chamados 360º, possuem uma válvula de silicone em que o bebê pressiona a tampa com o lábio superior e o líquido sai sem necessidade de sugar. Estes são menos acessíveis, mas são boas opções por não se proporem a imitar o bico do peito, ao mesmo tempo, não envolvem movimento de sucção.
A limpeza deste tipo deve ser feita cuidadosamente, algumas marcas possuem peças difíceis de higienizar.
Existem também copos de treinamento no estilo do 360, porém sem válvula (ver imagem). Nestes, há uma tampa abaixo de onde o bebê coloca a boca, que serve somente para controlar o volume liberado. O uso é similar ao uso do copo comum, apenas o volume de líquido liberado é menor. Esta tampa intermediária pode ser retirada. Os copos térmicos para café são alternativas similares, conforme imagem.


Colher comum ou colher-dosadora 


Também não precisam envolver sucção do bebê durante o uso.
A colher dosadora tem a vantagem de já armazenar dentro de seu corpo o leite que será oferecido, enquanto a colher comum precisará ser continuamente enchida, conforme o bebê terminar cada dose, até conseguir tomar o total de leite separado para aquele horário de alimentação.
A colher comum é de fácil acesso, por ser encontrada em praticamente todas as casas, o cuidador pode também testar os diferentes modelos e formas de oferecer, sem risco de desperdiçar muito leite.


Copo de treinamento com bico duro, sem a válvula 


Esta é uma das opções menos segura, deve ser utilizada somente para treinamento e nunca deve ser utilizada pelo bebê sozinho.
Nele, apesar do bebê iniciar o processo apenas engolindo o leite derramado na sua boquinha pelo cuidador, aos poucos percebe que pode sugar para aumentar o fluxo ou mesmo morder o bico. O uso diário, constante e por tempo prolongado pode acabar acarretando em problemas na formação da arcada dentária e fazendo com que o bebê repita estes movimentos no seio, prejudicando a pega, causando dor durante a amamentação ou aumentando a quantidade e força das mordidas no seio. Ainda, pode deixar o bebê eventualmente irritado ao seio pela demora em descer o leite.
Assim, recomenda-se que esta opção seja utilizada como alternativa somente enquanto o bebê aprende a utilizar outras formas mais seguras e deve ser sempre manuseado pelo cuidador, que deve derramar pequenos goles na boca do bebê, evitando que ele sugue ou morda o bico.
Se o copo possuir válvula anti-vazamento, ela deve ser retirada, para que não haja confusão entre a forma de sugar o peito e a forma de sugar o copo (com a válvula o bebê acabaria precisando sugar com força para o leite sair).
Recomenda-se, também, que o vácuo seja diminuído para desestimular que o bebê sugue - sem vácuo, o líquido sai mais facilmente sem necessidade de sucção e a sucção torna-se ineficaz. Alguns copos já possuem este vácuo reduzido, mas isto pode ser feito furando a tampa no lado oposto ao bico, com algum objeto metálico pontudo aquecido (como um clipe de papel).


Seringa ou conta-gotas 


Também não são opções totalmente seguras, por isto, recomenda-se que sejam utilizadas em situações emergenciais e por curtos períodos, somente enquanto se treina para que o líquido seja oferecido em uma outra alternativa.
A seringa ou o conta-gotas devem ser colocados no canto da boca, apontando para a bochecha. O posicionamento desta forma é importante para que o bebê não sugue o líquido, por isso, nuca devem ser colocados entre os lábios ou no meio da boca. O cuidador deve apertar levemente o êmbolo da seringa ou liberar o líquido do conta-gotas aos poucos, aguardando o bebê engolir antes de depositar uma nova quantidade na boca.
Não se deve oferecer o leite (materno ou artificial) na seringa ou conta gotas em associação com o ato de sugar o peito ou até mesmo o dedo. A associação entre a sucção e o fluxo da seringa/conta-gotas pode fazer o bebê começar a rejeitar o peito, por estranhar o fluxo inconstante e mais lento.
No geral, tanto a seringa quanto o conta-gotas são descartáveis, mas existem modelos que podem ser reutilizados. Neste caso, siga as orientações do fabricante para fazer a higienização. 


Obs.: os preços foram consultados pela internet em sites de venda online. Procuramos pelos modelos mais simples, então os valores podem ser diferentes se a opção escolhida tiver mais detalhes, desenhos de personagens infantis etc. e também levando em conta a variação de preços de acordo com a região do país.

domingo, 8 de fevereiro de 2015

Como estimular o bebê a aprender (ou reaprender) a mamar

Por Zioneth Garcia, Fernanda Rezende Silva, Marcos Mendes e Ana Beatriz Herreros

Existem várias situações nas quais um bebê pode precisar de ajuda para aprender (ou reaprender) a mamar no peito: logo que nasce, quando passa por períodos longos de internação sem a possibilidade de mamar e quando passa por confusão de bicos - para todas essas situações as técnicas descritas neste texto serão úteis.
É estranho pensar que um bebê que acabou de nascer possa precisar de ajuda para mamar, pois este ato deveria ser instintivo. Sim, mamar é instintivo, o bebê precisa mamar para sobreviver, mas mamar e estimular corretamente o seio é uma aprendizagem e esta pode levar mais tempo em alguns casos. Na prática isso não deveria ser um problema - é normal a dupla mãe/bebê demorar um pouco a se acertar - mas nós sabemos que existe uma expectativa muito grande para que este bebê ganhe peso logo, então, para tentar evitar a indicação precoce de LA, é uma boa ideia dar uma ajudinha para que o bebê fique logo craque na arte de mamar.
Algumas interferências sofridas no nascimento, que levam à separação do bebê de sua mãe, podem atrapalhar o instinto de sucção do recém nascido, por exemplo: prematuridade (mesmo tardia), hipoglicemia, desconforto respiratório, falta de preparo da equipe médica (que acaba separando mãe e filho sem necessidade). É importante ressaltar que mesmo em casos de cesárea, se o bebê se encontra saudável, o alojamento conjunto desde o momento do nascimento é um direito da dupla protegido por lei. O bebê pode e deve ser colocado no colo da mãe para ter seu primeiro contato físico e tentar mamar, ativando assim seus instintos de sucção inatos.
E porque falamos em reaprender a mamar? Porque as dificuldades enfrentadas desde o nascimento têm provocado desmames cada vez mais precoces, porém queremos que as mães saibam que é possível reverter o quadro na maioria das vezes. Muitos bebês passam por confusão de bicos o que os leva a desaprender a mamar no peito - eles se acostumam com o tipo de sucção da chupeta e/ou da mamadeira (e com o fluxo contínuo da mamadeira, que não é o mesmo do peito) e por isso têm dificuldade para mamar no seio - tentam fazer no peito o mesmo tipo de sucção da mamadeira/chupeta, mas a sucção/ordenha do peito é completamente diferente da sucção dos bicos artificiais (no peito o bebê ordenha o leite antes de mamar), por isso bebês em confusão de bicos estão desaprendendo a mamar: são incapazes de obter do seio da mãe o alimento e o conforto emocional que ele deve oferecer.
O que pode ser feito então quando um bebê precisa de ajuda para mamar? O primeiro passo é, sem dúvida eliminar os bicos artificiais. Não adianta nada tentar ensinar um bebê a mamar se ele continua usando chupeta e/ou mamadeira - isso só trará mais sofrimento para mãe e bebê. Se o bebê toma LA (leite artificial) este deve continuar a ser oferecido até sua mãe garantir a sucção eficiente do seio (que estimula a volta da produção de leite materno na quantidade que o bebê precisa), porém esse LA deve ser oferecido de outra forma (copinho, por exemplo).
O segundo passo é estimular o bebê a procurar o seio. A mãe pode ficar sem sutiã e sem blusa, deitada na cama, de forma confortável (por exemplo, apoiada em travesseiros) com o bebê deitado de bruços (só de fralda) sobre seu peito, perto do seu coração, acariciando-lhe as costas e conversando com ele, de forma que ele fique tranquilo, relaxado - assim ele terá estímulo para procurar o seio. Outra ideia é a mãe ficar sem blusa e sem sutiã e colocar o bebê só de fralda em um sling - ele ficará coladinho no corpo da mãe, sentindo seu cheiro - isso ajudará a estimular a vontade de mamar, e o livre acesso ao peito facilitará as tentativas do bebê. O contato pele a pele sempre acalma, fazendo disso uma rotina o bebê passará a associar o seio a essa sensação de calma e segurança.
Especialmente para casos de confusão de bicos, costuma funcionar: amamentar o bebê quando ele estiver sonolento, tomar banho de chuveiro com o bebê (e tentar amamentar o bebê no banho).
As dicas acima ajudam, mas sempre é melhor (e muito mais fácil) prevenir do que remediar: não tenha bicos artificiais em casa, não use nunca - esta atitude pode parecer difícil mas com certeza evitará problemas futuros.

domingo, 3 de agosto de 2014

Mil dias que valem uma vida (Fapesp)

Introdução de outros alimentos durante a amamentação altera o paladar e aumenta o risco de obesidade
Ricardo Zorzetto
Edição Impressa 179 - Janeiro 2011

Os pais têm uma oportunidade rara de influenciar o desenvolvimento dos filhos e de ajudá-los a se tornarem adultos mais saudáveis. Mas é preciso estar atento e agir rápido. Essa chance surge cedo e dura pouco. Começa na concepção e segue por apenas mil dias – os 270 da gestação mais os 730 dos dois primeiros anos de vida. Em princípio, a possibilidade de fazer uma criança que nasce com boa saúde crescer desse modo e assim permanecer por décadas exige a adoção de medidas aparentemente simples: oferecer proteção e aconchego ao bebê e alimentá-lo adequadamente. A alimentação apropriada inclui uma dieta equilibrada da mãe na gravidez, o aleitamento materno exclusivo nos seis primeiros meses de vida e, a partir daí, a amamentação acompanhada de água, sucos, chás, papinhas e alimentos sólidos ricos em proteínas, vitaminas e sais minerais, como recomenda a Organização Mundial da Saúde (OMS).

A receita não é nova, mas pode evitar problemas graves de saúde mais tarde. Experimentos com roedores indicam que a substituição do leite materno por outros alimentos – outros tipos de leite, inclusive – nessa fase do desenvolvimento altera o paladar e instala no organismo um desequilíbrio hormonal que pode durar a vida toda e favorecer o ganho de peso. Já a nutrição correta reduz o risco de desenvolver na idade adulta obesidade e doenças cardiovasculares, atestam estudos populacionais conduzidos em cinco países em desenvolvimento (Brasil, África do Sul, Guatemala, Filipinas e Índia). Ainda segundo esses trabalhos, o aleitamento exclusivo favorece o desempenho intelectual.
Por algumas décadas equipes desses países, entre elas a do epidemiologista brasileiro César Victora, avaliaram regularmente o crescimento de 10.912 crianças. Aquelas que começaram a receber outros alimentos antes dos 6 meses de idade – o que ocorreu antes do terceiro mês com 69% dos bebês da amostra brasileira – acumularam mais gordura corporal ao longo da vida. E quanto mais cedo consumiam papinhas, sucos e outros tipos de leite mais gordura concentravam, o que eleva o risco de problemas no coração e de acidente vascular cerebral, responsáveis por 30% das mortes no mundo, relataram os pesquisadores em setembro no International Journal of Epidemiology. “O que mais influenciou o acúmulo de gordura não foi a duração do aleitamento, mas a precocidade da introdução de outros alimentos na dieta da criança”, afirma Victora, professor da Universidade Federal de Pelotas, no Rio Grande do Sul, e da Universidade Johns Hopkins, nos Estados Unidos.

Há quase 30 anos Victora, Fernando Barros e uma equipe de epidemiologistas acompanham periodicamente a saúde de todas as crianças nascidas em 1982, 1993 e 2004 em Pelotas, município de 330 mil habitantes no extremo sul do país. Esse seguimento de longo prazo, conhecido como coorte, levou Victora e colaboradores de outros países a rever anos atrás o padrão adequado de desenvolvimento até os 5 anos de idade e a propor uma nova curva de crescimento, reconhecida pela OMS em 2006 e adotada por pediatras de mais de 100 países.
As coortes feitas em Pelotas e em outras regiões do mundo mostraram que as crianças que só recebiam leite materno até o sexto mês de vida cresciam em ritmo diferente das que tomavam mamadeira. Bebês que só mamaram ao peito ganharam peso e ficaram mais altos mais rapidamente nos quatro primeiros meses de vida. Depois se desenvolveram mais devagar. “São crianças saudáveis, mas mais magras”, afirma Victora. Já as que receberam leite em pó e outras formulações que tentam imitar o leite humano engordaram mais rapidamente a partir do segundo semestre após o nascimento.

Uma possível explicação para o crescimento acelerado tardio é o consumo de mais calorias que o recomendado. Marina Rea, do Instituto de Saúde (IS) de São Paulo, e Ana Maria Corrêa, da Universidade Estadual de Campinas, verificaram anos atrás que as crianças que recebiam mamadeiras e outros alimentos nos primeiros meses de vida consumiam até 50% mais calorias que o ideal (ver Pesquisa FAPESP nº 123).

“Nunca é demais repetir: o leite materno é o único alimento de que a criança precisa nos primeiros seis meses”, diz Victora. Mais rico em açúcares e gorduras do que o leite de vaca, o leite humano contém ainda níveis adequados de proteínas e outros nutrientes para o bebê, além de mais de uma centena de compostos imunologicamente ativos.

Mesmo assim, não é fácil seguir a indicação da OMS. A participação maior das mulheres no mercado de trabalho, aliada à desinformação sobre como e por quanto tempo amamentar, contribui para que a dieta das crianças mude antes da hora. “Além disso”, conta Victora, “muitos médicos não respeitam a orientação da OMS e introduzem cedo na dieta alimentos desnecessários nessa fase da vida”.
O resultado é que a proporção de mulheres que amamentam exclusivamente ao peito por seis meses no Brasil é baixa, comparada à de outros países. Mas mais alta que a de 10 anos atrás. Hoje 51% das mães alimentam os filhos exclusivamente ao peito nos quatro primeiros meses de vida – eram 36% em 1999 – e 41% amamentam até o sexto mês, segundo levantamento do Ministério da Saúde coordenado pela pediatra Sonia Venancio, do IS. Ainda aquém do desejável, esse índice melhorou muito. Em 1974 metade das crianças recebia só leite materno por 2,5 meses. Esse tempo passou para 14 meses em 2006.

Sonia avaliou dados de 2008 de 34,4 mil crianças de todas as capitais e do Distrito Federal e notou que, apesar da melhora recente, a evolução é lenta. No primeiro mês após o parto 18% dos bebês já tomavam outros líquidos e aos dois meses metade não mamava só ao peito. “Há muito a fazer”, comenta Sonia, que publicou os dados em meados do ano no Jornal de Pediatria.
Os benefícios da alimentação adequada no início da vida não são apenas físicos. Em outro estudo, publicado em fevereiro no Journal of Nutrition, Victora e colaboradores analisaram o desempenho escolar de 7.945 crianças da Índia, da Guatemala, das Filipinas, do Brasil e da África do Sul. As que apresentaram crescimento saudável na gestação, indicador de dieta materna adequada, e nasceram com peso superior ao da média tiveram mais chance de sucesso. Cada 500 gramas a mais de peso ao nascer representaram 2,5 meses a mais de escolaridade na vida adulta e risco 8% menor de repetir uma série. Mesmo as crianças que no parto tinham menos de 2,5 quilos, peso inferior ao desejável, conseguiram bom desenvolvimento intelectual quando, com dieta adequada, alcançaram o ritmo normal de crescimento e recuperaram o peso ideal para a idade até o segundo ano de vida. Nesse período, elas ganharam em média 9 quilos, e cada 700 gramas que cresceram além da média significaram cinco meses a mais de escolaridade.

“Nos dois primeiros anos a criança ainda tem oportunidade de crescer acima da média e se tornar um adulto saudável se, além da amamentação adequada, receber imunização e boa assistência à saúde”, diz o epidemiologista. Nessa fase crucial do desenvolvimento, que Victora chama de “mil dias de oportunidade”, os órgãos ainda se encontram em formação: os ossos estão se alongando, os músculos se fortalecendo e o cérebro ganhando volume (atinge 70% do tamanho final no segundo ano). “A partir do terceiro ano, o crescimento acelerado acarreta o acúmulo de gordura”, explica.
As mudanças que os epidemiologistas observam usando balanças e fitas métricas começam a ganhar uma explicação fisiológica. Experimentos com roedores vêm ajudando a descortinar os mecanismos bioquímicos pelos quais a introdução de outros alimentos no período de amamentação exclusiva leva ao acúmulo de gordura.

Um deles é a mudança no paladar. Em pesquisa orientada por Raul Manhães de Castro e Sandra Lopes de Souza, da Universidade Federal de Pernambuco, a nutricionista Lisiane dos Santos Oliveira interrompeu a amamentação de um grupo de ratos separando-os da mãe no 15o dia após o nascimento, o equivalente a três meses de vida de um bebê humano, e os deixou comer ração à vontade. Periodicamente, os animais foram pesados e o consumo alimentar foi medido, mas não houve diferença de peso nem de ingestão entre os desmamados cedo e os que receberam leite até o 30o dia de vida.

O contraste só apareceu em um teste de preferência alimentar. Assim que os animais atingiram a idade adulta, os pesquisadores deixaram, simultaneamente, duas dietas distintas à disposição dos ratos por alguns dias: a ração padrão do biotério e outra mais palatável (à base de chocolate e avelã), mais calórica e rica em gorduras. Os dois grupos preferiram a dieta mais saborosa à ração comum. Mas os ratos que pararam de mamar antes comeram bem mais, relatam os pesquisadores em artigo a ser publicado na Behavioural Processes. “Embora não houvesse mudança no peso nem no padrão diário de alimentação dos animais, a preferência por uma dieta mais calórica se manifestou assim que esse tipo de alimento se tornou disponível”, comenta Lisiane. “No longo prazo a preferência por alimentos com alta densidade calórica pode levar a distúrbios metabólicos”, diz a nutricionista.
Outro teste feito pelo grupo de Pernambuco mostrou que os ratos desmamados aos 15 dias, quando adultos, demoravam o dobro do tempo para se saciar. Após breve jejum, eles comiam continuamente por 42 minutos, enquanto os animais que receberam leite materno até o 30o dia davam-se por satisfeitos em 23 minutos. Segundo o trabalho, que será veiculado pela mesma revista, os roedores desmamados cedo apresentaram ainda alterações no padrão diário (circadiano) de consumo de alimentos: comiam mais em momentos do dia ou da noite diferentes daqueles em que os ratos amamentados por mais tempo se nutriam, embora o total fosse semelhante.

Por trás das alterações de com­portamento há mudanças hormonais e metabólicas. Em trabalhos apresentados nos últimos anos no Journal of Endocrinology e no Journal of Physiology, a equipe do endocrinologista Egberto Gaspar de Moura, da Universidade do Estado do Rio de Janeiro, mostrou que o desmame precoce al­tera a composição corporal e reduz a sensibilidade ao hormônio leptina, que induz à saciedade e à puberdade (leia texto na página 3).

Adotando um modelo experimental diferente do anterior, o grupo do Rio provocou o desmame antecipado aplicando na rata um composto que impede a produção de prolactina, hormônio que induz a secreção do leite, em vez de tirar os filhotes de perto da mãe. Os animais que desmamaram mais cedo chegaram à idade adulta com peso 10% maior, 40% mais gordura total e até 300% mais gordura visceral (que se forma no interior dos órgãos e é mais nociva). Confirmando o efeito deletério da obesidade visceral, os roedores desmamados antes do tempo tinham níveis sanguíneos mais altos de glicose, colesterol e triglicerídeos e taxas menores de HDL, proteína que retira o colesterol do sangue e evita a formação de placas de gordura nos vasos. Reunidas, essas alterações configuram o que os médicos chamam de síndrome metabólica, condição que potencializa o risco de desenvolver diabetes e problemas cardiovasculares.
Os animais que mamaram menos, quando adultos, também apresentavam níveis sanguíneos de leptina três vezes superior ao normal, observou a equipe do Rio. Apesar da quantidade brutal desse hormônio, que é produzido pelas células de gordura e indica ao corpo a hora de parar de comer, a leptina não produzia efeito nesses animais. Após jejum de 12 horas, os pesquisadores deram leptina a dois grupos de ratos: um amamentado pelo tempo habitual e outro cujo aleitamento fora interrompido. Os roedores do primeiro grupo, como esperado, comeram menos, mas os do segundo seguiram se alimentando – sinal de que não respondiam ao hormônio.

Moura observou ainda outro desequilíbrio hormonal: os ratos desmamados precocemente desenvolveram hipotireoidismo. Eles apresentavam níveis sanguíneos 50% mais baixos do hormônio tireotropina, que ativa a glândula tireoide, produtora de hormônios que estimulam o consumo de energia. Segundo o endocrinologista, o hipotireoidismo pode ser consequência da resistência à leptina. Como a leptina age numa região do cérebro chamada hipotálamo, que comanda a produção de outros hormônios (entre eles a tireotropina), a insensibilidade à leptina pode afetar o funcionamento da tireoide. “Aparentemente essa alteração hormonal e metabólica é um fenômeno de programação epigenética [alteração no funcionamento dos genes]”, diz Moura. Mas ainda é preciso comprovar.
Enquanto não se descobre o que dispara essas alterações e como as controlar de modo eficiente, o melhor é prevenir o problema por meio do aleitamento exclusivo por ao menos seis meses. Em Recife, a equipe da pediatra Sonia Coutinho mostrou que é possível estimular as mães a amamentarem por mais tempo adotando ações baratas, como o treinamento de profissionais da saúde, em especial os agentes comunitários do Programa de Saúde da Família, para orientá-las (ver Pesquisa FAPESP nº 119).

Na Universidade de São Paulo, uma equipe do Núcleo de Pesquisas Epidemiológicas em Nutrição e Saúde (Nupens) tem uma proposta mais ousada, que não previne as alterações metabólicas associadas ao desmame precoce, mas pode amenizar os problemas de saúde por elas provocados. A sugestão é melhorar a dieta do brasileiro incentivando o consumo de frutas, verduras e legumes, que atualmente é inferior a um quarto do recomendado. Uma das razões do baixo consumo é o preço elevado. Rafael Claro, do Nupens, calculou quanto custaria para as pessoas consumir a quantidade indicada desses alimentos, que deveria corresponder a 12% do total de calorias ingeridas. Como resultado, a dieta ficaria 30% mais cara.
Mas, com redução no preço, mesmo os mais pobres poriam mais vegetais no prato. Em 2007, durante alguns meses, a equipe do Nupens montou no Grajaú, um dos bairros mais pobres da cidade de São Paulo, um ponto que vendia frutas e hortaliças por um preço subsidiado. Como se imaginava, o consumo desses produtos aumentou. “O custo desses alimentos é uma barreira importante ao consumo”, afirma Claro. Como saída, ele propõe que o Estado reduza os impostos sobre esses alimentos e sobretaxe os ultraprocessados, que contêm conservantes, corantes e estabilizantes, além de mais açúcar, gordura e sal. “O dinheiro que o Estado deixaria de recolher”, diz, “seria economizado com a redução em tratamentos de saúde”.

Puberdade antecipada

Ação do hormônio leptina em região do hipotálamo desencadeia o amadurecimento sexual

A neurocientista brasileira Carol Elias deu um passo para desvendar um fenômeno que alarma os médicos norte-americanos: a antecipação da puberdade feminina. Carol e equipe identificaram a região cerebral em que o hormônio leptina age e desperta o amadurecimento sexual. É o núcleo pré-mamilar ventral.
Anos atrás surgiram pistas de que a leptina, secretada por células de gordura e conhecida por reduzir a fome, induzia o desenvolvimento dos órgãos sexuais e a fertilidade. Sem leptina, camundongos e seres humanos não passavam pelas transformações fisiológicas que preparam o corpo para procriar.

Quando esteve na Universidade Harvard, Carol, hoje pesquisadora da Universidade do Texas, ajudou a identificar as regiões cerebrais que produzem receptores de leptina, proteínas às quais o hormônio se liga e estimula o funcionamento dos neurônios. Entre as regiões do hipotálamo que expressam esses receptores, chamou a atenção o núcleo pré-mamilar ventral (NPV), grupo de células que se conecta a uma área cerebral que produz hormônios sexuais.

Mas comprovar que a ação da leptina no NPV induzia a puberdade demorou. Convidada a integrar a equipe de Joel Elmquist no Texas, Carol e os pesquisadores José Donato Júnior, Roberta Cravo e Renata Frazão desenvolveram camundongos geneticamente alterados para, em certas condições, produzir receptor de leptina só nesse núcleo. Segundo artigo publicado em dezembro no Journal of Clinical Investigation, fêmeas inférteis entraram na puberdade com o estímulo da produção desse receptor no NPV.

Há uma explicação: os neurônios desse núcleo acionam células secretoras do hormônio liberador de gonadotrofinas que, por sua vez, ativa a liberação de hormônios sexuais. Esse efeito ajuda a entender por que há mais meninas com 7 e 8 anos de idade na puberdade nos Estados Unidos. “É possível que as taxas mais elevadas de leptina nas crianças obesas estejam estimulando regiões cerebrais que normalmente só seriam ativadas mais tarde”, diz Carol.
> Artigos científicos

1. VICTORA, C.G.; et al. Maternal and child undernutrition: consequences for adult health and human capital. Lancet. v. 371(9.609), p. 340-57. 26 jan. 2008.
2. DE MOURA, E.G. et al. Maternal prolactin inhibition during lactation programs for metabolic syndrome in adult progeny. Journal of Physiology. v. 587(20), p. 4.919-29. 15 out. 2009.
3. OLIVEIRA, L. S. et al. Early weaning programs rats to have a dietary preference for fat and palatable foods in adulthood. Behavioural Processes. No prelo.

quarta-feira, 16 de julho de 2014

Mamadeira contém “substância” que seca o leite materno

Por Fernanda Rezende Silva
Você leu o título deste texto e já está imaginando alguma substância parecida com BPA, que passaria da boca do bebê para o seio da mãe e faria o leite secar? Não é bem assim que acontece, mas você vai entender que o resultado é o mesmo: mamadeiras e chupetas fazem sim o leite secar.
Já ouviu falar sobre “confusão de bicos” – a grande causadora de desmames precoces? Resumindo: é quando o bebê aprende a sugar a mamadeira (ou outro bico plástico, por exemplo: a chupeta) e por isso desaprende a mamar no peito – se o bebê não suga o peito ou suga de foram incorreta a mãe deixa de produzir leite. Muita gente ainda duvida da confusão de bicos, principalmente porque conhece algum bebê que usou mamadeira e continuou mamando no peito.
Mas e se pensarmos nesta questão no sentido inverso: você conhece algum bebê que desmamou precocemente (antes de 2 anos), por iniciativa do bebê (não da mãe), mamava em livre demanda e não usava mamadeira ou similares? Eu conheço poucos – quase todos os casos que já vi até hoje foram de bebês que usavam mamadeira ou chupeta. Repense a pergunta acima com cuidado, sem tentar tirar a culpa da mamadeira/chupetaÉ comum ouvirmos respostas sem nenhum fundamento como essa: “usava mamadeira sim, mas não foi culpa da mamadeira”, como se fosse possível um bebê com menos de 1 ano simplesmente decidir, por si só, que não quer mais mamar.
Por que então muitas mães dizem “ele largou o peito porque quis”, e não associam o desmame à mamadeira? Porque quase sempre o processo não é imediato – o bebê passa alguns meses mamando peito e mamadeira, muda a forma de sucção (o que interfere na produção de leite da mãe) e depois disso acaba por desmamar.
Um exemplo que mostra claramente a confusão de bicos é o desmame da volta ao trabalho: a mãe precisa voltar a trabalhar e introduz a mamadeira – geralmente ela precisa forçar, insistir, já que o bebê só sabe sugar o peito. Depois de tanta insistência o bebê aprende a sugar a mamadeira e começa a desaprender a sucção do peito, num processo lento e gradual que pode levar meses até o bebê largar o peito totalmente: é por isso que vemos tantos casos de bebês desmamados entre 7 e 10 meses (é praticamente impossível um bebê dessa idade desmamar naturalmente, sem mamadeira ou chupeta).
Dicas para quem quer evitar o desmame da volta ao trabalho: é possível usar alternativas à mamadeira, por exemplo, copos de transição com bico rígido ou a colher-mamadeira (também chamada colher-dosadora – aquela que vendem para papinha mas que também serve para leite). Outra possibilidade (para bebês com mais de 6 meses) é o bebê comer alimentos sólidos e beber água enquanto estiver longe da mãe, desde que mame em livre demanda sempre que estiver com a mãe.
Não entendo as razões de alguns pediatras recomendarem a introdução da mamadeira aos 6 meses até para bebês que passam o dia todo com a mãe. O que mais se vê nesses casos, infelizmente, é o bebê desmamando aos poucos mesmo tendo a mãe em casa.
Algumas pessoas dizem absurdos como “Mamou 9 meses – está bom, né?”. Segundo a OMS, nenhum bebê deveria desmamar antes de 2 anos, pois além de ser alimento, o leite materno também contribui na formação do sistema imunológico.
Apesar de ser tão claro que mamadeira gera confusão de bicos e esta provoca desmames, ainda existem muitas mães que pensam: “Não vai acontecer comigo”. Eu achava que os grandes culpados desse pensamento fossem os pediatras desatualizados e as avós ou tias que insistem em dizer que mamadeira é bom, mas também tenho visto casos em que a mãe busca informação e infelizmente recebe informações erradas. Um exemplo disso é o livro “Encantadora de Bebês”. A autora coloca a amamentação como algo opcional, o que por si só é desmotivador, já que para amamentar uma mãe precisa de apoio – precisa que todos à sua volta entendam os benefícios da amamentação. Numa parte do livro a autora sugere que o bebê deve ser acostumado a uma mamadeira por dia para não passar fome quando a mãe se ausentar: aqui a autora errou feio ao incentivar a confusão de bicos e consequentemente o desmame precoce. Um bebê não passa fome se não usar mamadeira – existem muitas alternativas à mamadeira que não causam desmame, como as citadas acima.
A frase "Não dê mamadeira" não é sinônimo de "Não dê leite artificial" - alguns bebês realmente precisam de leite artificial, mas podem continuar também mamando no peito sem problemas se o complemento for oferecido em copo ou colher (veja alternativas à mamadeira aqui: http://grupovirtualdeamamentacao.blogspot.com.br/2015/03/alternativas-mamadeira.html).
Até mesmo quando a mãe precisa voltar a trabalhar é possível seguir amamentando sem usar mamadeira - veja aqui depoimentos inspiradores: http://grupovirtualdeamamentacao.blogspot.com.br/2015/08/semana-mundial-de-aleitamento-materno.html .
 
Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...