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terça-feira, 1 de novembro de 2016

Carregadores de bebês


Por Maria Birman Cavalcanti
Revisão: Juliana Gieppner
 
O objetivo deste texto é incentivar as mães a carregar juntinho! O GVA entende que carregar bebês junto ao corpo preserva a exterogestação e facilita a amamentação. Queremos orientar os cuidadores em relação às questões fisiológicas que estão envolvidas no carregar para que isso possa ser posto em prática com conforto e segurança.  
Ao redor do mundo e através do tempo diversas culturas tradicionais desenvolveram formas de carregar seus bebês. Bebês pequenos têm extrema necessidade de colo e contato humano, e não costumam aceitar ser deixados sozinhos no berço ou no carrinho sem protestar. Há quem diga que se deve deixar o bebê chorar para “acostumá-lo” a ficar sozinho, que assim se tornará independente – o que sabemos que não é verdade. Quando uma mãe decide, por saber ser o melhor para ela e para o bebê, dar colo contínuo, em livre demanda, como pode então sair na rua, passear, ou mesmo executar tarefas simples dentro de casa, como lanchar ou mexer no celular, se tem as mãos constantemente ocupadas?
Felizmente, existem os carregadores de bebês, que são verdadeiros facilitadores de colo. Um carregador de pano ou uma mochila ergonômica funciona como um par de braços extra, que permite carregar o bebê junto ao corpo, satisfazendo sua necessidade de colo, aconchego e calor humano, ao mesmo tempo em que permite a quem carrega liberdade de movimento.
  
Nos primeiros três meses de vida do bebê, a fase da exterogestação, ter um carregador é muito útil para a puérpera. Nessa idade os bebês demandam muito colo e muitas mães não conseguem sequer comer ou usar o banheiro sem que a criança chore ao ser afastada dela. Nesses casos o carregador torna possível realizar essas atividades com a criança no colo e as mãos livres. Tarefas domésticas como lavar louça, varrer a casa ou passar as roupas do bebê também são possíveis. É muito comum recebermos queixas de bebês novinhos que fazem mamadas intermináveis – bebês são espertos, e se percebem que só tem colo e contato com a mãe quando estão sendo amamentados podem reagir a isso aumentando a demanda do seio. Carregar o bebê constantemente pode ajudar, nesses casos, pois a demanda de colo estará suprida e o bebê só irá mamar quando realmente o desejar.
Mais tarde, com bebês mais velhos, que já exploram outros espaços e não demandam mais tanto colo o pano de carregar continua sendo extremamente útil. Dá enorme liberdade para passeios, sendo muito mais prático que o carrinho no transporte público e em terrenos acidentados. É um ótimo aliado para ninar os bebês e colocá-los para dormir, especialmente na rua, quando estão fora de seu ambiente – mas se sentem em casa no colo das mães.
Para carregar recém-nascidos: o corpo do bebê deve estar apoiado completamente sobre o corpo da pessoa adulta, sem sobrecargas nas costas ou articulações. O joelhos ficam elevados, com as pernas formando um M, e a coluna fica em C, postura saudável e característica de bebês até os três meses. A ideia é que o pano proporcione estabilidade para esse apoio total corpo a corpo, como as mãos do adulto fariam naturalmente ao segurar a criança verticalizada no colo. O peso do bebê não deve recair sobre seu bumbum (numa posição “sentado”) ou sobre os tornozelos (numa posição de “sapinho” com os pés dentro do pano), mas sim sobre o corpo do adulto. A altura que o bebê fica em relação ao corpo do adulto é fundamental para garantir conforto para quem carrega – muito baixo ou muito alto, o peso do bebê forma um vetor que causa mudanças na postura do adulto, o que pode ocasionar dores na coluna. Um bebê bem posicionado não sobrecarrega a coluna de quem carrega, que consegue manter uma postura ereta e levar o peso do bebê sem, por exemplo, projetar o quadril ou abaixar os ombros. Conforme o bebê cresce e passa a sustentar melhor seu próprio peso, a posição que assume no carregador muda, naturalmente.
Há diversas formas de carregar bebês: diferentes tipos de carregadores, tecidos e acabamentos. As regras para carregar com segurança e conforto, entretanto, são as mesmas para todos os modelos.
Até os seis meses:
  • O bebê deve sempre ser carregado voltado para quem o carrega e nunca de frente para o mundo
  • O bebê deve sempre ser carregado na vertical
  • A coluna do bebê deve estar em forma de C
  • A coluna e o pescoço devem estar sustentados
  • O bumbum do bebê deve estar profundo em posição de cócoras
  • Os joelhos do bebê devem ficar acima do bumbum em forma de M
  • O assento deve fornecer apoio de joelho a joelho
  • O bebê deve ficar na “altura de beijinhos” (altura em que a pessoa que está carregando consegue beijar o topo da cabeça do bebê ao abaixar o rosto)
  • Os pés ficam para fora
Após os seis meses:
  • O bebê continua sempre de frente para quem o carrega, e na vertical
  • Conforme o bebê adquire mais controle da coluna, ele fica menos curvado
  • O pescoço não precisa ser sustentado pelo pano se o bebê estiver acordado
  • O bumbum deve ficar na mesma altura dos joelhos (posição sentado)
  • Carregadores pré-formados (mochilas e mei-tais) não precisam ir de joelho a joelho, desde que os joelhos estejam na mesma altura do bumbum – carregadores de pano devem continuar sendo usados de forma que deem apoio de joelho a joelho
  • O bebê deve ficar na altura de beijinhos, se posicionado na frente, e deve conseguir ver por cima dos ombros de quem carrega, se posicionado atrás
  • Os pés ficam para fora
Os cangurus tradicionais não são recomendados pois não são ergonômicos, isso é, não permitem que o bebê fique em posição fisiológica. Isso torna a experiência de ser carregado desconfortável para o bebê, que fica “pendurado” pela região genital, e pode protestar veementemente, além de perigosa, na medida em que a articulação coxofemoral (entre a perninha e o quadril) fica sem apoio, favorecendo a má formação do quadril, algo que pode repercutir até a vida adulta. Além disso ficar virado para o mundo é uma experiência sensorial estimulante demais para o bebê, que rapidamente se cansa e fica estressado.
Existem várias formas de carregar e o mais importante é atentar para a segurança: escolher um tecido que sustente o peso do bebê, que não seja quente demais e que deixe a pessoa que carrega confortável. É possível amarrar com xales, cangas, lençol, coberta, camiseta velha, tecido de sacaria... Desde que o bebê esteja bem ajustado e quem o carrega se sinta bem, um pedaço de pano com único nó pode ser o suficiente para levar um bebê numa amarração lateral.

Mochilas ergonômicas se parecem com os cangurus, mas conseguem manter o bebê na posição fisiológica, e são opções muito práticas para carregar. Elas não exigem amarração e são facilmente ajustáveis para diferentes bebês e corpos. Para bebês novinhos, que ainda não controlam a coluna, é preciso usar um insert, uma peça extra que torna a mochila segura para eles. 

Os panos de carregar bebê são conhecidos no Brasil genericamente como “slings” e são subdivididos nos seguintes tipos mais comuns:
  • Wrap: nada mais é do que uma faixa de tecido sem emendas, que pode ser amarrada em torno do torso para carregar o bebê. Os wraps são classificados de acordo com o material do qual são feitos e de acordo com o comprimento do pano. Existem wraps elásticos e rígidos/planos.


    • Wrap Elástico: pode ser confeccionado em malha ou dry-fit de poliéster ou poliamida. Deve ter entre 5 e 6 metros de comprimento, pois é preciso reforçar o assento com mais de uma camada de pano, e pode ter entre 60cm e 70cm de largura. É o tipo de carregador de pano mais fácil de encontrar e costuma ser o mais barato. Como são necessárias várias camadas de pano para sustentar adequadamente o bebê, costuma ser mais quente. 


    • Wrap de tecido plano/rígido: feito em tear industrial ou manual, pode ser bem curto, com pouco mais de dois metros de comprimento, ou longo, com até cinco metros, e tem 70cm de largura. Permite diversas amarrações diferentes, na frente, de lado e nas costas, com apenas uma camada de tecido, duas ou três. É o carregador mais versátil, dá conta de recém-nascidos e crianças mais velhas, aguenta bastante peso sem ceder e distribui o peso do bebê nas costas de maneira uniforme. Entretanto, é menos prático do que outras opções porque exige mais técnica para amarrar. Diversos materiais podem ser utilizados, entre eles o algodão, o linho e a seda, por exemplo. Algumas tramas são o jaquard, a sarja cruzada, a sarja diamante e sarja espinha de peixe. Os tamanhos longos (entre quatro e cinco metros, dependendo do tamanho da pessoa) possibilitam mais amarrações, mas também podem ser mais difíceis de manusear. Uma opção barata de wrap rígido é o tecido de sacaria, ou pano de prato. Ele já vem em rolos com 70cm de largura, basta comprar a metragem desejada para começar a usar. 

  • Sling de argola: é um carregador unilateral feito sempre de tecido plano – nunca de tecido elástico. Tem entre 1,80m e 2m de comprimento e 70cm de largura, e duas argolas especiais costuradas em uma das extremidades. É muito prático de tirar e colocar, pois não arrasta no chão, e pode ser usado com recém nascidos e com crianças mais velhas, que gostam de “subir e descer” do colo a toda hora. Para ser seguro deve-se atentar para as argolas apropriadas, que devem ser roliças e sem emendas, e para as bordas, que não podem ser acolchoadas para que sejam ajustáveis. Permite carregar a criança de frente para o cuidador ou de lado.


  • Mei-tai: é um carregador de pano inspirado nos carregadores tradicionais orientais, com um painel retangular onde a criança fica e quatro faixas para amarrar em volta dos ombros e do quadril. Permite levar o bebê na frente, nas costas e de lado. Existem versões “evolutivas”, nas quais é possível ajustar as medidas da base e das laterais do painel. Se for usado na frente as alças do mei-tai se cruzam nas costas, o que possibilita uma distribuição confortável do peso do bebê.

Mas... Qual é o melhor carregador de bebês??
Depende!
Depende de inúmeros fatores, mas aqui estão alguns que devem ser considerados: acessibilidade (o que eu posso adquirir nesse momento?); limitações do cuidador (carregadores e amarrações unilaterais não são recomendados para quem tem problemas de coluna); idade da criança (um recém nascido ainda precisa de apoio total da coluna até o pescoço, um bebê mais velho pode querer ver o mundo e se irritar por ficar barriga com barriga, um bebê que já anda pode querer subir e descer com frequência); preferência pessoal (há quem prefere a praticidade de uma mochila com insert, e quem adora aprender várias amarrações desafiadoras com um wrap rígido, há quem não goste de panos longos porque as pontas arrastam no chão); disponibilidade e vontade de aprender amarrações diferentes (um mei-tai, por exemplo, é mais simples de amarrar que um wrap...); condições do local onde vive e tipo de passeio que costuma fazer (wrap de malha e mochila com insert são muito quentes, e podem até superaquecer recém-nascidos no verão, enquanto mochilas e mei-tais são mais frescos), entre outras.
Quando o carregador é útil?
Bebê no colo, mãos livres, e nada de carrinho para empurrar, tudo ao mesmo tempo!! Além da liberdade de movimento que carregar no pano permite, o uso de carregadores traz outras vantagens, em diversos momentos ao longo da sua história com o bebê! Nos primeiros meses o pano recria o ambiente intrauterino (restrição de movimentos, barulho dos batimentos cardíacos, cheiro característico) e é uma ótima opção para acalmar bebês inquietos. Uma crise de choro – seja ela causada por “cólicas”, pela “hora da bruxa ou pela confusão de bicos – pode cessar muito mais rapidamente com a ajuda de um carregador e algum movimento do cuidador. Bebês com refluxo se beneficiam enormemente de serem mantidos em posição vertical. Quando a rotina é quebrada ou estamos fora de casa, tirar uma soneca amarradinho com a mamãe é uma ótima forma de isolar o bebê do excesso de estímulos do ambiente. Carregar no pano permite o colo contínuo, estreita laços entre cuidador e bebê, e facilita a amamentação. Por último, mas não menos importante: todos os cuidadores podem ser estimulados a carregar o bebê com ajuda de um carregador, não só a mãe!

domingo, 18 de outubro de 2015

Meu bebê quer peito/colo o tempo todo - será que isso é normal?






Tire da cabeça aquela ideia de bebê que só mama a cada 3 horas e nos intervalos está dormindo ou brincando sozinho - não é isso que se deve esperar de um bebê (é até comum um RN só mamar e dormir nos primeiros dias, mas logo isso muda, quando ele percebe que saiu da barriga).
Tudo que um RN quer é estar grudado na mãe. Antes ele estava na barriga, ouvindo o coração da mãe e recebendo alimentação contínua - é claro que este bebê vai procurar as mesmas coisas quando nasce (1). Desde que nasce o bebê já sabe que peito não é só alimento - é carinho, aconchego, segurança - é seu porto seguro.
As melhores dicas que se pode dar a uma grávida são: faça cama compartilhada (2, 3); compre um sling e tente aprender a usá-lo antes do bebê nascer (4). Use o sling em casa, passe o primeiro mês (pelo menos) com o bebê no sling o máximo de tempo possível - deixe-o mamar e dormir no sling. À noite deite com o bebê para amamentá-lo e durma junto (5) - a ocitocina relaxa e adormece também a mãe, não brigue com a natureza tentando ficar acordada, e liberte-se da ideia de bebê arrotar (6). Se puder amamente deitada e durma junto com o bebê também nas sonecas - tudo que uma puérpera precisa é de descanso.  Se você não tem ajuda suficiente para isso use e abuse ainda mais do sling - com ele você tem as mãos livres para outras atividades.
O bebê e a mãe se estressam se a família tenta ir contra a natureza: deixar o bebê muito tempo fora do colo, amamentar seguindo horários (7), oferecer bico artificial no lugar do peito (8), passar a noite longe do bebê (9). E porquê os bebês que tomam LA aceitam mais facilmente ficar longe da mãe? Porque eles estão com o estômago pesado: o LA cai no estômago como se fosse uma feijoada, faz o corpo do bebê concentrar todos os esforços nessa digestão difícil.
Você sabia que o corpo da mãe ajuda a regular a temperatura e a respiração do bebê (10)? Isso também explica porque o bebê quer a mãe o tempo todo - até mesmo adormecido ele sente se a mãe se afasta, daí é fácil entender porque a grande maioria dos bebês que ficam grudadinhos na mãe não têm "cólicas" (11): eles não sofrem o estresse de tentar regular a própria temperatura e respiração sozinhos.
Até quando precisa desse grude todo? Quem vai dar sinais é o bebê. Assim como qualquer marco do desenvolvimento, a fase de extero-gestação (12) também varia - alguns bebês evoluem mais rápido que outros.
Como a família pode ajudar: papai, vovós, titias, entendam que o bebê pode demorar um pouquinho a perceber que existe alguém no mundo além da mamãe, não fiquem enciumados, logo ele será louco por vocês também - se o bebê já aceita outros colos, dê colo ao bebê (não o deixe sozinho em berço/cama/carrinho - ele precisa de contato) para que a mãe possa se cuidar. Dica para todos que puderem ajudar: cuidem da casa: ofereçam água e comida à puérpera e não duvidem da capacidade dela de amamentar seu bebê - este é o melhor presente para esta fase.

1 - O Conceito do Continuum - a importância da fase do colo: http://grupovirtualdeamamentacao.blogspot.com.br/2014/06/o-conceito-do-continuum-importancia-da.html
2 - Eu deveria deixar meu bebê dormir comigo? http://grupovirtualdeamamentacao.blogspot.com.br/2015/03/eu-deveria-deixar-meu-bebe-dormir-comigo.html
3 - Normas gerais de segurança da cama compartilhada - http://grupovirtualdeamamentacao.blogspot.com.br/2014/07/normas-gerais-de-seguranca-da-cama.html
4 - Carregadores de bebês -http://grupovirtualdeamamentacao.blogspot.com.br/2016/11/carregadores-de-bebes.html
5 - Pode amamentar deitada? http://grupovirtualdeamamentacao.blogspot.com.br/2014/06/pode-amamentar-deitada.html
6 - Preciso colocar meu bebê para arrotar? http://grupovirtualdeamamentacao.blogspot.com.br/2015/10/preciso-colocar-meu-bebe-para-arrotar.html
7 - Porque a amamentação noturna é tão importante - http://grupovirtualdeamamentacao.blogspot.com.br/2014/06/porque-amamentacao-noturna-e-tao.html
8 - O jogo hormonal entre mãe e filho na cama compartilhada - http://grupovirtualdeamamentacao.blogspot.com.br/2015/01/o-jogo-hormonal-entre-mae-e-filho-na.html
9 - Teoria da exterogestação, pelo Dr. Harvey Karp
http://grupovirtualdeamamentacao.blogspot.com.br/2014/06/teoria-da-extero-gestacao.html

sábado, 28 de junho de 2014

O Conceito do Continuum - a importância da fase do colo

por Soluções para noites sem choro, Quarta, 15 de Junho de 2011 às 23:55

A antropóloga americana Jean Liedloff estudou a tribo venezuelana dos Yequana e defende que para conseguir um desenvolvimento físico, mental e emocional ótimo, o ser humano e especialmente um bebê, necessita o tipo de experiências às quais a nossa espécie se adaptou durante uma longa evolução. Para uma criança são: constante contato físico com seu cuidador desde o nascimento, dormir com os pais até deixar de fazê-lo por vontade própria, amamentação a livre demanda, ser levado constantemente nos braços ou de maneira que possa observar a atividade do adulto, ter cuidadores que respondam aos seus sinais imediatamente sem julgá-la e finalmente, sentir que cumpre as expectativas dos pais, que é bem-vindo e digno. Segundo Liedloff, as crianças cujas necessidades "continuum" forem satisfeitas crescerão com maior auto-estima e serão mais independentes.

Nos dois anos e meio que morei entre os índios da idade da pedra na selva sul-americana – não consecutivos, mas sim em cinco expedições distintas com muito tempo entre elas para refletir – cheguei a compreender que a natureza humana não é o que nos fizeram acreditar. Os bebês da tribo Yequana, longe de precisarem de paz e tranquilidade para dormir, tiravam uma soneca tranquilinhos enquanto os homens, mulheres ou crianças que os carregavam dançavam, corriam, andavam ou gritavam. Todas as crianças brincavam juntas sem brigar ou discutir e obedeciam aos mais velhos no mesmo instante e de bom grado.
A essa gente nunca lhes passou pela cabeça a idéia de castigar uma criança e, no entanto, seu comportamento não deixa entrever permissividade nenhuma. Nenhum moleque faz escândalo, interrompe os outros ou espera que um adulto lhe mime. Aos quatro anos, contribuíam mais com as tarefas do lar que davam trabalho elas mesmas.

Os bebês nos braços quase nunca choravam e era fascinante comprovar que não agitavam os braços e as pernas, não arqueavam as costas nem flexionavam as mãos e os pés. Permaneciam sentados nos slings ou dormiam encostados nos quadris do seu cuidador, desmentindo deste modo a crença de que os bebês precisam mover-se e flexionar as extremidades para exercitar-se. Também observei que não regurgitavam a não ser que estivessem muito doentes e que também não tinham cólicas. Quando se assustavam nos primeiros meses de engatinhar, não esperavam que ninguém acudisse correndo, ao invés disso, iam sozinhos em direção à mãe ou cuidador em busca dessa sensação de segurança antes de seguir com suas explorações. Inclusive sem supervisão, nem os menorzinhos se machucavam.

Será que sua natureza humana é diferente da nossa? Algumas pessoas assim o creem, mas evidentemente só existe uma espécie humana. Que podemos aprender, então, da tribo Yequana?

Antes de tudo, podemos tentar compreender o poder educativo do que eu chamo da “fase do colo”, que começa no momento do nascimento e termina quando o bebê começa a mover-se, quando pode afastar-se do seu cuidador e voltar quando queira. Essa fase consiste, simplesmente, em que o bebê tenha contato físico durante as 24 horas com um adulto ou criança mais velha.
A princípio, vi que essa experiência tinha um efeito extraordinariamente benéfico para os bebês, que não eram tão difíceis de tratar. Seus suaves corpinhos se adaptavam a qualquer postura que fosse cômoda para quem o levasse. Em contraposição a esse exemplo, vemos a incomodidade dos bebês que, com sumo cuidado, dormem no berço ou no carrinho. Bem agasalhados, se encontram lá jogados e rígidos, com o desejo de abrigar-se a um corpo vivo e em movimento: o lugar que lhes corresponde por natureza. Um corpo, em definitivo, que pertence a alguém que acreditará no seu choro e aliviará o seu anseio com braços afetuosos.
Por quê nossa sociedade é tão incompetente? Desde a infância, nos ensinam a não acreditar nos nossos instintos. Condicionados para desconfiar do que sentimos, nos persuadem para que não acreditemos no choro de um bebê que diz: “ Me pega no colo!”, “Quero estar com você!”, “Não me deixe!”. Em lugar disso, recusamos a idéia da resposta natural e seguimos os preceitos da moda que são ditados pelos “especialistas” no cuidado infantil. A perda da fé em nossa experiência inata nos leva a pular de um livro a outro, à medida que vão fracassando todas e cada uma das modas passageiras.

É essencial entender quem são os verdadeiros especialistas. O segundo especialista em cuidado de bebês reside no nosso interior, assim como em cada ser vivo que, por definição, deve saber como cuidar de sua cria. É claro que o maior especialista é o próprio bebê, programado durante milhões de anos de evolução para demonstrar seu temperamento com sons e gestos quando gosta do cuidado que recebe. A evolução é um processo de perfeição que “afinou” nosso comportamento com uma precisão magnífica. O sinal do bebê, a compreensão deste por parte dos que o rodeiam e o impulso a obedecê-la formam parte do caráter da nossa espécie. Nosso intelecto presunçoso demonstrou-se mal preparado para advinhar as autênticas necessidades do bebê. A pergunta costuma ser: “Devo pegar o bebê quando chora?”, “Devo deixar chorar um pouco antes de pegâ-lo?” ou “Deveria deixar que chore para que saiba quem manda e não se torne um tirano?”.

Nenhum bebê concordará com essas imposições. De forma unânime nos fazem saber através de gestos e sinais que não querem que lhes façamos dormir e lhes ponhamos no carrinho. Como essa opção não foi muito defendida na civilização ocidental atual, a relação entre pais e filhos acabou marcada por essa confrontação.
O jogo se centrou em como fazer o bebê dormir no berço, mas nunca se debateu se é preciso respeitar ou não o choro do bebê. Apesar de que o livro de Tine Thevenin, The Family Bed (A Cama Familiar), entre outros, abriu a brecha com o tema de que as crianças durmam com seus pais, não se

quarta-feira, 25 de junho de 2014

Teoria da extero-gestação

Os bebês humanos estão entre os mais indefesos de todos os mamíferos. Por causa do maior tamanho do cérebro e do fato de que o tecido nervoso necessita de mais calorias para se manter que qualquer outro, grande parte do alimento ingerido é gasto em prover nutrição e calor para as células nervosas. Mais significante é o fato de que nossos bebês necessitam nascer mais cedo do que deveriam, com seus cérebros ainda não totalmente desenvolvidos. Se o bebê humano nascesse já com o sistema nervoso central amadurecido, sua cabeça não passaria pela pelve estreita da mãe no momento do parto. Ao contrário de outros mamíferos, como girafas e cavalos, o recém-nascido humano é incapaz de andar por um longo período após o nascimento, porque lhe falta o aparato neurológico maduro para tanto. O custo primal de ter um cérebro grande é que nossos filhotes nascem extremamente dependentes e em necessidade constante de cuidado.

O crescimento do nosso cérebro após o nascimento é mais rápido do que o de qualquer outro mamífero e segue neste ritmo por 12 meses. 

A seleção natural demanda que pais humanos cuidem de seus filhos por um longo período e que os filhos dependam dos pais. Esta necessidade mútua traduz-se em um estado emocional chamado “apego”.

Em algumas culturas, como na tribo !Kung, bebês raramente choram por longos períodos e não há sequer uma palavra que signifique “cólica”. As mães carregam os bebês junto ao corpo, com um aparato semelhante a um “sling”, mesmo quando saem para a colheita. A relação mãe-bebê é considerada sacrossanta, eles permanecem juntos o tempo todo. O bebê tem livre acesso ao seio materno e vê o mundo do mesmo ponto de observação que sua mãe. 

Nossa cultura ocidental não permite um estilo de vida idêntico ao de tribos primitivas, mas podemos tirar lições valiosas sobre como ajudar nossos bebês na adaptação à vida extra-uterina. 

Nos primeiros 3 meses de vida, o bebê humano é tão imaturo que seria benéfico a ele voltar ao útero sempre que a vida aqui fora estivesse difícil.

É preciso compreender o que o bebê tinha à sua disposição antes do nascimento, para saber como reproduzir as condições intrauterinas. O bebê no útero fica apertadinho, na posição fetal, envolvido por uma parede uterina morninha, sendo balançado para frente e para trás a maior parte do tempo. Ele também estava ouvindo constantemente um barulho "shhhh shhhh", mais alto que o de um aspirador de pó (o coração e os intestinos da mãe).

A reprodução das condições do ambiente uterino leva a uma resposta neurológica profunda "o reflexo calmante". Quando aplicados corretamente, os sons e sensações do útero têm um efeito tão poderoso que podem relaxar um bebê no meio de uma crise de choro. 

Os 5 métodos para acalmar um bebê até 3 meses de idade são extremamente eficazes SOMENTE quando executados corretamente. Sem a técnica correta e o vigor necessário, não adiantam em nada.

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