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domingo, 8 de novembro de 2015

É realmente possível amamentar e trabalhar?



É possível sim. Voltar ao trabalho é uma escolha difícil, com muitas variáveis a avaliar, qualidade de vida, renda, educação dos filhos, futuro familiar, realização profissional, crescimento pessoal, etc..
Algumas mulheres decidem ficar em casa mesmo que isso signifique um nível de vida mais modesto; outras preferem trabalhar para oferecer às suas famílias um melhor nível de vida, algumas mulheres nessa fase se descobrem empreendedoras e largam seus trabalhos como empregadas para começar a trabalhar em casa virando seus próprios chefes; outras mudam radicalmente sua carreiras profissionais para conseguir conciliar horários mais flexíveis com a maternidade, muitas continuam em seus antigos empregos tratando de seguir o mesmo rumo profissional que um dia se propuseram seguir, ajustando suas rotinas para conciliar a nova vida familiar com o trabalho; outras encontram inspiração na nova maternidade e decidem melhorar as suas carreiras voltando a estudar ou se esforçando mais para conseguir aquela promoção que antes parecia longe.
O certo é que a hora de deixar o filho pequeno é uma hora de muitas dúvidas e revisões de nossas próprias vidas para descobrir dentro de nós o que é o melhor que podemos oferecer aos nossos filhos. Não há nada de errado em nenhuma das escolhas, cada uma é válida do mesmo jeito e com certeza seja qual for a sua será pensando em oferecer o melhor de si mesma ao seu bebê. Lembre que um bebê feliz só é possível com uma mãe feliz. E seja qual for a escolha manter a amamentação sempre é possível.
Apesar de ser um grande desafio conseguimos, muitas não temos outra opção, precisamos da renda em casa ou mesmo de nos sentir realizadas profissionalmente tanto quanto como mães. Para todas é difícil deixar o filho e confiar nos cuidados da creche, dos avós ou mesmo do pai, sentimos medo de nosso bebê ser negligenciado, descuidado ou simplesmente que as coisas não sejam feitas do jeito que nós mesmas faríamos. Estamos acostumadas a fazer tudo nós mesmas, poucas vezes delegamos funções, ainda mais em se tratando de nosso bebê. Porém, agora é hora para começar pensar no tanto de tarefas que assumimos, delegar
e até esquecer ou adiar as que não são indispensáveis.

Veja alguns relatos na série de vídeos que o GVA fez para a SMAM (Semana Mundial de Aleitamento Materno) 2015:

http://grupovirtualdeamamentacao.blogspot.com.br/2015/08/semana-mundial-de-aleitamento-materno.html

O que fazer com a saudade de meu bebê durante o serviço?Quando escolhemos trabalhar ou estudar fora de casa deixando nosso bebê ao cuidado de terceiros é difícil lidar com a saudade e a dor nos primeiros dias, algumas mulheres desistem de seus trabalhos nesses dias. O melhor a fazer é ter certeza da sua escolha - se você sabe que o que você faz é pelo bem de seus filhos, fica mais suportável a ausência. Leve fotos de seu bebê para seu serviço ou carregue algumas na bolsa, quando estiver com saudade pode dar uma olhada e lembrar porque você está ali.

Meu rendimento no serviço não é como antes de ser mãe, o que fazer?
Esse é um fenômeno mais comum do que você imagina, nos primeiros dias após a volta ao trabalho pode ser difícil se concentrar já que sua cabeça estará dispersa, talvez ainda duvidando se você está no lugar certo ou pensando se seu bebê está bem, se já dormiu, já comeu etc.. A confiança no cuidador de seu bebê é essencial, saber que seu bebê está bem cuidado lhe permitirá se concentrar nas suas atividades de seu trabalho. Tente não se cobrar demais nem adquirir muitos compromissos pelo menos nos primeiros meses da sua volta ao trabalho, dessa forma você poderá cumprir o que se propõe evitando ficar mal com os prazos ou se sentindo desajustada ao ambiente laboral.


quarta-feira, 21 de outubro de 2015

Porque meu bebê está acordando tanto?


"Minha filha adormeceu até rápido, mas logo acordou. Amamentei, ela dormiu de novo. Em poucos minutos acordou. Só aí eu percebi que ela estava toda suada e o calor estava atrapalhando o sono dela".

"Meu bebê passou a noite acordando de meia em meia hora. Quando amanheceu entendi o motivo: dois novos dentinhos".

"Meu filho ainda acorda de madrugada, mas geralmente só uma vez. Nesta noite ele acordou demais. Fiquei nervosa, não consegui acalmá-lo sozinha. Quando meu marido o pegou no colo percebeu que ele estava cheio de picadas de pernilongos".

"Meu bebê ainda acorda duas vezes à noite, mama e volta a dormir. Eu sei que isso é normal, pois o ciclo de sono dos bebês é diferente dos adultos, e sei que não é fome - ele pede peito simplesmente porque precisa de ajuda (no caso, precisa sugar) para voltar a dormir. Por enquanto isso não me incomoda (nem acordo totalmente, só viro para o lado para ele mamar) mas se um dia incomodar farei a Remoção Gentil."

"Viajamos para outra cidade. Minha filha adormeceu e em menos de meia hora estava chorando. Eu quase chorei junto quando toquei sua pele e vi que ela estava passando frio".

"Ele tinha tomado vacina 3 dias atrás, estava tudo bem e fomos viajar. No avião chorou o tempo todo. Um senhor ao meu lado dizia que era fome, mas meu bebê não saía do peito - eu sabia que não era fome. Só acalmou depois que dei o analgésico - era reação da vacina".

"Minha filha ganhou um macacão lindo e eu a vesti com ele para ela dormir. Ela estava resmungando mas dormiu no peito. Acordou duas vezes, amamentei, dormiu de novo. Na terceira vez decidi que eu precisava descobrir o que a incomodava. Abri o macacão para ver se a fralda estava suja e percebi que o tecido do macacão a havia deixado com a pele toda avermelhada".

"Naquela noite ele não largou o peito. Adormeceu, mas não me deixava tirar o peito da boca. Eu dormi junto, com meu bebê plugado. No dia seguinte ele começou a engatinhar - aquele grude todo era um salto de desenvolvimento".

"Minha filha nunca dormiu bem. Pensei que fosse fome e dei fórmula à noite. Ela dormiu por mais tempo, mas acordou cheia de manchas vermelhas na pele. Tratei com pomada, mas isso se repetiu vários dias, até eu descobrir que o desconforto dela não era fome - era alergia alimentar."

"Tivemos uma noite tensa - bebê chorando muito, não dormia, quando conseguia adormecer logo acordava. A avó dizia que era fome. O tio dizia que era manha. Eu sabia que não era nada disso, e já estávamos quase indo para o hospital quando ele vomitou um giz de cera que tinha engolido - depois disso voltou a ser o meu bebê feliz".

"Era o dia do batizado da minha filha. De manhã estávamos na igreja e ela tirou sonecas no meu colo. À tarde fomos comemorar em um churrasco da família, minha filha passou de colo em colo e eu pensava 'se tiver sono dorme', daí não cuidei das sonecas dela, ela se distraiu muito e não tirou nenhuma boa soneca à tarde. O resultado foi efeito vulcão à noite - ela chorava, chorava, às vezes chegava a adormecer mas acordava logo em seguida, só conseguiu dormir de verdade às 3h da manhã".

"Meu filho era muito ligado ao avô. No dia do velório do avô decidi não levá-lo para ele não sentir a tensão. Não adiantou nada - ele passou uma semana dormindo mal. Crianças sentem tudo mesmo."

"Estávamos na fase de introdução alimentar, e eu tive a péssima ideia de dar batata doce para a minha filha no jantar (era a primeira vez que ela comia batata doce). Ela passou a noite cheia de gases, se espremendo, chorando, acordando toda hora".

"Dois meses sem chuva, a seca estava maltratando. Meu filho só conseguiu dormir para valer depois que eu levei para o quarto uma toalha encharcada".

"Tivemos uma noite tensa. Minha bebê chorava, chorava, e não conseguia dormir. Percebi que uma das orelhas estava sem brinco. Gelei de medo dela ter engolido, mas logo encontrei o brinco preso na roupa dela - estava machucando seu bracinho".

"A empregada trocou a roupa de cama da casa toda, inclusive do berço do meu bebê. Na hora de dormir ele não ficava mais de 10 minutos no berço. Pensei que fosse fome, dei leite artificial e ele dormiu. Quando amanheceu percebi que a empregada havia colocado o lençol por cima de um brinquedo, que estava, claro, incomodando meu bebê e atrapalhando o sono dele. Entendi então que, após tomar o leite artificial, ele dormiu por causa da digestão pesada, e não porque tinha fome. O motivo do choro estava lá ainda, não havia sido resolvido, e seu corpinho foi sobrecarregado por uma digestão difícil".

Você ainda continua achando que só fome faz o seu bebê acordar?

domingo, 18 de outubro de 2015

Meu bebê quer peito/colo o tempo todo - será que isso é normal?






Tire da cabeça aquela ideia de bebê que só mama a cada 3 horas e nos intervalos está dormindo ou brincando sozinho - não é isso que se deve esperar de um bebê (é até comum um RN só mamar e dormir nos primeiros dias, mas logo isso muda, quando ele percebe que saiu da barriga).
Tudo que um RN quer é estar grudado na mãe. Antes ele estava na barriga, ouvindo o coração da mãe e recebendo alimentação contínua - é claro que este bebê vai procurar as mesmas coisas quando nasce (1). Desde que nasce o bebê já sabe que peito não é só alimento - é carinho, aconchego, segurança - é seu porto seguro.
As melhores dicas que se pode dar a uma grávida são: faça cama compartilhada (2, 3); compre um sling e tente aprender a usá-lo antes do bebê nascer (4). Use o sling em casa, passe o primeiro mês (pelo menos) com o bebê no sling o máximo de tempo possível - deixe-o mamar e dormir no sling. À noite deite com o bebê para amamentá-lo e durma junto (5) - a ocitocina relaxa e adormece também a mãe, não brigue com a natureza tentando ficar acordada, e liberte-se da ideia de bebê arrotar (6). Se puder amamente deitada e durma junto com o bebê também nas sonecas - tudo que uma puérpera precisa é de descanso.  Se você não tem ajuda suficiente para isso use e abuse ainda mais do sling - com ele você tem as mãos livres para outras atividades.
O bebê e a mãe se estressam se a família tenta ir contra a natureza: deixar o bebê muito tempo fora do colo, amamentar seguindo horários (7), oferecer bico artificial no lugar do peito (8), passar a noite longe do bebê (9). E porquê os bebês que tomam LA aceitam mais facilmente ficar longe da mãe? Porque eles estão com o estômago pesado: o LA cai no estômago como se fosse uma feijoada, faz o corpo do bebê concentrar todos os esforços nessa digestão difícil.
Você sabia que o corpo da mãe ajuda a regular a temperatura e a respiração do bebê (10)? Isso também explica porque o bebê quer a mãe o tempo todo - até mesmo adormecido ele sente se a mãe se afasta, daí é fácil entender porque a grande maioria dos bebês que ficam grudadinhos na mãe não têm "cólicas" (11): eles não sofrem o estresse de tentar regular a própria temperatura e respiração sozinhos.
Até quando precisa desse grude todo? Quem vai dar sinais é o bebê. Assim como qualquer marco do desenvolvimento, a fase de extero-gestação (12) também varia - alguns bebês evoluem mais rápido que outros.
Como a família pode ajudar: papai, vovós, titias, entendam que o bebê pode demorar um pouquinho a perceber que existe alguém no mundo além da mamãe, não fiquem enciumados, logo ele será louco por vocês também - se o bebê já aceita outros colos, dê colo ao bebê (não o deixe sozinho em berço/cama/carrinho - ele precisa de contato) para que a mãe possa se cuidar. Dica para todos que puderem ajudar: cuidem da casa: ofereçam água e comida à puérpera e não duvidem da capacidade dela de amamentar seu bebê - este é o melhor presente para esta fase.

1 - O Conceito do Continuum - a importância da fase do colo: http://grupovirtualdeamamentacao.blogspot.com.br/2014/06/o-conceito-do-continuum-importancia-da.html
2 - Eu deveria deixar meu bebê dormir comigo? http://grupovirtualdeamamentacao.blogspot.com.br/2015/03/eu-deveria-deixar-meu-bebe-dormir-comigo.html
3 - Normas gerais de segurança da cama compartilhada - http://grupovirtualdeamamentacao.blogspot.com.br/2014/07/normas-gerais-de-seguranca-da-cama.html
4 - Carregadores de bebês -http://grupovirtualdeamamentacao.blogspot.com.br/2016/11/carregadores-de-bebes.html
5 - Pode amamentar deitada? http://grupovirtualdeamamentacao.blogspot.com.br/2014/06/pode-amamentar-deitada.html
6 - Preciso colocar meu bebê para arrotar? http://grupovirtualdeamamentacao.blogspot.com.br/2015/10/preciso-colocar-meu-bebe-para-arrotar.html
7 - Porque a amamentação noturna é tão importante - http://grupovirtualdeamamentacao.blogspot.com.br/2014/06/porque-amamentacao-noturna-e-tao.html
8 - O jogo hormonal entre mãe e filho na cama compartilhada - http://grupovirtualdeamamentacao.blogspot.com.br/2015/01/o-jogo-hormonal-entre-mae-e-filho-na.html
9 - Teoria da exterogestação, pelo Dr. Harvey Karp
http://grupovirtualdeamamentacao.blogspot.com.br/2014/06/teoria-da-extero-gestacao.html

Preciso colocar meu bebê para arrotar?

Por Juliana Coutinho-Gieppner



A necessidade de colocar o bebê para arrotar depois de ser alimentado (ou “ajudar o ar a sair”), originou-se com a disseminação do uso da mamadeira na alimentação de bebê. O fluxo rápido de leite, proporcionado pelo bico da mamadeira, força o bebê tomar golfadas de ar nos intervalos extremamente curtos entre os momentos que o bebê engole o leite. Bebês amamentados tem menos problemas com ar na barriguinha: eles conseguem controlar o fluxo de leite no peito e assim eles sugam num ritmo mais lento que os permite coordenar melhor, respirar e engolir o leite. Ainda assim, arrotar pode ser necessário às vezes, mesmo em bebês amamentados, especialmente se o bebê mama muito rápido, se a pega estiver incorreta (por uso de bicos artificiais ou porque o bebê ainda é novinho e está aprendendo a mamar) ou se a mãe tem reflexo de ejeção de leite muito forte. Além dos tapinhas das nas costas, o arroto requer duas ações: segurar o bebê numa posição vertical e aplicar leve pressão na barriga do bebê.
Observe se o bebê dá sinais de que precise arrotar, e isso pode acontecer durante ou após mamar: a criança pode se recusar a ir para o outro seio, pode se contorcer e fazer careta quando você a coloca deitada, ou pode haver uma expressão dolorosa no rosto. Se a criança estiver contente e relaxada, colocá-la para arrotar é desnecessário, lembre-se: na maioria das vezes a criança não precisa arrotar. Não se sinta mal caso não consiga fazer o bebê arrotar após cada mamada. Bebês geralmente não precisam arrotar, especialmente quando amamentados em livre demanda, isto é, quando podem fazer pequenas mamadas várias vezes ao dia. Após uma mamada mais demorada, pode ser que seja necessário colocar o bebê para arrotar - esteja atenta ao sinais que o bebê der. A medida em que os bebês crescem e se tornam mais eficientes em mamar, arrotar se tornará cada vez menos frequente, cada vez menos um problema.
Colocar o bebê para arrotar geralmente é desnecessário, durante as mamadas noturnas, uma vez que nas mamadas noturnas os bebês estão mais relaxados e por isso há ainda menos chances de engolir ar. Se alguma bolha de ar estiver causando desconforto, é possível ter que levantar e colocar o bebê para arrotar, bastando apenas erguer o tronco do bebê ligeiramente, de modo que o ar consiga sair.

sábado, 1 de agosto de 2015

Retorno ao trabalho: e o sono do bebê, como fica?

Frequentemente ouvimos mães preocupadas com seu retorno ao trabalho e como será a reação do bebê que dorme sendo embalado ou amamentado. A verdade é que todas as crianças (e todas as mães) vivenciam um período difícil quando precisam separar-se por causa do trabalho. Neste artigo, seguem algumas dicas que levam em consideração o estado emocional de ambos, mãe e filho, para lidar com essa separação.

Fatos importantes a serem considerados quando o retorno ao trabalho está próximo:


1) O desenvolvimento do ser humano no primeiro ano de vida é extraordinário, cada fase, uma necessidade.

O bebê triplica de peso no primeiro ano, se desenvolve em todos os aspectos (motores, cognitivos), começa a andar! Então, não se deve comparar um bebê recém-nascido com um de 4 meses, nem um bebê de 4 meses com um de 1 ano, por exemplos, pois serão praticamente outros bebês.

Cada fase, uma necessidade: bebê novinho precisa muito de colo, aconchego, contato íntimo, amamentação em livre demanda. É da natureza dos bebês quererem colo de suas mães; na verdade esse é um ótimo hábito que foi desenvolvido em milhares de anos de evolução, pois os bebês que não demandavam atenção faleciam e, por isso, a seleção natural fez com que aqueles que viviam no colo sobrevivessem e esse gene foi passado adiante. Essas necessidades vão diminuindo conforme sua maturidade.

A dica é aproveitar essa fase inicial, em que temos disponibilidade, e ficar com o bebê no colo, amamentar em livre demanda, sem privar o bebê do carinho e do colo de mãe que ele tanto precisa e tem direito.


2) Os bebês são inteligentes e têm uma capacidade enorme de adaptação e de distinção de seus cuidadores.

Eles podem reagir totalmente diferente com a mãe e com a babá ou com a professora do berçário (que eles sabem que não é a mãe). A capacidade e a inteligência dos bebês de distinguir seus cuidadores permite que eles criem modos de interação distintos com eles. Porém, é comum e esperado que o bebê demande sempre mais da mãe, porque sabe que pode, porque confia mais nela.

Então, o bebê criará laços afetivos com o novo cuidador e eles se entenderão na nova forma de adormecer. E, no final do dia e à noite, de volta aos braços da mãe, o bebê pedirá mais carinho, mais afago, e muito provavelmente pedirá para mamar para adormecer, mesmo que não o faça com o cuidador durante o dia. Afinal de contas estarão com saudades e sabem que mamãe pode oferecer o peito e curtem estar nos braços de sua referência em amor e confiança.

3) Não compensa promover separação prévia para ‘acostumar’ ou ‘preparar’ o bebê com o retorno ao trabalho.

Não sofram por antecedência achando que têm de acostumar o bebê desde cedo a adormecer sozinho. Bebês não têm maturidade neurológica e compreensão para tal, então essa é uma expectativa irreal. Eles podem ter vários sentimentos e sensações que os perturbem durante a noite e precisam de nossa ajuda. Bebês demandam a mãe, mesmo no período noturno, e, especialmente, se ficaram longe dela durante o dia. A criança tem em sua mãe o referencial de segurança, estabilidade e afeto.

Um bebê nunca fica ‘mal-acostumado’ por ter colo, embalo, acalanto, pelo contrário, precisam disso para continuar a se desenvolver. Revisamos isso em meu artigo anterior ‘A natureza do sono dos bebês’ (1). Portanto, não faz sentido promover um afastamento prévio entre vocês ‘pensando no futuro’; isso só acaba gerando sofrimentos desnecessários para ambos, mãe e bebê. Se a criança não tem colo quando pequeno, não tem no futuro, terá quando, então? Se seu marido tem uma viagem planejada para semana que vem, para ficar um bom tempo fora, você, para se acostumar com a ausência dele, já vai se preparando e deixa de dormir na mesma cama que ele, deixa de beijá-lo e de abraçá-lo? Ou faz o oposto e trata de aproveitar ao máximo os últimos dias antes da viagem?

A questão, portanto, não é fazer o bebê 'se desacostumar' de colo, pois ninguém se desacostuma de uma necessidade física ou psicológica. A questão é, sim, ajudar o bebê a criar confiança em outro cuidador.


4) "Treinar" ou condicionar o bebê a dormir sozinho vai contra sua natureza, e tem consequências.

Condicionar o bebê a adormecer sozinho não vai ajudá-lo no próximo período de afastamento entre vocês, pelo contrário. Para ajudá-lo, é necessário que exista acolhimento e apego entre vocês, contínuo e íntimo, assim seu estado emocional vai se fortalecendo, ele se sente acolhido, importante e atendido, e vai lidar melhor com outras situações de separação.

A maioria de planos de treinamento para bebês oferece o risco de dessensibilização dos sinais enviados, especialmente quando há choro sem consolo envolvido. Em outras palavras, ao invés de ajudar a descobrir o que os sinais enviados pelo seu bebê significam, esses métodos pedem que você os ignore. Nem você nem seu bebê aprendem nada de bom com isso. E, com a separação durante o dia entre vocês pelo retorno ao ao trabalho, a angústia do bebê tende a piorar (2).

Um estudo recente mostrou que os bebês têm capacidade de prever respostas estressantes. Eles foram divididos em dois grupos, no primeiro as mães interagiam com eles continuamente, enquanto que no segundo bebês foram ignorados por elas por somente dois minutos. Os níveis de cortisol, hormônio do estresse, foram medidos após os experimentos. No dia seguinte, o grupo que foi ignorado teve níveis de cortisol mais elevados do que o grupo controle, provando que eles têm capacidade de antecipar o estresse (3).

O cortisol em níveis elevados no cérebro do bebê pode ser corrosivo. O cérebro do bebê está em pleno desenvolvimento e a exposição desse hormônio por períodos prolongados impede a conexão entre alguns nervos e provoca a degeneração de outros. É possível que bebês que são submetidos a muitas noites de choro sem consolo sofram efeitos neurológicos prejudiciais que poderão ter implicações permanentes no desenvolvimento neurológico. Para ler um compêndio de artigos científicos sobre o tema cortisol e efeitos no desenvolvimento cerebral, veja a referência 4.

É preciso ter senso crítico e usar de discernimento quando recebemos conselhos que prometem milagres. Esses métodos de condicionamento envolvem vários riscos; além dos efeitos neurológicos, podem criar uma distância entre você e seu bebê, e ele perde a oportunidade de construir confiança no seu ambiente.

Algumas dicas práticas para mães preocupadas com retorno ao trabalho:

- Busca de um novo cuidador: procure um novo cuidador que tenha disponibilidade emocional, que tenha chance de criar um laço afetivo com seu bebê, que tenha empatia e carinho, que o carregue no colo, não o deixe chorar e que o embale para dormir. Não é qualquer pessoa que tem preparo emocional para cuidar, acolher e maternar um bebê. É importante que ele se apegue ao novo cuidador, pois é dependente por natureza e precisa desse vínculo. A dependência natural é um fato biológico, e não resultado do excesso de mimo materno (5).

Sendo creche, babá, parente ou outro cuidador, lembre-se sempre da disponibilidade emocional como requisito para cuidar de seu filho, pois não é simplesmente suprir suas necessidades físicas, mas é também dar amor, ter interesse e prover o afeto materno na ausência da mãe. Visite várias creches, procure locais onde dão colo, verifique se deixam os bebês o tempo todo em cadeiras, andadores ou outros aparatos. Se for esse o caso, é sinal que estão desprezando a importância do acolhimento emocional no início de vida do bebê que é tão crítico e fundamental para o resto de nossas vidas.

Para a criança não é suficiente que lhe troquem as fraldas e lhe deem comida. O mais necessário e nobre alimento é o afeto, acompanhado de carinho, prazer e paz (6).

- Envolvimento de outra pessoa no ritual de sono: encoraje o pai, por exemplo, a participar do ritual de sono do bebê desde cedo. Ele pode dar o banho e fazer uma massagem, por exemplo. Depois dos 3-4 meses, em média, se o bebê sempre adormece no peito, pode-se começar a alternar maneiras de adormecer para que ele não crie uma associação forte de sugar para dormir (7). Essa dica não é obrigatória considerando-se que os bebês têm capacidade de distinguir seus cuidadores (como citado no início do texto) e vai aprender a adormecer de outra forma com quem ‘não tem peitos’. Existem crianças que dormem mamando com suas mães em casa e na escolinha adormecem de outra forma com as cuidadoras, sem problemas.

- Adaptação gradual: O bebê lidará melhor com essa separação se a adaptação for gradual, assim terá uma chance de criar um apego com o novo cuidador antes de separações longas de sua mãe. Para que o novo cuidador crie um bom apego com ele, criar chances de interação antes de deixá-los sozinhos é importante.

Recomendo sempre que a mãe vá junto com o bebê e fique com ele no novo ambiente o tempo todo, pelo menos no início. Assim ele vai se familiarizando com o local, mas com a segurança de ainda estar sob os cuidados da mãe. Depois a mãe pode ir se afastando um pouco, gradualmente, enquanto dá a chance de o bebê se apegar à nova cuidadora. Porém, não há receita pronta, é questão de observar a criança e ter sensibilidade. A melhor qualidade que se pode esperar do cuidador é a empatia com o bebê. Novamente, oriente que lhe dê bastante colo, não o deixe chorar, mostre quais são os sinais de sono do bebê, deixe que ele durma as sonecas no colo para dar um consolo afetivo na ausência da mãe.

- E se o bebê tem ansiedade da separação?

Nos primeiros meses, a relação mãe e filho é altamente intuitiva, primitiva mesmo. O bebê não sabe que nasceu e acha que o corpo da mãe é continuidade do seu e que o seio que o alimenta e lhe dá carinho e prazer faz parte de um todo ao qual ele pertence. Então, gradualmente e após o sexto mês é que os bebês vão se dando conta de que são outros seres e essa percepção de individualidade fica mais clara e evidente. Assim, progressivamente, vai se estabelecendo o desenvolvimento psicoafetivo, motor, alimentar e cognitivo da criança (6).

Algumas idéias práticas:

Pratique separações rápidas e diárias
Durante seus dias juntos crie oportunidades de expor seu bebê a separações visuais breves, seguras e rápidas (brincar de esconder o rosto e logo reaparecer é ótimo e eles adoram!). Incentive que seu bebê brinque com um brinquedo interessante ou com outra pessoa e, quando ele estiver feliz e distraído com o brinquedo ou com a pessoa, caminhe calma e lentamente para outro quarto. Assobie, cante, murmure uma canção ou fale, de modo que seu bebê saiba que você ainda está por perto, mesmo que não possa vê-la. Pratique essas separações breves algumas vezes ao dia numa variedade de situações diferentes.

Evite a transferência de colo para colo
É muito comum passar o bebê do colo de um cuidador para outro. O problema é que cria ansiedade na criança sair da segurança dos braços da mãe e ser fisicamente transferido para os braços de outra pessoa que lhe é menos familiar. Essa separação física é a mais extrema na mente do bebê. Para reduzir essas sensações de ansiedade faça a mudança com seu bebê num lugar neutro, como brincando no chão ou sentado numa cadeirinha, cadeirão de alimentação ou bebê conforto. Peça para o cuidador sentar do lado de seu bebê e interagir com ele, enquanto isso você fala um ‘tchau’ rápido, porém positivo, num tom feliz. Assim que você sair é um bom momento para o cuidador pegar seu bebê no colo, e a vantagem é que o cuidador vai ser colocado na posição de ‘salvador’ e isso pode ajudá-los nessa relação.

Entenda a ansiedade de separação como um sinal positivo!
É perfeitamente normal - até maravilhoso - que seu filho tenha esse bom apego e que deseje essa proximidade com você e sua presença constante. Parabéns! Isso é a evidência de que o laço afetivo que você criou desde o início está seguro. Se for o caso, ignore educadamente as pessoas que te dizem o oposto.
Relaxe em suas expectativas de independência, isso certamente irá ajudar seu bebê a relaxar também e a ter menos ansiedade nos momentos de separação entre vocês (8).

- Lembre-se, o acolhimento na infância tem resultado positivo na vida adulta!
Uma pesquisa recente (9) revelou que a afeição maternal dada aos bebês torna-os adultos mais bem preparados para enfrentar os problemas da vida. Cientistas compararam dados das relações de afeto e atenção e desempenho emocional de bebês de 8 meses com suas mães. Essas pessoas foram acompanhadas e testadas aos 34 anos de idade sobre vários sintomas emocionais. Qualquer que fosse o meio social, ficou constatado que os bebês com bom apego emocional aos 8 meses tinham os níveis de ansiedade, hostilidade e mal-estar mais baixos quando adultos. Isto confirma que as experiências na primeira infância têm influências na vida adulta.

D.W. Winnicot, um pediatra famoso que depois se tornou psicanalista diz que a capacidade de ser feliz de um ser humano depende, além de todos outros fatores, de um tempo (a infância até os seis anos, mas principalmente o primeiro ano de vida), e de uma pessoa (uma mulher, a mãe). Se a mãe não está presente, outro cuidador que entenda esses conceitos e que atenda as necessidades do bebê se faz necessário.

É uma responsabilidade sim, de assustar! E é realmente intrigante que pessoas tenham filhos sem saberem nada disso, sem se darem conta da importância desse relacionamento profundo, do vínculo necessário que se forma nesse período, e quando as mães retornam ao trabalho fora de casa colocam cuidadores em seu lugar que somente cuidam da parte física (6).

- Não ofereça mamadeira e nem desmame seu bebê: Com o retorno ao trabalho, muitas mães se preocupam porque os bebês não aceitam a mamadeira e tentam todo tipo de bicos e leites artificiais diferentes. Às vezes até mesmo o pediatra sugere o desmame. É situação comum bebês que rejeitam veementemente a mamadeira, isso é sinal de inteligência, pois a primeira reação da natureza é mesmo rejeitar outros tipos de alimentação que não o seio materno.

Na verdade é um erro acreditar que o bebê precisa de uma mamadeira quando você retorna ao trabalho e que você deve acostumá-lo com antecedência. Se você treiná-lo a acostumar-se com uma mamadeira, o que provavelmente acontecerá é um desmame precoce por confusão de bicos. Sempre ouvimos uma história ou outra de bebês que não desmamaram, mas esse risco é grande e não há como prever, então é melhor prevenir e alimentar seu bebê com um copinho.

Além disso, é preciso citar que, mesmo com a oferta de leite materno ordenhado em uma mamadeira, muitos bebês rejeitam. Dr. González (10) explica esse fenômeno:

“E a razão é que os bebês não são bobos. Se a mãe não está em casa e a avó vem com uma mamadeira (ou melhor ainda, com um copinho para evitar confusão de bicos), duas coisas podem acontecer. Primeiro, se o bebê não estiver com fome, ele provavelmente não aceitará nada. Ele vai compensar isso quando a mãe retornar. Muitos bebês dormem a maior parte do tempo quando estão distantes das mães, e então vão mamar à noite. A outra possibilidade é, se o bebê estiver com fome (e especialmente se tiver leite materno na mamadeira), ele poderá tomá-la e pronto. E ele deve estar pensando: ‘Bem, ela não está aqui, então é isso que eu tenho que fazer’. Mas se a mãe está em casa e o bebê pode ver e sentir o peito, como ele vai aceitar um copinho ou mamadeira? Ele deve pensar: ‘Minha mãe deve estar louca, ela tem o peito aqui e quer me dar essa geringonça?’ E ele insiste: ‘É o peito ou nada!’ ”

Se o bebê é novinho e não há possibilidade de ordenha de leite materno, pode-se tentar uma alimentação mista, com a mãe amamentando antes e depois do trabalho e o bebê tomando leite artificial durante o dia. Muitas mães encontram soluções satisfatórias melhores que oferecer leite artificial: algumas levam seus bebês para o trabalho (se o ambiente permite), outras trabalham meio período, algumas conseguem que o bebê seja levado a elas para serem amamentados, outras ordenham e estocam seu leite. Se o bebê já tiver mais de seis meses de idade, pode-se planejar que o bebê se alimente de comida na sua ausência, embora há de se ter cautela se forem os primeiros alimentos.

A amamentação é parte essencial da vida do bebê até 2 anos no mínimo e auxilia na separação parcial entre mãe e filho quando ela retorna ao trabalho fora de casa. Pode-se planejar ordenha de leite materno e continuação da amamentação nos períodos que mãe e filhos estão juntos. O desmame junto com o retorno ao trabalho pode ser bem traumático para o bebê (10):

“Quando você sai para o trabalho (ou quando sai com o cachorro), o seu bebê não sabe onde você está e quanto tempo você vai demorar. Ele ficará muito assustado e chorará como se você fosse deixá-lo para sempre. Vai levar alguns anos até que seu bebê seja capaz de ficar longe de você sem chorar e antes que ele entenda que a ‘mamãe vai voltar logo’. Toda vez que você voltar, vai abraçá-lo, amamentá-lo e o bebê pensará: ‘outro alarme falso!’. Mas se você retornar ao trabalho e tentar desmamá-lo abruptamente e ao mesmo tempo, quando você volta do trabalho, o bebê pede para mamar e você recusa, o que o bebê irá pensar? ‘Ela me abandonou porque não gosta mais de mim.’ Esse é o pior momento para o desmame.”

- Então como fica a alimentação do bebê? Se você volta a trabalhar quando o bebê tiver menos de 1 ano, planeje com antecedência como ordenhar (alugue ou compre uma bomba elétrica), estocar e oferecer o leite materno para o bebê. Veja orientações na referência 11. Use um copinho ou mamadeira-colher para oferecer o leite ordenhado e não mamadeira. Se ele tiver mais de 1 ano, pode alimentar-se de sólidos e mamar quando estiverem juntos.

- Tenha mente aberta para cama familiar: Alguns bebês passam a mamar à noite com mais frequência para compensar as mamadas perdidas durante o dia quando a mãe volta a trabalha fora. Isso é chamado ‘amamentação em ciclo reverso’ e é um mecanismo de sobrevivência de nossa espécie. Nesses casos, praticar cama compartilhada e amamentar deitada pode ajudar a saciar as necessidade do bebê ao mesmo tempo em que os hormônios da amamentação auxiliam mãe e bebê a adormecerem novamente (12-14). O bebê fica mais tranquilo ao saber que, mesmo passando o dia todo longe da mãe, à noite estará com ela. A proximidade com o corpo materno sintoniza as pautas de sono do bebê com as da mãe e regula o seu nível de excitação, temperatura corporal, o ritmo metabólico, níveis hormonais, ritmo cardíaco, respiração e sistema imunológico, pois o efeito anti-estresse do estreito contato físico libera ocitocina, que fortalece o sistema imunológico do bebê (12-15).

Nem todas as famílias adotam cama compartilhada por receio de ser difícil conseguir que a criança durma sozinha depois. A reflexão aqui é de que as necessidades mais intensas de proximidade se dão na primeira infância: bebês têm necessidade de proximidade com a mãe (15) e a cama compartilhada responderia a essas necessidades. Mais tarde, seria um outro momento, com o bebê com outra cognição, maturidade e evolução.

Se a criança dorme longe dos pais à noite, fica longe durante o dia e, principalmente, se o bebê não mama mais no peito (portanto não tem o contato íntimo da amamentação), precisa de alguma compensação afetiva e se beneficiaria da proximidade da cama familiar. O mesmo acontece se o bebê estiver em processo de angústia da separação, que se inicia entre 6-8 meses e vai até 2-3 anos, com altos e baixos.

Quando os bebês sinalizam que precisam de contato corporal com os pais, mostrar empatia, entender e acolher é excelente, pois a criança que se recusa a dormir pode estar precisando de mais contato corporal com o pai e a mãe. É uma necessidade primitiva da criança ter contato íntimo com a pele do corpo de outra pessoa enquanto adormece, mas isso se choca com todas as regras culturais que exigem que as crianças durmam sozinhas (16).

- Procure seus direitos de licença maternidade de seis meses, negocie com o chefe, tire férias junto com a licença, adie alguns planos, trabalhe meio período, procure um emprego mais flexível, procure trabalhos que possa fazer em casa.

Esses dois meses a mais fazem toda a diferença para a criança: a amamentação exclusiva por 6 meses diminui o risco de alergias (17), dermatite atópica (18), asma (19), infecções gastrointestinais (20), doenças contagiosas (21), otite média, infecções respiratórias agudas, gastroenterite, infecções urinárias, conjuntivite e candidíase oral (22). A introdução de alimentos aos 6 meses é feita na hora ideal, quando o bebê já tem capacidade fisiológica para assimilar os alimentos novos (23). Muitos bebês têm reações indesejadas com a introdução de alimentos antes dos seis meses, como prisão de ventre, refluxo, cólicas e é claro que tudo isso atrapalha o sono. Se não tem outra solução, invista na ordenha, estoque e oferecimento de leite materno para o bebê até os 6 meses. Veja na referência 11 como ordenhar e estocar o leite materno e utilize um copinho ou mamadeira-colher para oferecer ao seu bebê. Muitas mães que trabalham podem e devem investir na amamentação exclusiva por 6 meses e esse trabalho todo compensa.

- Lidando com a separação: entenda a reação do bebê e mostre empatia (apesar do cansaço): sua volta ao trabalho e afastamento é algo bem complicado para um bebê, porque é você a mãe dele, você é insubstituível da forma que você é para seu filho. Outros cuidadores irão criar vínculos afetivos com seu bebê, mas a mãe tem outro peso. Entenda a amamentação em ciclo reverso como uma forma de compensação afetiva. Entenda e acolha as necessidades do bebê (que são simples, mas são intensas, de muito contato íntimo, colo, peito). Esse acolhimento é essencial para o desenvolvimento de sua autoestima no futuro.

O padrão de sono do bebê com outro cuidador pode mudar e essa mudança pode interferir no sono noturno. O bebê cansado (caso não tire boas sonecas na escolinha, por exemplo) está secretando mais cortisol, que causa agitação fisiológica, irritação e dificuldades de adormecer. A exaustão é contraproducente com o sono, pois quanto mais exausto, mais lutará contra o sono e mais acordará à noite. Se as sonecas estão muito curtas na escola é comum que o sono noturno também seja influenciado. Orientar as cuidadoras a esticarem as sonecas, explicar a importância das sonecas durarem pelo menos 1 hora para serem restauradoras, usar algum barulho estático ao fundo para ajudar nas sonecas são atitudes que você pode tomar.


Referências:

1- A natureza do sono dos bebês
2- William Sears, Martha Sears, Robert Sears, James Sears. The Baby Sleep Book: The Complete Guide to a Good Night's Rest for the Whole Family. Little, Brown and Company; 1 edition, 2005.
3- Haley DW, Cordick J, Mackrell S, Antony I, Ryan-Harrison M. Infant anticipatory stress. Biol Lett. 2010 Aug 25.
4- Sears, W. A ciência diz: choro prolongado no bebê pode ser prejudicial ao desenvolvimento cerebral- http://www.askdrsears.com/html/10/handout2.asp
5- Bowlby, J. Attachment [Vol. 1 of Attachment and Loss]. London: Hogarth Press; New York, Basic Books; Harmondsworth, UK: Penguin. 1982.
6- José Martins Filho. A Criança Terceirizada. Os descaminhos das relações familiares no mundo contemporâneo. Editora Papirus, 2007.
7- Pantley, E. Soluções para noites sem choro. Editora M Books, 2005.
8- Pantley. E. No-Cry Separation Anxiety Solution: Gentle Ways to Make Good-Bye Easy from Six Months to Six Years. Editora McGraw-Hill, 2010.
9- Maselko J, Kubzansky L, Lipsitt L, Buka SL. Mother's affection at 8 months predicts emotional distress in adulthood. J Epidemiol Community Health. 2010 Jul 26.
10- Carlos González. My Child Won't Eat!: How to Prevent and Solve the Problem (La Leche League International Book). 2005.
11- Extração e Conservação do Leite Materno: http://www.aleitamento.com
12- McKenna JJ, Why babies should never sleep alone: a review of the co-sleeping controversy in relation to SIDS, bedsharing and breast feeding, Paediatr Respir Rev. 2005 Jun;6(2):134-52.
13- McKenna JJ, Mosko SS, Richard CA. Bedsharing promotes breastfeeding. Pediatrics. 1997 Aug;100(2 Pt 1):214-9.
14- Mosko S, Richard C, McKenna J, Drummond S, Mukai D.; Mosko S, Richard C, McKenna J. Maternal sleep and arousals during bedsharing with infants. Sleep. 1997 Feb;20(2):142-50.
15- Margot Sunderland, The Science of Parenting. DK Publishing Inc. 2006.
16- Freud, Anna: Infância normal e patológica: Determinantes do Desenvolvimento, 4ª. ed., Ed. Guanabara, RJ: 1987.
17- Anderson J, Malley K, Snell R. Is 6 months still the best for exclusive breastfeeding and introduction of solids? A literature review with consideration to the risk of the development of allergies. Breastfeed Rev. 2009 Jul;17(2):23-31. Review.
18- Yang YW, Tsai CL, Lu CY. Exclusive breastfeeding and incident atopic dermatitis in childhood: a systematic review and meta-analysis of prospective cohort studies. Br J Dermatol. 2009 Aug;161(2):373-83. 2009 Feb 23. Review.
19- Fiocchi A, Assa'ad A, Bahna S; Adverse Reactions to Foods Committee; American College of Allergy, Asthma and Immunology. Food allergy and the introduction of solid foods to infants: a consensus document. Adverse Reactions to Foods Committee, American College of Allergy, Asthma and Immunology. Ann Allergy Asthma Immunol. 2006 Jul;97(1):10-20; quiz 21, 77.
20- Kramer MS, Kakuma R. Optimal duration of exclusive breastfeeding. Cochrane Database Syst Rev. 2002;(1):CD003517. Review.
21- Duijts L, Jaddoe VW, Hofman A, Moll HA. Prolonged and exclusive breastfeeding reduces the risk of infectious diseases in infancy. Pediatrics. 2010 Jul;126(1):e18-25. 2010 Jun 21.
22- Ladomenou, F., Moschandreas J., Kafatos A., et al. Protective effect of exclusive breastfeeding against infections during infancy: a prospective. Study. Arch Dis Child. Published online September 27, 2010.
23- Kramer MS, Kakuma R. The optimal duration of exclusive breastfeeding: a systematic review. Adv Exp Med Biol. 2004;554:63-77.

Dra. Andréia K. Mortesen, neurocientista
Publicado originalmente no Guia do Bebê, do UOL, em 9/11/2010

Adaptação a um novo cuidador em 4 passos

Por:Tracy G. Cassels
Tradução e adaptação: Gabriela de O. M. da Silva
Link para o original: http://evolutionaryparenting.com/transition-to-a-new-caregiver/

Uma das coisas mais difíceis para os pais fazerem é deixar o bebê nas mãos de outra pessoa. Mesmo quando esse outro, é alguém da família. Separar-se do bebê, pela razão que for, pode ser muito difícil, e quando o tempo de separação precisa ser longo (um dia de trabalho, por exemplo), fica mais complicado ainda. Uma parte disso vem do fato de ser muito comum ouvirmos histórias de bebês que começam a gritar, chorando, assim que os pais saem. Ao final do dia descobre-se que passaram horas gritando, até finalmente desistirem. Os cuidadores sempre afirmam que é comum e vai passar, mas muitos de nós temos a preocupação com o que vai acontecer com a confiança que nossos filhos depositam em nós. Algumas crianças se adaptam rapidamente, sem muitos problemas, mas outros sofrem bastante e nós, enquanto pais, pressentimos o que vai acontecer antes mesmo de começarem esses períodos de separação. E isso pode gerar muito estresse para nós e nossos filhos.

Mas o que podemos fazer? Vou indicar quatro passos que os pais podem seguir a fim de ajudar na adaptação dos bebês a um novo cuidador. [Estas sugestões podem não funcionar para todos, especialmente se o bebê está passando por uma fase forte de ansiedade da separação, então nesse caso cabe a cada família decidir como levar em conta suas necessidades e as necessidades do bebê.] Os passos partem do pressuposto de que você vai ter um cuidador em casa ou encontrou uma creche que permite sua presença por uma boa quantidade de horas durante algumas semanas, ajudando na adaptação. Nem todas as creches permitem isso(infelizmente). Se você tem uma criança que reage bastante às separações, seria bom ter isso como critério na hora de escolher a creche, se possível.


1º passo:Todos juntos
Um dos passos mais importantes para que sua criança sinta-se confortável é garantir que haverá uma exposição ao novo cuidador, estando você junto com ela. Conforme essa nova pessoa se torna uma presença constante na vida do bebê, ele tem mais chances de sentir-se confortável sob os cuidados dela quando você estiver ausente.

Obviamente,o tempo que demora para que isso ocorra varia de uma criança para outra, então quanto mais cedo começarem, melhor. A alimentação é uma das formas que você pode usar para ajudar nessa transição, principalmente se o cuidador vai  alimentar o bebê na sua ausência. Se você amamenta e vai deixar leite materno ordenhado, você pode observar como o bebê reage ao ser alimentado pelo cuidador, mesmo que para isso você comece segurando-o no seu colo, e o cuidador oferecendo o leite (ou vice-versa).
Outras dicas que ajudam: ter a presença do cuidador enquanto você troca a roupa ou a fralda do bebê, e tentar que essa pessoa faça a troca por algumas vezes na sua presença; deixar que o cuidador o segure no colo enquanto você estiver por perto pelo tempo que o bebê permitir; e deixar que o cuidador tente acalmar seu bebê no próprio colo, apenas ouvindo sua voz, antes de devolvê-lo imediatamente para os seus braços.


2º passo: Separações rápidas até o cômodo ao lado
O próximo passo é tentar separações breves, de forma que seu bebê consiga escutar o som da sua voz explicando que está apenas indo ao cômodo ao lado e já vai voltar.Você pode ir aos poucos aumentando o tempo que permanece fora do campo de visão dele, mas sempre retorne assim que ele chamar por você. Comece com cinco minutos (ou menos, se necessário), e tente deixar a criança com o novo cuidador(em cuja presença ela já deve estar se sentindo confortável a essa altura),enquanto você sai do ambiente. Se em algum momento a criança chamar por você,volte imediatamente para  confortá-la, e só tente repetir depois de um tempo (pelo menos meia hora) a separação. Vá aumentando os intervalos de tempo no ritmo que for mais confortável para você e o bebê, mas não aumente muito mais que 5 minutos a cada dia.

Além disso, você pode também começar a aumentar o tempo que demora para retornar quando a criança se mostra chateada. Nos primeiros dias, retorne imediatamente.Seu filho precisa acreditar fortemente que você sempre vai retornar para ficar com ele. Contudo, assim que começar a aumentar o tempo que fica no outro cômodo, você pode também aguardar um minuto para ver se o cuidador consegue acalmá-lo sem a sua presença. Contudo, não demore mais que alguns minutos, pois isso pode tornar negativa para o bebê a experiência de ficar com o cuidador, e assim tornar mais difícil o processo de criação de vínculo afetivo entre eles. Recomendo anotar o tempo que você consegue se distanciar. E tenha em mente que vão acontecer altos e baixos durante a adaptação, por isso não se assuste. Não é porque em um dia seu filho conseguiu ficar 10 minutos longe, e no dia seguinte apenas 5, que você vai pensar que não estão fazendo progressos, é apenas um solavanco na estrada.


 3º passo: Separações rápidas, saindo de casa
Assim que você conseguir ficar longe por 30 minutos sem que seu filho o chame de volta,pode começar a sair de casa (ou permitir que a criança e o cuidador saiam para dar um volta, se for o caso do cuidador ser uma babá ou membro da família). Isso quer dizer que não conseguirá retornar imediatamente no caso da criança ficar triste e chamar por você. Explique isso a ele(a). Não importa o quão novinhos sejam, se você criar o hábito de explicar esse tipo de coisa desde cedo, vai ser bastante útil mais adiante, e se seu filho já puder entender mesmo que parcialmente, já vai ajudar. Algumas crianças irão se sentir melhor com um novo cuidador em um ambiente diferente, enquanto outras preferirão permanecer no mesmo ambiente (em casa, por exemplo). Você precisa saber como seu filho reage e fazer os arranjos adequados às necessidades dele(a) se for possível.

 Mais uma vez, você vai aos poucos aumentando o tempo de separação, começando com os 30 minutos que vocês já conseguiam ficar longe dentro de casa. Isso permite ao novo cuidador ter tempo para acalmar acriança no caso de ficar chateada ou começar a chorar. Recomendo sempre que você esteja com um telefone à mão para conseguir ser alcançado. Se o bebê começar a ficar histérico, é melhor dirigir-se diretamente a ele: deixe que o cuidador coloque seu filho no telefone para que você possa explicar que está voltando imediatamente. Se isso acontecer, não tente sair novamente naquele dia, deixe para o dia seguinte, e permaneça ao lado do cuidador por um tempo extra, permitindo que a criança se acalme e fique novamente segura na presença dele. Mais uma vez, pode haver altos e baixos no processo, e a melhor coisa que você pode fazer para a sensação de segurança do seu bebê, é estar por perto e atendê-lo assim que precisar de você. Antes de ir para o passo número 4, você já deve estar conseguido ficar longe por pelo menos metade do tempo em que ficará no trabalho.


4ºPasso: Separações longas, mas podendo retornar rapidamente
Assim que vocês conseguirem passar metade do tempo do seu dia de trabalho com poucas dificuldades, você pode começar a tentar aumentar o tempo de separação para o horário integral. Contudo, o fundamental é que você possa retornar rapidamente caso algo dê errado. Tenha certeza de que não ficará em um local a 1 hora de distância, mas sim de preferência 10 minutos apenas, para que o cuidador consiga entrar em contato caso seu filho fique chateado.
A chave para o sucesso dessa etapa é garantir que você irá responder ao chamado do bebê o mais rápido possível nesse período de longa ausência. Provavelmente você não vai conseguir fazer isso sempre assim que voltar ao trabalho, então é preciso construir na criança esse senso de segurança. Além disso, ele vai aprender que o cuidador vai conseguir trazer de volta a mamãe ou o papai quando for mesmo necessário, e isso pode ajudar a fortalecer o vínculo de confiança entre eles. Mas ao final desta fase (que pode não demorar muito, ou demorar uma semana ou mais), seu filho deve sentir-se seguro e confiante com o novo cuidador, e seguro e confiante de que você enquanto pai ou mãe ainda estarão presentes quando for extremamente necessário para ele.


                                                                               ***


O ponto principal nessa adaptação é seguir o ritmo da criança, oferecendo sempre segurança e evitando levá-los para muito longe da zona de conforto. Eles já estão sendo forçados a ficar um pouco mais distante do que é mais seguro para eles, o que é normal (afinal de contas, é isso que desenvolver qualquer habilidade requer),mas ir muito longe ou muito rápido pode ser traumático. Permitir que a própria criança dê os passos necessários para o seu conforto em um ambiente diferente,pode facilitar bastante a situação para todos.

Reforço que sei que isso pode não ser possível sempre. Ou necessário. Algumas crianças simplesmente se adaptam muito mais rápido que outras e demoram poucos dias para se acostumarem a alguém diferente. Ótimo! Isso é para as crianças que não se encontram nessa situação. Contudo, o problema dessa possibilidade é a questão central. Frequentemente as creches não querem a presença dos pais, e têm a crença equivocada de que as crianças se adaptam rapidamente, mas sabemos que isso não é o caso de muitas crianças que começam a mostrar aumento na resposta ao estresse em ambientes de creche de período integral, mesmo depois que chegam na fase de parar de chorar.[1][2].  Crianças com apego seguro aos pais não mostram essas respostas ao estresse quando um deles está presente na fase de adaptação, mas essas respostas aparecem assim que o responsável precisa ir embora (nesses estudos o período de adaptação era de 3 dias). Por isso um período mais longo de adaptação pode ajudar. Se possível, procure uma creche que ofereça essa possibilidade, ou uma babá que possa fazer esse tipo de adaptação caso necessário.

Outro problema é que muitas famílias simplesmente não têm o tempo necessário para aplicar esses quatro passos, já que duram um período de tempo extenso. Isso é uma questão predominante nos Estados Unidos, onde as licenças podem ser de 6 semanas (ou ainda mais curtas). Não há tempo para se conectar e depois  fazer uma adaptação. De certa forma, bebês tão novinhos se adaptam a novos cuidadores facilmente, então a dificuldade passa a ser encontrar um ótimo cuidador. A grande maioria das creches nos Estados Unidos não são boas, infelizmente, e não proporcionam a atenção individualizada de que os bebês pequenos precisam. O outro lado disso, é a luta por licenças maternidade mais longas.

Independente da sua situação, o mais importante é encontrar um cuidador em que você confie e que trate seu bebê com amor e respeito. Isso pode significar que ele(a) irá te ligar várias vezes durante as primeiras etapas, mas é parte da adaptação e de ajudar seu filho a saber que você estará por perto quando for necessário. Há excelentes cuidadores por aí, só é preciso procurar um pouco! Boa sorte!

[1] Ahnert L, Gunnar MR, LambME, Barthel M.  Transition to child care: associations with infant-motherattachment, infant negative emotion, and cortisol elevations.  ChildDevelopment 2004; 75: 639-650.
[2] Watamura SE, Donzella B,Alwin J, Gunnar MR.  Morning-to-afternoon increases in cortisolconcentrations for infants and toddlers at child care: age differences andbehavioral correlates.  Child Development 2003; 74: 1006-1020.

quinta-feira, 16 de julho de 2015

As mulheres podem amamentar - como as mudanças culturais as fizeram duvidar disso

Por Fernanda Rezende Silva
Revisão: Juliana Gieppner, Gabriela Silva e Luciana Freitas


Era uma vez um país chamado ABC onde as mulheres amamentavam seus bebês com naturalidade - elas não se sentiam constrangidas por amamentar em público, mesmo se fosse um bebê grande ou uma criança, pois todas faziam isso. Era comum ver crianças de 7 anos que ainda mamavam e ninguém via problemas nisso.

Para amamentar as mães não precisavam de relógios, regras ou artefatos - davam o peito sempre que estavam com seus filhos e eles pediam, e isso não era motivo para se sentirem presas ou cansadas (1). Elas acreditavam no poder do próprio leite pois praticamente todas as mulheres próximas amamentaram, então elas sabiam que não ser capaz de amamentar era algo tão raro quanto uma criança nascer sem um dedo, por exemplo.

Quando uma mulher engravidava ela já tinha a experiência de ter visto outras mães amamentando e já tinha aprendido também, pelo exemplo, que um recém-nascido depende 100% da mãe, então logo se formava sua rede de apoio para o puerpério. Estar com o bebê sempre no colo e dormir junto com o bebê (2) eram coisas tão naturais quanto a própria amamentação.

Num certo dia chega neste país a notícia sobre um artefato que prometia acabar com o choro dos bebês instantaneamente, mesmo sem a mãe do bebê por perto. Diziam que o tal artefato já era usado no "estrangeiro" com sucesso - parecia ser algo tão inovador quanto a televisão ou a internet. Tanta propaganda fez com que vários pais e mães resolvessem testar o objeto, com o inocente pensamento "se for ruim a gente para".

No "estrangeiro" já havia indústrias lucrando com as vendas do artefato, mas elas queriam mais: o departamento de marketing estava encarregado de convencer mais pessoas a usarem o produto e para cumprir esta meta criaram dois mitos, que alavancaram as vendas: chupar chupeta é melhor que chupar dedo (3); bebê que usa chupeta fica menos grudado na mãe e cresce mais "independente".

Durante alguns meses parecia estar tudo bem lá no país ABC, o país do início do texto, mas depois de um tempo já se percebia que a maioria dos bebês haviam desmamado precocemente (antes de 2 anos) (5, 6). Estes bebês pararam de mamar no peito mas continuaram precisando de leite, o que fez aumentar o uso (e as vendas) de mamadeiras.

Algumas pessoas desconfiaram que chupetas e mamadeiras fossem culpadas pelos desmames, mas o efeito nem sempre era imediato, então a maioria das pessoas não fazia essa associação - logo começaram a culpar as mães e duvidar da capacidade delas de produzir leite. As pessoas não tinham explicação para o novo fenômeno "desmame precoce", então quando um bebê desaprendia a mamar no peito diziam que o leite da mãe tinha secado (7) e inventavam as mais fantasiosas histórias para justificar isso, por exemplo: bebê arrotou no peito e isso fez o leite secar, a mãe voltou a menstruar por isso o leite secou, a mãe ficou sem leite porque passou uma grande tristeza (8).

Conforme o tempo foi passando as mães já não tinham muitos exemplos de mulheres próximas que amamentaram e isso fez surgir um novo problema: pega errada (9). Elas colocavam seus bebês para mamar no peito como se fossem tomar mamadeira, os bebês não conseguiam abocanhar corretamente o peito, o uso de chupetas fazia a pega piorar muito, os seios feriam e muitas desistiam pensando "amamentar é muito doloroso, difícil" - esta era a mensagem que infelizmente seria passada para as próximas gerações, tanto que algumas mulheres decidiam nem tentar e já levavam mamadeiras para a maternidade.

Junto com a imagem do "bebê independente" passaram também a vender a ideia de que bebês deveriam dormir em berços, mas para que esta indústria tivesse sucesso também precisavam de um bom argumento, então mais um mito foi criado: dormir com os pais é perigoso, todos os bebês devem dormir em berços (hoje sabemos que é uma ideia tão sensacionalista quanto dizer "uma criança morreu afogada numa piscina, então nenhuma criança deveria entrar em piscinas") (10). E mais um mito colaborou com as vendas de berços: se a mãe amamenta deitada causa otite no bebê (11).

As indústrias estavam rindo à toa, mas não contavam com um detalhe: a fisiologia da raça humana não mudaria tanto em tão pouco tempo, o que significa que os bebês não aceitaram facilmente este novo cenário: eles precisavam estar com suas mães, dormir com elas, mamar também de madrugada (12). Como as mães já não podiam dormir com seus bebês, ficavam extremamente cansadas, ansiavam pelo dia em que seus filhos dormiriam a noite toda (13), e isso criou mercado para "especialistas" do sono - muitas técnicas foram inventadas para tentar enquadrar os bebês que resistiam a toda essa "modernidade". E como estas técnicas poderiam atrapalhar ainda mais a amamentação? Uma delas se baseava no mito de que bebê novinho só chora por fome. Já não havia muitos exemplos de bebês amamentados, então também se perderam as referências sobre os motivos do choro - cada vez que o bebê chorava aparecia uma "boa alma" para dizer: "você tem pouco leite", "seu leite é fraco" (14). O mito do leite fraco surgiu com força total, daí veio a ideia "empanturre esse bebê com leite artificial para ele não acordar à noite". Durante alguns meses a técnica funcionava - o bebê ia dormir realmente empanturrado (como um adulto ao comer uma feijoada) e aí o bebê não acordava nem quando precisava (ex.: apneia em bebê empanturrado pode ser fatal).

Neste ponto da história a inversão já estava feita: as pessoas passaram a considerar normal o comportamento dos bebês de mamadeira, e não o dos bebês de peito. Ficavam com dó do bebê se uma mãe dizia que o bebê não pegou chupeta. Achavam estranho ver crianças com mais de um ano mamando, e aí as mães dos bravos bebês que faziam aniversário mamando se viam na obrigação de desmamar, pois "é feio amamentar bebê grande", "precisa ficar independente", "leite materno vira água depois de um ano" (15). Ah, essa do leite virar água é um mito descarado - as mães passaram a acreditar que mais cedo ou mais tarde todo bebê tomaria mamadeira - êxtase para a indústria de leite artificial. Surgiu a cárie de mamadeira, e junto com ela o mito da cárie do leite materno (16), pois as pessoas passaram a colocar tudo no mesmo bolo, assim como fizeram ao criar a nova regra "todo bebê precisa arrotar depois de mamar": quando se toma mamadeira entra ar, então precisa sim arrotar, mas mamando no peito com a pega correta isso não acontece, por isso essa história do arroto é mais um mito e só fez aumentar o cansaço das mães que tentavam amamentar.

Chegamos no ponto mais triste da história: a grande maioria dos bebês usavam chupeta e mamadeira e desmamavam "sozinhos" por volta de 3 meses. A imagem de um bebê maior mamando no peito passou a ser associada a pobreza (coitada dessa mãe, não pode comprar leite). Apenas 10% dos bebês chegavam a 6 meses com amamentação exclusiva e os efeitos disso eram notáveis: crianças adoecendo com frequência, aumento da mortalidade. Problemas respiratórios passaram a ser considerados "normais", assim como o uso de aparelhos ortodônticos - as pessoas chegavam a dizer "ah, hoje em dia todo mundo usa aparelho, né", sem pararem para pensar que até algumas décadas atrás estes problemas não eram comuns.

É possível reverter este cenário? Será que nos dias de hoje, com a maioria das mães trabalhando fora, é possível amamentar como no início do texto? É possível sim, e este resgate da amamentação já está começando. Vamos quebrar mais um mito? Segundo Gonzalez a média de duração da amamentação é maior entre as mães que trabalham fora do que entre as mães que passam o dia todo com seus filhos (17). Será que é porque as mães que trabalham fora sentem saudades de seus filhos e resistem mais ao desmame? Talvez seja, mas o detalhe mais importante desta pesquisa é comprovar que é possível sim continuar amamentando mesmo trabalhando fora, e se há mulheres seguindo este caminho então podemos afirmar que o resgate da amamentação já começou.

Referências:
1 - Livre Demanda - http://grupovirtualdeamamentacao.blogspot.com.br/2014/07/livre-demanda-o-que-e-realmente-dr.html
2 - Eu deveria deixar meu bebê dormir comigo? http://grupovirtualdeamamentacao.blogspot.com.br/2015/03/eu-deveria-deixar-meu-bebe-dormir-comigo.html
3 - Se o bebê está chupando o dedo, o que ele pode estar querendo dizer? http://grupovirtualdeamamentacao.blogspot.com.br/2015/01/se-o-bebe-esta-chupando-o-dedo-o-que.html
4 - Cama ou quarto compartilhado: promovendo a independência
http://grupovirtualdeamamentacao.blogspot.com.br/2015/07/cama-ou-quarto-compartilhado-promovendo.html
5 - O que acontece com os músculos bucais quando um bebê usa qualquer bico artificial (chupetas, mamadeiras, bicos de silicone) - http://grupovirtualdeamamentacao.blogspot.com.br/2015/03/o-que-acontece-com-os-musculos-bucais.html
6 - A CHUPETA: O que toda mãe (e pai) deveria saber antes de oferecer uma chupeta para o seu bebê - http://grupovirtualdeamamentacao.blogspot.com.br/2014/07/a-chupeta-o-que-toda-mae-e-pai-deveria.html
7 - Mamadeira contém “substância” que seca o leite materno - http://grupovirtualdeamamentacao.blogspot.com.br/2014/07/mamadeira-contem-substancia-que-seca-o.html
8 - Passei por uma situação de estresse e meu leite acabou!
http://grupovirtualdeamamentacao.blogspot.com.br/2014/06/passei-por-uma-situacao-de-estresse-e.html
9 - A importância da correção da pega - http://grupovirtualdeamamentacao.blogspot.com.br/2014/06/a-importancia-da-correcao-da-pega.html
10 - Normas gerais de segurança da cama compartilhada - http://grupovirtualdeamamentacao.blogspot.com.br/2014/07/normas-gerais-de-seguranca-da-cama.html
11 - Pode amamentar deitada? http://grupovirtualdeamamentacao.blogspot.com.br/2014/06/pode-amamentar-deitada.html
12 - Porque a amamentação noturna é tão importante - http://grupovirtualdeamamentacao.blogspot.com.br/2014/06/porque-amamentacao-noturna-e-tao.html
13 - 8 fatos sobre o sono dos bebês que todo pai e toda mãe deveriam saber - http://grupovirtualdeamamentacao.blogspot.com.br/2014/08/8-fatos-sobre-o-sono-dos-bebes-que-todo.html
14 - Você está amamentando e seu peito está sempre murcho? Que maravilha!!! http://grupovirtualdeamamentacao.blogspot.com.br/2014/09/voce-esta-amamentando-e-seu-peito-esta.html
15 - Como o leite materno vira água e a vaca passa a fazer melhor leite que o seu - http://grupovirtualdeamamentacao.blogspot.com.br/2015/07/como-o-leite-materno-vira-agua-e-vaca.html
16 - Cáries e Leite Materno - http://grupovirtualdeamamentacao.blogspot.com.br/2015/06/leite-materno-nao-causa-caries.html
17 - Trabalho e Amamentação, página 112 do livro "Manual Prático de Aleitamento Materno", Dr. Carlos Gonzalez

quarta-feira, 15 de julho de 2015

Cama ou quarto compartilhado: promovendo a independência

Link para o texto original em inglês: http://www.evolutionaryparenting.com/?p=63
Tradução: Gabriela de O. M. da Silva

Não é segredo que sou uma GRANDE fã da cama compartilhada. Além da amamentação, eu acho que é a melhor coisa que você pode fazer pelo seu bebê. E ainda assim, quando você comenta com alguém a respeito de fazer essa prática, sobrancelhas se levantam mais rápido do que com uso de Botox.

Geralmente as pessoas começam com um olhar de espanto e logo perguntam quando você pensa em parar com isso, como se fosse um hábito desagradável, comparável a fumar ou deixar sua criança fazer xixi no chão. Se você questionar essas pessoas a respeito de porquê pensam que é um hábito nocivo, na maioria das vezes é devido ao fato de acreditarem que dormir com seu bebê vai torná-lo menos independente, mais carente, e assim meio que inútil para o restante da vida. Afinal, nós todos queremos que nossos filhos saiam para enfrentar o mundo, e se você tem uma criança que é muito ligada ao pai ou à mãe, como ela poderá ser um indivíduo com personalidade própria? E compartilhar a cama é visto como uma das coisas que tornará a criança dependente da mamã e do papai para sempre. Certo? Bem, se existissem evidências de que esse é realmente o caso, eu não estaria escrevendo esse artigo agora, estaria? Não, e na verdade parece que é justamente o contrário do que muita gente acredita.

Aqui vamos nós… Crianças que dormem em cama/quarto compartilhado tendem a ser – veja só – MENOS medrosas e MAIS independentes do que aquelas que dormem sozinhas. Por alguma razão, as pessoas começaram a acreditar que os bebês precisavam ser mais independentes, e que aprender a dormir sozinhos desde o primeiro dia de nascidos seria uma forma de fazer isso. Primeiramente, é uma besteira enorme dizer que os bebês precisam ser independentes – eles não podem ser, afinal, são bebês! Eles sequer sabem que existem até completarem um aninho de vida ou mais, então como podem ser independentes antes disso?  Contudo, conforme as crianças crescem, elas se tornam (felizmente) mais independentes, e nessa fase são as crianças que dormiram com os pais (ou continuam dormindo) e receberam toneladas de carinho e contato corporal que se mostram as mais destemidas, enquanto as que foram deixadas sozinhas para serem "independentes" enquanto bebês tendem a ser mais tímidas, ansiosas e amedrontadas. (Eu adoro ter uma parte de mim que ama esse paradoxo porque é completamente intuitivo quando você pensa pelo ponto de vista de um bebê. É exatamente o que a maioria das pessoas não fazem – elas pensam nos bebês como se fossem adultos, com pensamentos e crenças de adultos, apenas em uma escala menor.)

Parte da explicação desse paradoxo vem do apego – bebês que dormem com os pais tendem a ser mais apegados às mães, e pesquisas mostraram que crianças que são mais apegadas exploram mais e são mais independentes que aquelas que não têm apego com os pais. Bem, é importante notar que pode ser que os pais façam cama/quarto compartilhado por serem mais responsivos aos filhos, e não seja o fato de dormir com o bebê em si que o torne mais apegado/independente. Contudo, existem outros motivos para se acreditar que esse arranjo para dormir promova sim independência.
Tudo gira em torno dos hormônios. Como um dos milhares de apontamentos do Dr. Sears, a hora de dormir à noite é um dos momentos mais estressantes para um bebê. A escuridão e o silêncio da casa são na verdade bastante assustadores para crianças novas, que foram acostumadas com som estático constante dentro do útero (por exemplo as batidas do coração da mamãe) e a sensação de estar sendo mantido apertado, segurado forte. Assim, ser colocado longe de outras pessoas (e sem contato humano) aumenta a resposta ao estresse nessas crianças. O contato entre mãe e bebê a qualquer momento do dia reduz o estresse do pequeno através da liberação de ocitocina, um hormônio que é conhecido por promover contato e comportamento amoroso (também conhecido como hormônio do "aconchego"), especialmente quando há contato pele a pele (ex., Uvnas Moberg, 2003).  Dormir com o bebê também diminui no corpinho dele os níveis do hormônio do estresse chamado cortisol (Waynforth, 2007).  Então, ao fazer cama/quarto compartilhado você dá ao seu bebê uma carga de hormônios que lhe trarão prazer e são relacionados a ligações afetivas maiores, bem como à redução dos hormônios associados ao estresse.

Mas aí você vai me perguntar: como esses hormônios contribuem para a independência? Pense em você mesmo e em suas reações a várias situações. Todos já tivemos dias em que estávamos super estressados, quase arrancando nossos próprios cabelos. Nesses dias, quão disposto você estava para sair e explorar novos lugares, conhecer pessoas novas, tentar coisas diferentes? Se você estiver no grupo chamado "normal" e está sendo honesto, provavelmente vai dizer "Nem um pouco." Ao invés disso, você pediria uma taça (ou garrafa) de vinho em um lugar seguro, aconchegante, longe das pessoas ou locais potencialmente estressantes, pois evitar o estresse é parte da nossa reação – enfiar a cabeça num buraco e esperar que o que estiver te estressando desapareça. Isso é devido ao fato de que o estresse tem relação com o medo, e dessa forma ambos ativam a resposta de "lutar ou fugir", ainda que em diferentes níveis de intensidade. Logo, um bebê que está constantemente sob estresse tende a procurar lugares seguros e permanecer por lá. Assim como nós adultos fazemos. Agora lembre-se de momentos em que você estava feliz, relaxado e calmo. Durante esses momentos da sua vida você procura fazer coisas novas? Conhecer gente diferente? Ir a outros lugares? Sim, porque esse é o estado de espírito do qual necessitamos para sair e explorar o mundo. Então um bebê que tem níveis mais baixos de cortisol e mais altos de ocitocina, tende a estar mais disposto a conhecer o mundo frequentemente.

Outra razão que associa a cama/quarto compartilhado a independência é que dormir perto do seu bebê gera uma sensação de segurança devido à resposta imediata durante períodos críticos. Todos os recém-nascidos possuem o reflexo de moro, que o faz se assustarem e costuma ocorrer enquanto dormem. (Para aqueles que não têm mais um recém nascido, até os 3 meses de idade, enquanto dorme, os braços e pernas do seu bebê tremem como se ele estivesse caindo. Esse é o reflexo de moro). Se a sua criança estiver no colo de um adulto ou estiver por perto (como em um berço grudado à sua cama, com a grade lateral abaixada), é muito mais fácil controlar o reflexo e acalmá-lo antes que acorde e entre em pânico. Contudo, se você não estiver segurando o bebê, o reflexo de moro vai acordar seu bebê em pânico. O cortisol estará então circulando pela sua corrente sanguínea e vai demorar bem mais tempo até você conseguir acalmá-lo. Muitos pais passam por isso quando são acordados por um bebê que está gritando. Quando isso acontece, o que o bebê aprende a partir dessa experiência? Que o mundo não é um lugar seguro e que deve estar sempre alerta. Quando seus níveis de estresse estão constantemente altos, você aprende a estar mais vigilante para conseguir manter-se longe de perigos em potencial. Honestamente, eu me surpreendo com o fato de tais crianças não estarem clamando para voltar ao útero, após essas boas-vindas ao mundo.

Os bebês que dormem com seus pais aprendem algo bem diferente. Como eles são imediatamente tocados e confortados quando passam por esse reflexo de moro (e muitas vezes nem chegam a acordar), eles aprendem que o mundo é seguro para eles. Alguém estará por perto para socorrer quando precisarem de ajuda. Quando você sabe que tem uma rede de proteção, é muito mais fácil tentar andar na corda bamba do que se você não soubesse se iria ser amparado ou não no caso de uma queda. E uma vez que você começa a acreditar que há uma rede de proteção (chamada mamãe e papai), você se torna mais propenso a se arriscar e tentar coisas novas. Então, através da cama/quarto compartilhado você está oferecendo ao seu filho a base para um forte senso de segurança e sensações duradouras de conforto e proteção. Você está também alterando o balanço hormonal para melhor – reduzindo hormônios negativos (cortisol, por exemplo) e promovendo os positivos (oxitocina, por exemplo). E para culminar, você está aumentando as chances de seu filho ter uma ligação estreita com você, o que traz uma enorme variedade de resultados futuros maravilhosos. Eu acho que isso explica porque evoluímos para a cama/quarto compartilhado. [1].

Então quando você pensar em como você quer que seu filho seja criado e que tipo de pessoa você quer que ele seja – extrovertido ou inibido? Aventureiro ou tímido? Medroso ou corajoso? – pense a respeito do que você está ensinando a respeito do mundo através de suas ações frente ao bebê. E saiba que uma forma de dar à criança uma base sólida é dormir junto dela ou dele – seu filho vai agradecer a longo prazo.

[1] Existem regras a respeito de como fazer a cama/quarto compartilhado com segurança. Leia o artigo a respeito disso se você quiser saber mais, pois existem algumas coisas que podem tornar o ato de dormir com o bebê algo perigoso. Como você vai perceber, algumas dessas coisas (estar bêbado, por exemplo) são bem óbvias e nem precisariam ser ditas, mas existem outras com as quais você vai ficar surpreso.

https://www.facebook.com/notes/solu%C3%A7%C3%B5es-para-noites-sem-choro/normas-gerais-de-seguran%C3%A7a-da-cama-compartilhada/301069299917486

segunda-feira, 18 de maio de 2015

Quem produz o leite materno - a mãe ou o bebê?

Por Fernanda Rezende Silva
Revisão: Luciana Freitas e Zioneth Garcia

O título deste texto pode parecer absurdo, mas não é. O bebê influencia sim, e muito, no processo de produção do leite materno. É ele quem comanda.
Vamos imaginar que o peito da mãe é uma máquina de produzir alimento, e o bebê é o operador desta máquina. Se o operador nem chegar perto da máquina é óbvio que ela permanecerá desligada e nenhum alimento será produzido, e o contrário também é verdadeiro, se o operador estiver em permanente contato com esta máquina, operando-a o tempo todo, muito alimento será produzido. Ok, esta parte não é novidade. Sabemos que quanto mais o bebê suga, mais leite é produzido,e que se o bebê não suga (ou suga errado) a produção de leite é comprometida, então vamos entender como funciona o processo (se você ainda não sabia que o leite materno é produzido enquanto o bebê mama então leia este texto: http://grupovirtualdeamamentacao.blogspot.com.br/2014/09/voce-esta-amamentando-e-seu-peito-esta.html).
O bebê nasceu com a missão de operar a máquina-peito, e esta operação não se resume a ligar/desligar, ele decide em que momento que tipo de alimento será produzido. Ele é um operador inteligente: pode enviar um comando do tipo "agora quero o alimento X", ou "chega de X, agora quero Y". Traduzindo isso: o bebê, por meio do tempo de mamada e de potência da sucção, “diz” ao corpo da mãe que agora ele quer um leite menos gorduroso, ou que quer o leite mais gorduroso. O leite vai aumentando sua quantidade de gorduras, então não existe um leite “fraco” e um leite “gordo”, é algo gradual . Alguns exemplos do que o bebê diria para a mãe:
- "Mamãe, já mamei 10 minutos de leite com menos gordura e matei a sede, agora quero mamar mais 20 minutos, então vai aumentando a gordura desse!".
- "Mamãe, não se assuste - dessa vez só quero matar a sede, não tenho fome - assim que eu tiver fome eu mamo mais e lhe peço um leite com mais gordura".
- "Mamãe, já estou tão craque que agora quero só 1 minuto de leite com menos gordura e nos 4 minutos seguintes, vai aumentando a gordura desse leite. Ah! Mamãe, agora consigo me satisfazer em apenas 5 minutos".
Sim, é o bebê que diz ao corpo da mãe que tipo de leite quer, quanto quer, em que momento quer, por isso a livre demanda verdadeira é tão importante (http://grupovirtualdeamamentacao.blogspot.com.br/2014/07/livre-demanda-o-que-e-realmente-dr.html). E como o bebê pode executar este processo mágico de ir mudando a gordura do leite no meio da mamada? Ele intensifica a mamada, fica mais tempo no peito… Um bebê saudável nasce pronto para operar a máquina-peito e, se ele não sofrer interferências externas ele vai executar este processo perfeitamente.
"Ah, mas meu bebê ganhou pouco peso neste mês". Porque isso nem sempre é um problema? O ganho de peso isoladamente não significa saúde
(http://grupovirtualdeamamentacao.blogspot.com.br/2013/06/por-que-nao-tiramos-balanca-do-pedestal.html). Se um bebê saudável ganhou pouco peso em um mês específico mas cresce e se desenvolve bem então pode não haver motivo para preocupação, depende de cada caso - ele vai engordar conforme a sua necessidade.
"Mas meu bebê tem mamado horas seguidas, meu leite não satisfaz!". Hora de desfazer o mito "bebê só mama e dorme" e aprender um pouco sobre picos de crescimento e saltos de desenvolvimento. Peito não é só alimento - bebês novinhos querem mesmo grudar na mãe (http://grupovirtualdeamamentacao.blogspot.com.br/2014/06/o-conceito-do-continuum-importancia-da.html), e nos picos e saltos grudam mais ainda (http://grupovirtualdeamamentacao.blogspot.com.br/2014/06/pico-de-crescimento-e-salto-de.html).
O que poderia então atrapalhar o bebê a ponto dele não conseguir mamar bem? Existem alguns fatores como a prematuridade, por exemplo, que fazem com que o bebê tenha dificuldade para mamar (http://grupovirtualdeamamentacao.blogspot.com.br/2015/02/como-estimular-o-bebe-aprender-ou.html). Outro exemplo é a anquiloglossia: se o bebê tem o freio de língua curto então pode ser que ele não consiga executar perfeitamente todos os movimentos necessários com a boca e língua, e isso sim pode atrapalhar as mamadas e consequentemente a produção de leite (http://grupovirtualdeamamentacao.blogspot.com.br/2014/11/anquiloglossia-freio-de-lingua-curto.html).
Porque então tantas mulheres dizem "Não tive leite" ou "Meu leite secou", mesmo quando o bebê não tem nenhum problema para "operar a máquina"? Nesses casos o bebê nasce preparado para operar a máquina-peito, mas ele sofre interferências externas dos tais bicos artificiais (chupetas e mamadeiras). Imagine que o operador usa os 5 dedos da mão direita para executar o comando "produzir alimento X", mas aí ele começa a carregar um objeto com esta mão e passa a não dispor mais dos 5 dedos para esta ação (passa a fazê-lo só com 4 dedos) - ele sentirá cada vez mais dificuldade para fazer este movimento até que a tarefa se torne muito difícil e ele pode até desistir. Este texto explica o que acontece nestes casos: http://grupovirtualdeamamentacao.blogspot.com.br/2015/03/o-que-acontece-com-os-musculos-bucais.html.
Você já entendeu que quem produz leite materno não é a máquina-peito sozinha - o bebê é quem comanda o processo. Pois é, então isso também significa que não adianta NADA empanturrar a máquina com matéria-prima - o operador-bebê só vai pedir o alimento que ele realmente necessita. Algumas mães pensam que precisam comer muita comida calórica para ter o leite mais gorduroso e assim o bebê engordar melhor - isso não faz sentido, basta você lembrar que os bebês das africanas mal nutridas também engordam. Já vimos o caso de uma mãe que comia muita comida calórica enquanto a filha engordava no ritmo normal e esperado para o biotipo dela - o que esta mãe conseguiu foram 32 kg extras ao final da amamentação (ou seja, o que a mãe comeu a mais virou gordura no corpo dela, já que o bebê não requisitava esta gordura no leite materno).
A matéria-prima é importante, então a mãe deve se alimentar bem? Sim, a mãe deve se alimentar bem, mas sem neuras. Sabe a tal máquina-peito? Então, ela tem as receitas armazenadas, o que significa que seu resultado final varia muito pouco: a maior parte dos nutrientes do leite materno vem das reservas nutricionais da mãe (todos os seres humanos possuem reservas de nutrientes no corpo) então a mãe na verdade precisa se alimentar bem para repor estas reservas, e não para produzir leite de qualidade. Um exemplo: já foi comprovado que a mãe pode aumentar bastante o consumo de alimentos com ferro e mesmo assim o leite materno terá sempre a mesma quantidade de ferro, independente do que a mãe comeu. Se a mãe simplesmente não está comendo alimentos com ferro o leite também continua bom, mas este caso representa perigo de anemia para a mãe, por isso ela não pode fazer dietas malucas e precisa mesmo se alimentar bem.
Se o leite materno tem uma receita pronta, que praticamente não varia, e só se produz leite conforme o bebê solicita, faz sentido pensar que a mãe precisa beber X litros de água por dia, ou pensar que beber mais água ajuda a produzir mais leite? Não, isso também não faz sentido. Uma mulher que amamenta sentirá mais sede naturalmente, mas não precisa se obrigar a tomar vários litros de água por dia para garantir a produção de leite (http://grupovirtualdeamamentacao.blogspot.com.br/2014/06/beber-muita-agua-para-ter-mais-leite.html). Lembra da receita do leite materno? Então, nela consta a proporção de água necessária para produzir leite - tudo que vier além disso será eliminado pelo corpo.Você estava aí se culpando porque não comeu o alimento X ou Y, pensando que seu leite não seria bom por causa disso? Pode desencanar - agora você já sabe que quem comanda a produção é o bebê e que todas as mulheres têm em seus corpos a receita do leite perfeito - nenhuma mulher precisa de canjica ou suco de uva para ter mais leite ou um leite de melhor qualidade.

quarta-feira, 13 de maio de 2015

Meu leite sempre acaba de tarde

Por: Gabriela Silva e Luciana Freitas

“Meu filho tem dois meses e meu leite diminuiu muito. Todas as vezes que ele vai mamar, especialmente no final da tarde e de noite, ele chora, rejeita o peito, puxa o bico com força. Demora a dormir porque está com fome, só berra e se joga pra trás. Acho também que além do leite diminuindo pode ser refluxo, pelo menos foi o que algumas pessoas disseram. Não pesei ele este mês ainda, mas deve ter ganhado pouco, porque ele só mama bem de manhã e de madrugada, quando tenho bastante leite.”

Ao longo de todos os anos de existência do GVA, recebemos com frequência postagens semelhantes a essa, que relatam problemas em bebês que têm entre 1 e 4 meses, aproximadamente, os quais a mãe atribui a uma diminuição do seu leite. No entanto, esses problemas, que parecem ser com a amamentação, costumam ser, na verdade, com o sono. Sim, com o sono!

Bebês com menos de um mês, em geral, dormem muito, adormecem sozinhos, sem que as mães precisem se preocupar com isso. Porém, após esse período, os bebês começam a precisar de ajuda para dormir. O cuidador deve perceber quando eles estão com sono e precisam ser colocados para dormir, seja por meio do embalo ou de qualquer outro meio que os faça pegar no sono (carrinho, rede, sling,cadeirinha do carro, bola de pilates etc).

Quando isso não acontece e a criança passa muitas horas acordada, e entre os dois e os quatro meses eles não aguentam mais do que 1h30 ou 2h no máximo acordados, inicia-se um processo de irritação que inclui, em muitos casos, rejeitar o peito da mãe e agir como no caso que usamos acima para ilustrar nosso texto. O bebê fica exausto, procura o peito pra dormir porque sabe que a mamãe e o peito são seu porto seguro, mas irritado de sono não tem paciência com nada. Reclama do peito, mas quando o solta reclama porque quer mais peito.Troca de um lado pra outro, chora, se joga pra trás, puxa os cabelos, bate comas mãozinhas no próprio rosto, geralmente os olhinhos estão avermelhados. Tudo isso é sinal de sono, mas nós mães sempre pensamos naquilo que tanto nos assombra: “O peito está secando! Não consigo produzir leite suficiente!”

Sim, ao final da tarde estamos nós também exaustas, afinal a maioria cuida sozinha do bebê e muitas vezes também de outros filhos, sem contar as tarefas domésticas... É um trabalho muito cansativo, apesar de escutarmos piadinhas do tipo “Está aproveitando pra descansar, né? Fica só cuidando do bebê, não trabalha fora mais, aproveite as ‘férias’!”.

Essa exaustão faz com que nossa percepção do choro e incômodo do bebê esteja muito mais sensível, então o mesmo choro que escutamos ainda de manhã cedo, e conseguimos contornar com criatividade e paciência, ao final do dia nos parece um choro desesperador e não temos mais ideia do que fazer para acalmar o bebê e nos acalmarmos também.

O que fazer, então? Mudar de ares, sair do ambiente tenso e assim conseguir respirar pra tentar novamente fazer o bebê dormir e mamar:
- tomar banho juntos (banheira ou chuveiro);
- dançar ao som de músicas que vocês gostem;
- passear de sling pela vizinhança;
- ir à pracinha ou ao play, para se distraírem e ver outras crianças brincando (ajuda a lembrar que tudo passa e logo será o nosso bebê correndo e se divertindo ali).

O principal é lembrar que é ilógico o mesmo peito que produz leite suficiente durante todo o dia, simplesmente secar no final da tarde. Pense: “É sono, vamos relaxar pra dormir. É sono, vamos relaxar pra dormir...”. Tente descobrir o que mais funciona para você como forma de relaxar, e então quando esses dias difíceis surgirem, lembre que é sono e não falta de leite. Seu corpo é perfeitamente capaz de nutrir seu bebê!

Para saber mais a respeito do sono dos bebês e os efeitos de ficarem muito tempo acordados, indicamos os links abaixo:

Tabela de sono
http://grupovirtualdeamamentacao.blogspot.com.br/2015/05/tabela-de-sono-dos-bebes.html

O efeito vulcânico – como a falta de boas sonecas durante o dia causa irritação e “birras”
http://grupovirtualdeamamentacao.blogspot.com.br/2013/06/o-efeito-vulcao-pular-sonecas-produz.html

terça-feira, 12 de maio de 2015

Tabela de Sono dos Bebês



Tempo total de sono para diversas idades.


Recém-nascido: 1 Semana
- Bebê dorme bastante, 15-18 horas/dia
- Geralmente em intervalos de 2-4 horas
- Não há padrão de sono

2 a 4 semanas
- Sem tabela de horários, permita que o bebê durma quando precisa
- Bebê provavelmente não dormirá por períodos longos à noite
- O maior período pode ser de 3-4 horas

5 a 8 semanas
- Bebê está mais interessado em brinquedos e objetos
- O maior período de sono começa a aparecer regularmente nas primeiras horas da noite
- O período mais longo é de 4-6 horas (menos se tem cólicas)
- O bebê "fácil" tem períodos mais regulares
- Ponha-o para dormir aos primeiros sinais de cansaço
- Ponha-o pra dormir: não mais que 2 horas acordado
- Após acordar pela manhã já está pronto para soneca somente 1 hora depois
- O bebê vai se distrair mais facilmente, então precisa de um lugar quieto pra dormir
- Crie uma rotina de atividades que acontecem antes de cada soneca e da hora de dormir à noite
- Sinais de extrema fadiga: irritável, puxa o próprio cabelo, bate na própria orelha

3 a 4 meses
- A necessidade é maior de um lugar calmo e quieto para dormir, pois o bebê se distrai mais facilmente
- Não deixar o bebê acordado por mais de 2 horas (alguns aguentam somente 1 hora)
- 6 semanas de vida é quando o período de sono mais longo deve ser preferencialmente à noite (não de dia)
- O maior período de sono é somente de 4-6 horas
- Comece a colocar o bebê para dormir antes dele começar a ficar irritado ou sonolento

4 a 8 meses
- O sono do bebê se torna mais como o do adulto, com período inicial de não-REM
- A maioria acorda entre 7 da manhã, mas geralmente entre 6-8.
- Se o bebê acordar antes das 6 é bom colocar para dormir após mamar e trocar a fralda
- Não é possível mudar a hora que o bebê acorda de manhã colocando-o para dormir mais tarde
- Comidas sólidas antes de dormir também não resultam em acordar mais tarde
- O período acordado de manhã deve ser de cerca de 2 horas para bebê de 4 meses e 3 horas para bebês de 8 meses
- Então a soneca da manhã é por volta das 9 horas para a maioria
- Tenha um período tranquilo e quieto, parte da rotina de dormir, com duração máxima de 30 minutos. Essa rotina deve começar 30 minutos ANTES do fim do período que o bebê fica acordado
- Um soneca só é restauradora se é de 1 hora ou mais, algumas vezes 40-45 minutos conta, mas 1 hora ou mais é o ideal
- Conte com outra soneca após 2-3 horas acordado
- Evite mini-sonecas no carro ou parque
- Não deixe o bebê tirar uma sonequinha para compensar uma soneca perdida
- Se o bebê tira a soneca quando deveria estar acordado, bagunça a rotina acordado/dormindo
- A segunda soneca é geralmente entre meio-dia e 2 da tarde (antes das 3)
- Deve durar 1-2 horas
- Uma terceira soneca poderá ou não ocorrer, se ocorrer será entre 3-5 da tarde e geralmente bem rápida
- A terceira soneca desaparece por volta dos 9 meses de idade
- A hora de dormir ideal é entre 6-8 da noite, decida pelo quanto a criança está cansada
- Empregue uma rotina antes da cama com a mesma sequência de eventos toda noite, assim a criança começará a predizer o que vem a seguir, ou seja, o sono
- A criança poderá acordar de 4-6 horas depois para mamar, algumas estarão com fome mas outras vão dormir direto, depende do indivíduo
- Uma segunda mamada poderá ocorrer por volta de 4-5 da madrugada.

9 a 12 meses
- A maioria dos bebês dessa idade realmente precisam de 2 sonecas/dia com duração total de 3 horas de sono
- Por o bebê pra dormir à noite mais cedo permitirá que ele durma até mais tarde de manhã (em alguns casos não)
- Rotina usual: acorda às 6-7 da manha, soneca da manhã 9:00, soneca da tarde 13:00 (antes das 15:00 pra não atrapalhar com o sono da noite), dormir à noite entre 18:00-20:00
- Se o bebê que dormia à noite toda começar a acordar, tente antecipar a hora de dormir gradualmente de 20-20 minutos.

12 a 21 meses (1 ano a 1 ano e 9 meses)
- Muda de 2 sonecas para 1 soneca/dia, total duração de sono 2 horas e meia
- Se a mudança para 1 soneca é difícil, tente por na cama mais cedo, a criança poderá tirar 2 sonecas num dia e 1 no outro até estabilizar

21 a 36 meses (1 e 9 meses a 3 anos)
- Maioria das crianças ainda precisam de uma soneca
- Em média a soneca é de 2 horas mas pode ser entre 1-3 horas
- Maioria das crianças dormem entre 7-9 da noite, acordam entre 6:30-8 da manhã
- Se a soneca não aconteceu, é preciso por na cama mais cedo ainda
- Se a criança não dorme bem durante a noite, não permitir que a criança tire a soneca pode ser problemático, causar extrema fadiga
- Se a criança acorda entre 5-6 da manhã, e está bem descansada, pode-se tentar encorajar mais sono com cortinas escuras
- Ir pra cama mais cedo pode resultar em acordar mais tarde de manhã (sono traz mais sono, na maioria dos casos)


3 a 6 anos
- A maioria ainda vai dormir entre 7-9 da noite, acorda entre 6:30 e 8 da manhã
- Aos 3 anos a maioria das crianças precisam de 1 soneca todos os dias
- Aos 4 anos, cerca de 50% das crianças tiram soneca 5 dias/semana
- Aos 5 anos de idade, cerca de 25% das crianças tiram soneca 4 dias/semana
- Aos 6 anos de idade as sonecas geralmente desaparecem
- Aos 3 e 4 anos a soneca dura 1-3 horas
- Aos 5 e 6 anos a soneca dura entre 1-2 horas

7 a 12 anos
- A maioria das crianças de 12 anos vão dormir entre 7:30 e 10 da noite, na média 9 da noite. A maioria dorme 9-12 horas/noite.
- Muitas crianças de 14-16 anos agora precisam de mais sono que quando eram pré-adolescentes para manter a atividade ótima e serem alertas durante o dia


Tradução: Andreia Mortensen
Original em: http://solucoes.multiply.com/journal/item/1

 (Baseada no livro 'Healthy Sleep Habits'' de Marc Weissbluth)
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