Mostrando postagens com marcador materno. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador materno. Mostrar todas as postagens

quarta-feira, 30 de setembro de 2015

Dermatite e Amamentação - um relato pessoal

Por Fernanda Rezende Silva
 
Minha saga começou quando minha filha estava com 11 meses. Os primeiros dentes superiores estavam nascendo e meu seio direito machucou. Imaginei que o motivo fosse os dentes apontando e uma eventual pega errada, mas se fosse só isso teria resolvido facilmente.
O seio esquerdo também feriu, eu já tinha acabado com a pomada de lanolina que tinha em casa e o problema continuava. Usei cascas de frutas e o problema piorou (hoje entendo porque o GVA e o Ministério da Saúde são contra o uso de cascas e afins).
Depois de um mês tentando soluções caseiras (um grande erro), conversei com uma consultora de amamentação que me disse que talvez meu problema fosse fungos. Consultei então um mastologista e ele me receitou tratamento para fungos (1). Fiz 2 meses de tratamento sem resultado.
Resolvi então me consultar com minha antiga GO (da minha cidade natal) e ela me disse que meu problema não era fungos - eu tinha uma dermatite e precisava me consultar com um dermatologista. O dermato indicado por ela pediu biópsia (eu tinha a mesma dermatite no braço), confirmou o diagnóstico e receitou pomada de corticoide - só aí comecei a ver melhoras.
A pomada resolvia, mas logo a dermatite (2) aparecia de novo. Consultei outros dois dermatologistas, que mantiveram o tratamento. Fiz um teste de alergia, por suspeita de dermatite de contato, que não matou a charada da dermatite misteriosa. Mais alguns meses se passaram e eu continuava com o problema. 

Desenvolvi alergia a lanolina, talvez por ter usado demais (bastava passar um pouquinho que o peito feria na hora). Sabe quando as moderadoras do GVA falam que o melhor para passar no peito é o próprio leite? Então, isso se explica facilmente se você pensar que até lanolina pode causar alergia (na mãe e/ou no bebê) e com leite materno esse risco não existe.
Nesse ponto da história o GVA entrou na minha vida. Descobri o que é APLV - alergia às proteínas do leite de vaca - e descobri que dermatites frequentes podem ser sintoma de APLV
(3). Lembrei que sofro com dermatites desde a infância - elas aparecem em várias partes do corpo - e era comum minha mãe me tratar com pomadas fortes (dessas que hoje só são vendidas com receita médica) - relembrar estes fatos aumentou minha suspeita de alergia a leite.
Eu já tinha parado de tomar leite há anos por causa de enxaqueca, mas ainda consumia os derivados, então passei a ficar mais atenta. Percebi que por duas vezes tive reação após tomar iogurte - a dermatite dos seios ficou forte, a ponto de sangrar.
Marquei consulta com uma pediatra que realmente entende de amamentação e APLV (engraçado eu me consultar com uma pediatra, mas não conheço médico de adultos que entenda de APLV). Ela confirmou minha suspeita, e me disse que tem sido muito comum adultos que foram amamentados pouco tempo desenvolverem alergia a leite (exatamente o meu caso).  

Comecei a dieta restritiva - cortei os derivados de leite e tudo que tem leite. Passei a ler rótulos, perguntar ingredientes em restaurantes, aprendi receitas sem leite. Depois de usar pomadas de corticoide por quase um ano enfim pude amamentar em paz, sem pomadas e sem dor, graças à dieta.
Tentei escrever de forma bem resumida, mas não posso deixar de citar como estava a minha cabeça. Vários profissionais me sugeriram desmamar, e isso doeu muito. Depois de alguns meses de luta eu até evitava tocar no assunto, pois as pessoas me criticavam, então eu preferia dizer que estava tudo bem, mesmo se estivesse com dor. Aprendi algumas coisas nesta jornada que podem ser úteis a outras mães, então vou resumir aqui:
 

-- Alergias podem ser desenvolvidas (antes eu pensava que alergia fosse uma doença que acompanha a pessoa a vida toda). Um exemplo: já vi amigas que sempre usavam esmalte normalmente desenvolverem alergia a esmalte.
-- Se você já tem um histórico de problemas de pele saiba que: eles podem aparecer também nos seios e isso pode acontecer justamente no período de amamentação, mas dermatite tem tratamento e não é motivo para desmame.
-- É possível viver sem leite de vaca e ele é um alimento que, na minha opinião, faz mais mal do que bem.
-- Nem tudo que coça/arde/descama nos seios é candidíase. Os seios estão sujeitos a todo tipo de problema de pele, assim como o restante do corpo,, e quando o caso é realmente uma infecção há mais chances de ser causada por bactérias do que por fungos, por isso é importante o médico pedir exame antes de receitar medicação (4).

-- Profissionais despreparados acham mais fácil indicar desmame do que procurar a causa do problema da mãe, então se você quer continuar amamentando precisa escolher bem onde procurar ajuda.
-- Leite de vaca é um dos alimentos que pode causar alergia, mas não é o único, então no caso de suspeita de alergia o ideal é testar cada alimento suspeito separadamente.
-- Intolerância a lactose não tem NADA a ver com APLV (5).

-- Alergia alimentar não é frescura e "só um pouquinho" pode fazer muito mal. Um exemplo: eu tive reação ao comer um chocolate que tinha apenas traços de leite.

A amamentação aqui segue firme e forte e já dura 39 meses :) Valeu a pena cada dia de luta - meu leite não virou água, continua rico em nutrientes e anticorpos, e ver minha filha super saudável graças ao meu leite é algo que faz tudo valer a pena.


Links:
1 - Esclarecendo a candidíase mamária: http://grupovirtualdeamamentacao.blogspot.com.br/2015/04/esclarecendo-candidiase-mamaria.html
2 - Os sintomas mais comuns de qualquer dermatite são vermelhidão, coceira, descamação - se você desconfia que possa ter dermatite consulte um médico.
3 - Desconfie de APLV se: http://grupovirtualdeamamentacao.blogspot.com.br/2014/06/aplv-desconfie-de-aplv-se.html
4 - Você tem ou teve "sapinho"? Novos dados: http://grupovirtualdeamamentacao.blogspot.com.br/2014/06/voce-tem-ou-teve-sapinho-novos-dados.html
5 - Intolerância x galactossemia x alergia LV: http://meufilhoealergicoaleite.blogspot.com.br/2008/09/intolerancia-x-galactossemia-x-alergia.html

sábado, 1 de agosto de 2015

Semana Mundial de Aleitamento Materno - SMAM 2015


Conforme anunciado no post de 25/07 (http://grupovirtualdeamamentacao.blogspot.com.br/2015/07/smam-2015.html) apresentamos a série de vídeos das moderadoras do GVA sobre o tema "Retornar ao trabalho sem desmamar".

07/08:
 GVA na SMAM 2015: A importância do apoio e o papel dos demais cuidadores do bebê, com a moderadora Mariana Elis.
Muito se tem falado sobre os cuidados com o bebê quando a mãe retorna ao retorno, mas e a mãe, quem cuida dele? Como ela pode ser apoiada?
https://www.youtube.com/watch?v=W7eddFAaMew&feature=youtu.be 

GVA na SMAM 2015 - com a moderadora Karina Takeuti Vaz Rodrigues.
Karina conta sua experiência de volta ao trabalho deixando a filha em creche. Ela teve dificuldades para que a creche aceitasse receber leite materno ordenhado. Se você também passa uma dificuldade como essa, tente estas opções:
- conversar com a nutricionista responsável (em creche pública procure a nutricionista no setor de merenda da prefeitura);
- se a resposta for negativa: protocolar por escrito em duas vias, pedir a resposta por escrito e fazer uma reclamação em algum destes órgãos: MS (Ministério da Saúde), MEC (Ministério da Educação), MP (Ministério Público), CRN (Conselho Regional de Nutricionistas).

https://youtu.be/V8r2h-A6K5Q 

06/08:
GVA na SMAM 2015 - Direitos da mãe trabalhadora que amamenta - com a moderadora Juliana Coutinho Gieppner.
Nestes três vídeos são abordadas questões legais relacionadas à volta ao trabalho e amamentação: licença maternidade, licença de 6 meses, o papel das leis no apoio à amamentação:
- Licença maternidade: https://youtu.be/Shyti_QMvrg
- Licença maternidade de 6 meses : https://youtu.be/ZtVFDKjcOi4
- Comparativo entre a situação do Brasil e da Alemanha: https://youtu.be/WmJpJKcjTPU 
 


05/08:
GVA na SMAM 2015 - Volta ao trabalho com bebê de 5 meses - com Amanda Areias:
- Amamentação exclusiva e retorno ao trabalho com bebê de 5 meses;
- Quando o pediatra não ajuda: como obter informação e apoio para manter a amamentação exclusiva;
- Rotina de ordenha;
- Relacionamento com a creche.
https://youtu.be/3muoKe2KSR4 


04/08: 
GVA na SMAM 2015 - Relato da experiência da moderadora Paula Marconi: volta ao trabalho com bebê de 2 meses, trabalhando em hospital:
- É possível manter a amamentação exclusiva, mesmo quando a mãe retorna ao trabalho e o bebê é muito novinho?
- Pode fazer ordenha em hospital?
- O emocional da mãe na volta ao trabalho.
- Adaptação a um novo cuidador.
- Confusão de bicos.

https://youtu.be/qZ0gtO_9VL0 

03/08:
GVA na SMAM 2015 - vídeo de hoje: "Levando o bebê para o trabalho - com a moderadora Samantha Scardazan"
Relato da experiência pessoal da moderadora Samantha Scardazan, de retorno ao trabalho com o bebê de 7meses, e aspectos emocionais da adaptação e decisão de voltar ao trabalho.

https://youtu.be/9Sv3cOo2UWE 

02/08:
Dando continuidade à série de vídeos do GVA na SMAM 2015 apresentamos o vídeo das moderadoras Daniela Guerreiro do Valle e Leidiana Pereira - neste vídeo são abordados os assuntos: tipos de ordenha, rotina de ordenha; como armazenar, congelar e descongelar o leite materno; como oferecer o leite materno: tipos de recipientes indicados, prós e contras de cada tipo; como a confusão de bicos atrapalha a amamentação e o retorno ao trabalho: https://youtu.be/6m-mumZBWSI 

01/08:
Abrindo a série de vídeos apresentamos o vídeo da moderadora Gabriela Silva, contando sua experiência de volta ao trabalho e como é o processo de adaptação de um bebê a um novo cuidador. 
https://youtu.be/TGU7e7Z7lFc 



sexta-feira, 5 de junho de 2015

Leite Materno não causa cáries


Amamentar não dá cáries, isso é um grande mito amplamente difundido entre os odontólogos, quem dá cáries é a mamadeira de LA. Muitos estudos tem demostrado que o aleitamento materno e a alimentação saudável são fatores que protegem contra a aparição de cáries. 
As cáries são uma doença multifatorial, o LM atua nesse caso como um fator protetor da boca e suas mucosas, porém deve ser sempre acompanhado de uma boa higiene bucal, com pelo menos uma escovação diária eficiente para crianças que já começaram sua introdução alimentar, acompanhada de uma alimentação livre de açúcares industrializados. 

Como prevenir as cáries:
Escovação, alimentação saudável livre de açúcares industrializados (incluindo os do LA, mucilon, bolachas, biscoitos etc.) e amamentação em livre demanda são condutas suficientes para prevenir a aparição de cáries em lactantes.

Amamentar à noite não só é normal mas necessário para o bebê, seja por fatores nutricionais ou afetivos, lembre que amamentar não é só alimentar a criança, e não é preciso ir aos extremos de desmamar na noite ou escovar os dentes após cada mamada para garantir que os dentes fiquem longe da cáries.

Para bebês em aleitamento materno exclusivo (AME) a limpeza da boca e língua é uma medida de condicionamento para costumar o bebê com a higiene bucal, só se faz obrigatória em casos de infecção por sapinho. Basta molhar uma gaze com água filtrada e limpar gengivas e língua com delicadeza.

Recomendamos esse resumo:
https://www.facebook.com/photo.php?fbid=316381891802920&set=a.313465942094515.73832.154050994702678&type=1

Aqui alguns artigos sobre o tema

Feeding habits as determinants of early childhood caries in a population where prolonged breastfeeding is the norm.
http://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/19145723


Association between prolonged breast-feeding and early childhood caries: a hierarchical approach.
http://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/22725605

segunda-feira, 18 de maio de 2015

Quem produz o leite materno - a mãe ou o bebê?

Por Fernanda Rezende Silva
Revisão: Luciana Freitas e Zioneth Garcia

O título deste texto pode parecer absurdo, mas não é. O bebê influencia sim, e muito, no processo de produção do leite materno. É ele quem comanda.
Vamos imaginar que o peito da mãe é uma máquina de produzir alimento, e o bebê é o operador desta máquina. Se o operador nem chegar perto da máquina é óbvio que ela permanecerá desligada e nenhum alimento será produzido, e o contrário também é verdadeiro, se o operador estiver em permanente contato com esta máquina, operando-a o tempo todo, muito alimento será produzido. Ok, esta parte não é novidade. Sabemos que quanto mais o bebê suga, mais leite é produzido,e que se o bebê não suga (ou suga errado) a produção de leite é comprometida, então vamos entender como funciona o processo (se você ainda não sabia que o leite materno é produzido enquanto o bebê mama então leia este texto: http://grupovirtualdeamamentacao.blogspot.com.br/2014/09/voce-esta-amamentando-e-seu-peito-esta.html).
O bebê nasceu com a missão de operar a máquina-peito, e esta operação não se resume a ligar/desligar, ele decide em que momento que tipo de alimento será produzido. Ele é um operador inteligente: pode enviar um comando do tipo "agora quero o alimento X", ou "chega de X, agora quero Y". Traduzindo isso: o bebê, por meio do tempo de mamada e de potência da sucção, “diz” ao corpo da mãe que agora ele quer um leite menos gorduroso, ou que quer o leite mais gorduroso. O leite vai aumentando sua quantidade de gorduras, então não existe um leite “fraco” e um leite “gordo”, é algo gradual . Alguns exemplos do que o bebê diria para a mãe:
- "Mamãe, já mamei 10 minutos de leite com menos gordura e matei a sede, agora quero mamar mais 20 minutos, então vai aumentando a gordura desse!".
- "Mamãe, não se assuste - dessa vez só quero matar a sede, não tenho fome - assim que eu tiver fome eu mamo mais e lhe peço um leite com mais gordura".
- "Mamãe, já estou tão craque que agora quero só 1 minuto de leite com menos gordura e nos 4 minutos seguintes, vai aumentando a gordura desse leite. Ah! Mamãe, agora consigo me satisfazer em apenas 5 minutos".
Sim, é o bebê que diz ao corpo da mãe que tipo de leite quer, quanto quer, em que momento quer, por isso a livre demanda verdadeira é tão importante (http://grupovirtualdeamamentacao.blogspot.com.br/2014/07/livre-demanda-o-que-e-realmente-dr.html). E como o bebê pode executar este processo mágico de ir mudando a gordura do leite no meio da mamada? Ele intensifica a mamada, fica mais tempo no peito… Um bebê saudável nasce pronto para operar a máquina-peito e, se ele não sofrer interferências externas ele vai executar este processo perfeitamente.
"Ah, mas meu bebê ganhou pouco peso neste mês". Porque isso nem sempre é um problema? O ganho de peso isoladamente não significa saúde
(http://grupovirtualdeamamentacao.blogspot.com.br/2013/06/por-que-nao-tiramos-balanca-do-pedestal.html). Se um bebê saudável ganhou pouco peso em um mês específico mas cresce e se desenvolve bem então pode não haver motivo para preocupação, depende de cada caso - ele vai engordar conforme a sua necessidade.
"Mas meu bebê tem mamado horas seguidas, meu leite não satisfaz!". Hora de desfazer o mito "bebê só mama e dorme" e aprender um pouco sobre picos de crescimento e saltos de desenvolvimento. Peito não é só alimento - bebês novinhos querem mesmo grudar na mãe (http://grupovirtualdeamamentacao.blogspot.com.br/2014/06/o-conceito-do-continuum-importancia-da.html), e nos picos e saltos grudam mais ainda (http://grupovirtualdeamamentacao.blogspot.com.br/2014/06/pico-de-crescimento-e-salto-de.html).
O que poderia então atrapalhar o bebê a ponto dele não conseguir mamar bem? Existem alguns fatores como a prematuridade, por exemplo, que fazem com que o bebê tenha dificuldade para mamar (http://grupovirtualdeamamentacao.blogspot.com.br/2015/02/como-estimular-o-bebe-aprender-ou.html). Outro exemplo é a anquiloglossia: se o bebê tem o freio de língua curto então pode ser que ele não consiga executar perfeitamente todos os movimentos necessários com a boca e língua, e isso sim pode atrapalhar as mamadas e consequentemente a produção de leite (http://grupovirtualdeamamentacao.blogspot.com.br/2014/11/anquiloglossia-freio-de-lingua-curto.html).
Porque então tantas mulheres dizem "Não tive leite" ou "Meu leite secou", mesmo quando o bebê não tem nenhum problema para "operar a máquina"? Nesses casos o bebê nasce preparado para operar a máquina-peito, mas ele sofre interferências externas dos tais bicos artificiais (chupetas e mamadeiras). Imagine que o operador usa os 5 dedos da mão direita para executar o comando "produzir alimento X", mas aí ele começa a carregar um objeto com esta mão e passa a não dispor mais dos 5 dedos para esta ação (passa a fazê-lo só com 4 dedos) - ele sentirá cada vez mais dificuldade para fazer este movimento até que a tarefa se torne muito difícil e ele pode até desistir. Este texto explica o que acontece nestes casos: http://grupovirtualdeamamentacao.blogspot.com.br/2015/03/o-que-acontece-com-os-musculos-bucais.html.
Você já entendeu que quem produz leite materno não é a máquina-peito sozinha - o bebê é quem comanda o processo. Pois é, então isso também significa que não adianta NADA empanturrar a máquina com matéria-prima - o operador-bebê só vai pedir o alimento que ele realmente necessita. Algumas mães pensam que precisam comer muita comida calórica para ter o leite mais gorduroso e assim o bebê engordar melhor - isso não faz sentido, basta você lembrar que os bebês das africanas mal nutridas também engordam. Já vimos o caso de uma mãe que comia muita comida calórica enquanto a filha engordava no ritmo normal e esperado para o biotipo dela - o que esta mãe conseguiu foram 32 kg extras ao final da amamentação (ou seja, o que a mãe comeu a mais virou gordura no corpo dela, já que o bebê não requisitava esta gordura no leite materno).
A matéria-prima é importante, então a mãe deve se alimentar bem? Sim, a mãe deve se alimentar bem, mas sem neuras. Sabe a tal máquina-peito? Então, ela tem as receitas armazenadas, o que significa que seu resultado final varia muito pouco: a maior parte dos nutrientes do leite materno vem das reservas nutricionais da mãe (todos os seres humanos possuem reservas de nutrientes no corpo) então a mãe na verdade precisa se alimentar bem para repor estas reservas, e não para produzir leite de qualidade. Um exemplo: já foi comprovado que a mãe pode aumentar bastante o consumo de alimentos com ferro e mesmo assim o leite materno terá sempre a mesma quantidade de ferro, independente do que a mãe comeu. Se a mãe simplesmente não está comendo alimentos com ferro o leite também continua bom, mas este caso representa perigo de anemia para a mãe, por isso ela não pode fazer dietas malucas e precisa mesmo se alimentar bem.
Se o leite materno tem uma receita pronta, que praticamente não varia, e só se produz leite conforme o bebê solicita, faz sentido pensar que a mãe precisa beber X litros de água por dia, ou pensar que beber mais água ajuda a produzir mais leite? Não, isso também não faz sentido. Uma mulher que amamenta sentirá mais sede naturalmente, mas não precisa se obrigar a tomar vários litros de água por dia para garantir a produção de leite (http://grupovirtualdeamamentacao.blogspot.com.br/2014/06/beber-muita-agua-para-ter-mais-leite.html). Lembra da receita do leite materno? Então, nela consta a proporção de água necessária para produzir leite - tudo que vier além disso será eliminado pelo corpo.Você estava aí se culpando porque não comeu o alimento X ou Y, pensando que seu leite não seria bom por causa disso? Pode desencanar - agora você já sabe que quem comanda a produção é o bebê e que todas as mulheres têm em seus corpos a receita do leite perfeito - nenhuma mulher precisa de canjica ou suco de uva para ter mais leite ou um leite de melhor qualidade.

quarta-feira, 13 de maio de 2015

Meu leite sempre acaba de tarde

Por: Gabriela Silva e Luciana Freitas

“Meu filho tem dois meses e meu leite diminuiu muito. Todas as vezes que ele vai mamar, especialmente no final da tarde e de noite, ele chora, rejeita o peito, puxa o bico com força. Demora a dormir porque está com fome, só berra e se joga pra trás. Acho também que além do leite diminuindo pode ser refluxo, pelo menos foi o que algumas pessoas disseram. Não pesei ele este mês ainda, mas deve ter ganhado pouco, porque ele só mama bem de manhã e de madrugada, quando tenho bastante leite.”

Ao longo de todos os anos de existência do GVA, recebemos com frequência postagens semelhantes a essa, que relatam problemas em bebês que têm entre 1 e 4 meses, aproximadamente, os quais a mãe atribui a uma diminuição do seu leite. No entanto, esses problemas, que parecem ser com a amamentação, costumam ser, na verdade, com o sono. Sim, com o sono!

Bebês com menos de um mês, em geral, dormem muito, adormecem sozinhos, sem que as mães precisem se preocupar com isso. Porém, após esse período, os bebês começam a precisar de ajuda para dormir. O cuidador deve perceber quando eles estão com sono e precisam ser colocados para dormir, seja por meio do embalo ou de qualquer outro meio que os faça pegar no sono (carrinho, rede, sling,cadeirinha do carro, bola de pilates etc).

Quando isso não acontece e a criança passa muitas horas acordada, e entre os dois e os quatro meses eles não aguentam mais do que 1h30 ou 2h no máximo acordados, inicia-se um processo de irritação que inclui, em muitos casos, rejeitar o peito da mãe e agir como no caso que usamos acima para ilustrar nosso texto. O bebê fica exausto, procura o peito pra dormir porque sabe que a mamãe e o peito são seu porto seguro, mas irritado de sono não tem paciência com nada. Reclama do peito, mas quando o solta reclama porque quer mais peito.Troca de um lado pra outro, chora, se joga pra trás, puxa os cabelos, bate comas mãozinhas no próprio rosto, geralmente os olhinhos estão avermelhados. Tudo isso é sinal de sono, mas nós mães sempre pensamos naquilo que tanto nos assombra: “O peito está secando! Não consigo produzir leite suficiente!”

Sim, ao final da tarde estamos nós também exaustas, afinal a maioria cuida sozinha do bebê e muitas vezes também de outros filhos, sem contar as tarefas domésticas... É um trabalho muito cansativo, apesar de escutarmos piadinhas do tipo “Está aproveitando pra descansar, né? Fica só cuidando do bebê, não trabalha fora mais, aproveite as ‘férias’!”.

Essa exaustão faz com que nossa percepção do choro e incômodo do bebê esteja muito mais sensível, então o mesmo choro que escutamos ainda de manhã cedo, e conseguimos contornar com criatividade e paciência, ao final do dia nos parece um choro desesperador e não temos mais ideia do que fazer para acalmar o bebê e nos acalmarmos também.

O que fazer, então? Mudar de ares, sair do ambiente tenso e assim conseguir respirar pra tentar novamente fazer o bebê dormir e mamar:
- tomar banho juntos (banheira ou chuveiro);
- dançar ao som de músicas que vocês gostem;
- passear de sling pela vizinhança;
- ir à pracinha ou ao play, para se distraírem e ver outras crianças brincando (ajuda a lembrar que tudo passa e logo será o nosso bebê correndo e se divertindo ali).

O principal é lembrar que é ilógico o mesmo peito que produz leite suficiente durante todo o dia, simplesmente secar no final da tarde. Pense: “É sono, vamos relaxar pra dormir. É sono, vamos relaxar pra dormir...”. Tente descobrir o que mais funciona para você como forma de relaxar, e então quando esses dias difíceis surgirem, lembre que é sono e não falta de leite. Seu corpo é perfeitamente capaz de nutrir seu bebê!

Para saber mais a respeito do sono dos bebês e os efeitos de ficarem muito tempo acordados, indicamos os links abaixo:

Tabela de sono
http://grupovirtualdeamamentacao.blogspot.com.br/2015/05/tabela-de-sono-dos-bebes.html

O efeito vulcânico – como a falta de boas sonecas durante o dia causa irritação e “birras”
http://grupovirtualdeamamentacao.blogspot.com.br/2013/06/o-efeito-vulcao-pular-sonecas-produz.html

quinta-feira, 19 de março de 2015

Diferenças do sono do bebê que é amamentado para o que toma LA

Novo estudo prova que não há diferenças. A crença que mães que amamentam tem que fazer mais sacrifícios não se mostrou verdadeira.
É comum acreditar que um dos sacrifícios que mães tem que fazer para amamentarem seus bebês é terem pior qualidade de sono. Mas novas pesquisas sugerem que isso é mito.
O estudo, publicado em 8 de novembro no periódico científico Pediatrics, descobriu que as mães dormiam em média o mesmo, não importando se amamentam ou dão LA. A autora principal do estudo, Hawley Montgomery-Downs, Professora assistente de Psicologia e coordenadora do Programa de Neurociências do comportamento na Universidade de West Virginia, mostra que absolutamente não há diferenças na qualidade do sono materno baseados em como os bebês são alimentados.
Os pesquisadores coletaram dados de 80 mães do início da segunda semana de vida do bebê até o final da 12a. semana, e foram divididas em 3 grupos: 27 amamentando exclusivamente por pelo menos 12 semanas, 18 que deram LA exclusivamente por pelo menos 12 semanas e 35 que usaram ambas formas de alimentação.
As mães usaram um instrumento parecido com relógio (actigrafo) para registrar seus movimentos e usaram um equipamento PDA para analisar sua qualidade de sono, registrar quantas vezes elas acordaram no meio da noite e por quanto tempo permaneceram acordadas. Com isso obtiveram um diário de sono com relato da qualidade de seu sono e o número de acordadas durante a noite e quando se sentiam sonolentas durante o dia.
Surpreendentemente, os dados revelaram que os 3 grupos tiveram a mesma quantidade de sono - cerca de 7.2 horas por noite.
Então, apesar dessas mães não estarem tecnicamente deprivadas de sono, elas estão legitimamente deprivadas de sono de qualidade. Isso se chama “sono fragmentado”, que não é uma desordem do sono, diz Montgomery-Downs. “Isso é o que mães de bebês novinhos fazem.”
Como pode ser possível que não há diferença na quantidade de sono total? Se demora mais tempo para o leite artificial ser digerido e portanto eles acordam menos frequentemente, como suas mães não estão dormindo mais? Talvez é porque as mães que amamentam estão amamentando dormindo? Ou porque as mães que dão LA tem que acordar completamente para preparar a mamadeira? Ou uma combinação dos dois?
Montgomery-Downs diz: "Não posso dizer exatamente porque não houve diferenças, mas as mulheres que amamentam talvez não tiveram os mesmo níveis de despertares quanto as mulheres que levantaram para preparar mamadeiras. Pode ser que as mães que amamentam se mantiveram no escuro e conseguiram adormecer mais facilmente, já que LM contém o hormônio prolactina, que pode ter efeitos indutores de sono no bebê. Pode ser que os bebês amamentados acordam mais mas as mães estão adormecendo mais rapidamente. Pode ser também que elas amamentam dormindo. Mas não sabemos se as mães estão fazendo cama compartilhada, essa será uma próxima extensão de nossa pesquisa".
Qualquer que seja a razão, esse estudo é obviamente uma boa notícia para os que apoiam amamentação. Sim, eu me pergunto: quantas mães desistem de amamentar - ou nem tentam - porque acreditam que iriam dormir mais com o uso da mamadeira?
Mas amamentação é tão importante para saúde de ambos mãe e bebê que fatos reais sobre o sono nessas condições precisam ser esclarecidos. Montgomery-Downs diz que as mulheres não poderiam simplesmente se sentir obrigadas a amamentar e fazerem o sacrifício de menos sono.
Além disso, enquanto estava entrevistando as mães que participaram do programa, Dr. Heinig descobriu que muitas trocaram a amamentação por LA ou cereal, acreditando que os bebês acordavam a noite e choravam por fome, porque não tinham LM suficiente.
Ela decidiu então preparar folhetos para dar para os pais com explicações de quão frequente os bebês acordam a noite - 3 ou 4 vezes nas primeiras 8 semanas pelo menos, e porque eles choram.
Seu estudo inovativo que durou 3 anos descobriu que as mães que tinham essas informações sobre seu comportamento natural amamentaram seus bebês exclusivamente por pelo menos 4 meses, e a porcentagem de crianças obesas diminuiu.
Finalmente, Dr. Montgomery-Downs diz: "A Academia Americana de Pediatria recomenda amamentação, então considere os riscos e benefícios de amamentar x dar LA".

Mas não faça sua decisão baseada no velho mito de que irá dormir melhor com LA. Os primeiros meses serão difíceis, amamentando ou não, então pese outras coisas, como a saúde do seu bebê. Não use um ‘bom sono’ como razão para desmamar seu bebê, porque o sono não melhorará com o desmame."

Pais poderiam ajudar levantando e dando uma mamadeira ao bebê com LM ordenhado. Mas no estudo nenhuma das mães relataram esse tipo de participação dos pais, mesmo que os bebês estivessem tomando LA. *
Recentemente há ímpetos nos EUA para angariar mais apoio para a amamentação, e talvez esse estudo ajude. Como o mito de que bebês que amamentam dormem menos que bebês que tomam LA foi derrubado, os autores acreditam que os esforços de encorajar amamentação nos EUA deve incluir informação sobre sono.

Montgomery-Downs diz, "As mulheres devem saber especificamente que a opção de dar mamadeira ao bebê não significa necessariamente sono melhor. Os riscos de não amamentar o bebê devem ser levados em consideração contra a falta de evidência de que o LA melhora a qualidade de sono."

Montgomery-Downs considera os resultados do estudo bons e objetivos para afastar conselhos não solicitados de profissionais da saúde, amigos e sogras que sugerem o LA como solução para o sono.

“Isso deve ser tranquilizante para as mães que amamentam” ela diz. “Desmame não é a solução!”


PS:
* mamadeiras (independente do conteúdo) podem causar confusão de bicos e desmame precoce. Não recomendamos essa dica então na comunidade.

** faltou citar que mães que amamentam e fazem cama compartilhada (atentando para as regras de segurança da CC) tem melhor qualidade de sono sim, salvo algumas exceções. Agora é aguardar se farão um estudo com esse tipo de variável.


Tradução: Andréia C. K. Mortensen

E foi publicado em português:


domingo, 15 de março de 2015

Relactação passo-a-passo


1) Adquirir a sonda:

Compre em farmácia sonda nasográstrica número 4 ou 5 - às vezes só é encontrada em farmácias que vendem material hospitalar.
Compre várias sondas, pois pode ser melhor descartá-las após o uso já que é difícil lavá-las bem (mas é possível esterilizar em água fervente cada vez que for usada). Essas sondas nada mais são do que tubinhos fininhos.



2) Preparações:

Colocar o leite artificial no recipiente escolhido (seringa, copo ou mamadeira). 
Colocar uma ponta da sonda no recipiente e a outra deve ser presa ao seio, com sua extremidade perto do mamilo (pode usar esparadrapo, micropore). A ponta que fica no peito tem que ficar bem na aréola.
Tentar colocar o recipiente com o leite num local próximo e acima do nível do peito, para que a ação da gravidade facilite o fluxo do leite, e de preferência numa superfície firme para evitar que caia no chão. Nas primeiras tentativas vale a pena pedir ajuda de outra pessoa que segure o recipiente com o leite. 
É possível cortar a sonda em pedaços menores (10 cm) quando já estiver habituada, deixando o recipiente mais próximo do peito.


3) Iniciando: 

Coloque o bebê no seio para mamar. A criança sugará o peito e a sonda ao mesmo tempo e, à medida em que se alimenta, também estimula a produção do leite materno. A altura em que é colocado o leite e a força de sucção da criança determinam a velocidade de ingestão. O fluxo é controlado ao se dobrar um pouco a sonda. Desse modo o bebê começa a associar o peito com alimento e é estimulado a sugar o peito.
Se o bebê estiver recusando o seio, pingue leite sobre o seio para que ele queira sugar.



4) Quanto tempo preciso usar esse sistema?

O tempo para que a produção de leite seja estabelecida é de no mínimo uma semana, requer paciência e persistência para se obter sucesso. O leite ministrado pela sonda é o que a criança estava usando e, na medida do aumento de produção pela mãe, este é restringido progressivamente.

A relactação deve ter um começo e um fim, desde o primeiro dia que se começa deve se ter claro que não é para sempre, que num certo dia ela vai terminar. O recomendado geralmente é não estender a relactação por mais do que 6 semanas.



5) Que mais posso fazer para aumentar minha produção de leite?



- A sucção do bebê é a mais poderosa que existe, então amamente em livre demanda, mesmo sem a sonda, sempre que puder.

- Utilize uma bomba elétrica de boa qualidade e tente ordenhar seu leite também sempre que possível - isso ajuda a estimular a produção, mesmo se ainda não estiver saindo leite. A ordenha manual bem feita é igualmente eficiente. 

- Descarte o uso de qualquer bico artificial: mamadeiras, chupetas, bicos de silicone.

- Carregue seu bebê num sling, sempre que possível. Sentir o cheiro da mamãe acalma o bebê e o incentiva a sugar.

- Descanse quando puder, tire sonecas quando o bebê também o fizer. Durma perto de seu bebê (tomando precauções para prática da cama compartilhada): pesquisas mostram que cama familiar pode ajudar no estabelecimento da amamentação.


Vídeo explicativo: http://www.youtube.com/watch?v=p9-Y4A8lLNU

ATENÇÃO: A técnica de relactação é justamente para RE-lactar, usada quando a mãe deixou por qualquer motivo de oferecer seu peito ou em casos de mães adotivas que desejam amamentar.

RELACTAÇÃO NÃO É UM MÉTODO DE COMPLEMENTAÇÃO PARA SUBSTITUIR A MAMADEIRA. 

É importante que desde o começo o fluxo da sonda seja regulado, para que o bebê se acostume com o fluxo de LM (leite materno) do peito - nem toda sucção deve levar leite. 

A relactação sozinha não faz milagres, deve ser associada à livre demanda e auto-confiança. SE A MÃE PRODUZ QUALQUER QUANTIDADE DE LM A RELACTAÇÃO TEVE SUCESSO E NÃO É MAIS NECESSÁRIA: pode começar a diminuir o LA (leite artificial) usando copinho. 
Uma vez se consegue LM em volume aceitável o ideal é passar oferecer o complemento num copinho e deixar de usar a sonda. Lembre que existe sucção não alimentar, na sonda fica difícil saber até onde o bebê continua com fome e até onde está sugando por conforto.
Toda mamada deve começar e terminar pelo peito sozinho. Se o bebê adormece no peito, que seja no peito sem sonda.





segunda-feira, 19 de janeiro de 2015

Relato de Amamentação da Mariana, mãe da Isabel


Acréscimo feito em novembro de 2017:
O relato que você vai ler agora é o relato do que não deveria ter acontecido. Na verdade, do que não precisava ter acontecido. 

Na época, eu acreditei no que diziam os meus médicos: eles disseram que eu deveria escolher entre a amamentação e o meu tratamento. Foi por isso que eu suportei a dor por tanto tempo; foi por isso que eu quase morri e comprometi minha saúde a ponto de carregar sequelas até hoje. Foi por isso também que eu desmamei abruptamente a Isabel quando notei que eu morreria se não me tratasse; o que também gerou nela traumas emocionais com que temos que lidar até hoje.

No GVA eu descobri que nada disso seria necessário: todos os remédios de que eu precisava eram compatíveis com a amamentação! Até mesmo aquele que, na época em que escrevi o relato, eu ainda achava que precisaria esperar para tomar. Não precisaria.

Se você chegou a esse relato porque um médico te disse que precisa desmamar para se tratar, te peço para dar uma olhada no www.e-lactancia.orge verificar a compatibilidade dos remédios antes de decidir. Você e seu bebê não precisam passar pelo que eu e a Bel passamos.

Segue agora meu relato:


Eu nunca me vi como alguém que lutou para amamentar. Também nunca vi nenhuma das minhas posturas como sacrifícios... Para mim é tudo tão obvio: a prioridade é sempre o bebê. Então, nada mais natural do que abrir mão do que possa vir a fazer mal para ele. Foi com esse pensamento que, ao descobrir que eu estava grávida, parei de beber, de alisar o cabelo e de tomar meus remédios. Simples assim.

Quer dizer, não foi tão simples assim parar o remédio. Eu simplesmente senti repulsa do meu remédio. Enjôo mesmo, antes de saber que estava grávida. Assim, no terceiro dia em que eu vomitei o comprimido inteirinho, decidi não tomar mais. Poucos dias depois, descobri a gravidez e aí entendi que meu corpo estava defendendo meu bebê. Passei a usar homeopatia com muito sucesso.

Minha filha nasceu num lindo parto domiciliar, mamou na primeira hora. Nunca tive nenhuma dificuldade com pega, falta de leite, bico rachado. Amamentar, para mim, sempre foi algo muito simples, natural e gostoso...e demorado!

Demorado porque Isabel passava mais, muito mais tempo agarrada a mim do que fazendo qualquer outra coisa. Haja sling, cama compartilhada e TV sem som!

Demorado porque chegamos aos 2 anos e 3 meses dela em franca amamentação. Isabel mamava muito quando estava comigo. Mais ou menos por essa época, entretanto, ela pediu para dormir no quartinho dela. Eu achei que este seria o fim da cama compartilhada mas...

Mas eu tive uma briga feia com meu marido, que resultou na saída dele de casa. Não sei se por perceber meu sofrimento e solidão ou se por demanda dela mesma, mas o fato é que a partir deste episódio ela voltou a dormir comigo. E voltou a mamar muito à noite.

Com o emocional em frangalhos, descuidei dos horários das minhas bolinhas de homeopatia. Resultado disso? Uma crise violentíssima do meu até então adormecido lúpus.

Não posso continuar este relato sem falar um pouco da minha doença. Sofro de Lúpus Eritematoso Sistemico (LES) desde os meus 16, 17 anos. Essa doença pentelha me causa muita dor articular, manchas feias pelo corpo, queda de cabelo e uma infinidade de outros incômodos. Dói muito. Muito mesmo.

Além dos sintomas aos quais eu já estava acostumada, dessa vez tive meus músculos atacados, perdi massa muscular, senti muita dor e fiquei muito fraca. Tive uma desidratação violenta, meus rins funcionaram mal, pulmão e coração ficaram debilitados. Eu tinha falta de ar todos os dias, taquicardias assustadoras, sensação de desfalecimento ao mínimo esforço. Tudo isso tendo que cuidar da Isabel sozinha, sem marido, triste como nunca. E amamentando!

Não procurei meu reumatologista porque sabia que ele me mandaria voltar pros remédios fortes que me impediriam de amamentar. Adiei o máximo que eu pude esse retorno. Eu sabia, eu sentia que Isabel precisava ainda mamar. Fui levada às pressas para o hospital por duas vezes, fui atendida na emergência e voltei para casa porque queria continuar amamentando minha pequena. Nesse estágio, amamentar era a única coisa que eu ainda conseguia fazer por ela, pois fraca e sentindo fortes dores, não conseguia mais pegá-la no colo, nem banhá-la, nem a pôr para dormir. Nem nada. Minha família se revezava na minha casa para me ajudar com tudo, absolutamente tudo. Eu não conseguia mais cuidar de mim...ou dela.

Um dia, enquanto ela mamava, senti meu corpo desfalecer. Achei que morreria ali, com minha filha sugando o que restava da minha vida. Rezei baixinho, pedi a Deus que me deixasse ficar um pouco mais aqui na terra. Pedi a Ele que não deixasse minha Isabel sem mãe tão cedo. Eu sabia que ela mamava pedindo a mesma coisa. Eu sabia que o peito, naquela hora, era para ela o desejo de ainda ter mãe.

Eu precisava desmamar. Eu precisava viver.

Foi a decisão mais dura que já tomei. Foi a decisão mais difícil da minha vida. E a mais solitária também. Ninguém entende uma mãe de filha grande que, vendo a morte tão de perto, tem dúvidas sobre voltar a tomar os remédios. Chorei. Minha alma chorou. Desmamei. Abruptamente, como não imaginei que aconteceria nem em pesadelos.

Disse para a Isabel que a mamãe estava muito doente, mas que a mamãe queria ficar boa. Disse que, para ficar boa, a mamãe ia precisar tomar um remédio que estraga o leite. Pedi que ela mamasse pela última vez, para se despedir. Nunca vou esquecer os olhinhos dela me mirando fixamente naquela “última mamada”. Não teve choro, não tivemos testemunhas. Ela esvaziou, pela primeira vez, as duas mamas e me disse “Pronto, mamãe! Pode tomar o remédio.” Eu tomei um comprimido qualquer, apenas para finalizar o ritual.

Essa noite foi difícil. Minha filha chorou muito a noite toda pedindo o peito. Pedindo para “beber mamá”. Eu chorava no meu quarto. Chorava a dor no corpo, chorava a injustiça de não poder amamentar. Chorava o peito que transbordava de um leite que não podia ser da minha filha. Chorava o medo da morte. Choramos as duas por toda aquela dura noite.

No dia seguinte fui levada ao hospital...dessa vez não saí de lá.

Os primeiros dias no hospital foram de muito sofrimento físico. A dor era tanta, por todo o corpo, que eu não conseguia lembrar direito que tinha uma filha. Lembro de ter implorado a Deus que me levasse. Chega desse sofrimento. Lembro de ter gritado, de ter chorado. Lembro de não melhorar. Lembro que, em algum lugar da minha alma, sentia haver nesse mundo menininha que me chamava de mamãe...e que isso era razão para lutar por uma vida que parecia não querer ser mantida.

Lembro também que comemorei quando finalmente me deram os tais remédios dos quais havia fugido pro tanto tempo. Por uma infeliz ironia, eu agora não conseguia querer outra coisa que não fossem justamente aqueles remédios. Os peitos pareciam tão vazios de leite quanto o corpo estava vazio de vida.

Foi no oitavo dia de internação que aconteceu o inesperado. Eu estava tomando meu café da manhã, sozinha no quarto quando de repente os peitos encheram. Transbordaram ao mesmo tempo! Dois jatos de leite saindo sem parar, me lembrando que eu era mãe, me lembrando que eu era nutriz...cruel lembrança. Esse leite não alimentaria ninguém. Esse leite não servia para nada.

Lágrimas, muitas lágrimas nos olhos e na alma. Ordenhei ali mesmo e enchi dois copos. Me socorreram. Aos prantos, fui levada para a maternidade do hospital, onde ordenhei mais uma mamadeira cheia em cada seio. Tanto leite, tanta fartura...e minha Isabel tão longe de mim.

Foram mais 12 dias internada depois deste único episódio. Vinte dias ao todo. Vinte dias sem ver minha filhinha. Uma amiga me levou uma homeopatia para “secar” o leite. Decidi não tomar. Meu corpo saberia o que fazer.

Quem já passou algum tempo longe dos filhos será capaz de entender a emoção do reencontro. O que ele tem a ver com o meu relato? Nada! Mas não posso deixar de contar que abraçar a minha filha depois daquela longa internação foi como encontrar o paraíso depois de ter estado no inferno. Encontrei uma Isabel tão diferente! Maior, mais falante. Mas ainda assim, minha!

Já em casa, ainda fraca, recuperando-me, tive que lidar com o rostinho da minha Isabel pedindo para mamar. Meu peito sempre cheio, roupas molhadas como se eu fosse uma puérpera. Choro dela, choro meu. Dias duros. Dor doída. Dor profunda que não desejo a ninguém.

Nesse meio tempo meu marido voltou para casa. Estamos até hoje tentando nos reencontrar, tentando reencontrar aquele amor tão lindo que eu sei que está por aqui em algum lugar.  Deve estar só um pouco empoeirado...

Três meses se passaram.

Um dia, passei mal a caminho do trabalho. Quase me arrastando, fui para o serviço médico do meu trabalho. Socorrida, fui orientada a procurar minha médica pois eu estava tendo sintomas de superdosagem de medicamento.

No dia seguinte minha médica me atendeu no hospital. Refez os exames e, surpresa das surpresas, estavam quase todos normais! Milagre? Eu acredito neles! Como meus remédios são fortíssimos, não podem ser retirados do organismo de uma só vez. Começaríamos o que costumam chamar de “desmame”. Ironia semântica...

Cheguei em casa e Isabel já dormia. Quando ela me viu no dia seguinte, perguntou imediatamente “Mamãe, já posso mamar?”

-Não sei, minha filha. Vou perguntar para a minha médica.

Poder, não podia. Dos sete medicamentos que eu ainda tomava, havia um sobre o qual não havia estudos relativos à amamentação. Seria arriscado, não se sabe o que aconteceria. Pedi para parar de tomar aquele remédio.

A médica, mesmo sem entender minha insistência, disse que poderíamos adiar (desde que não por muito tempo) aquela parte do tratamento. Foi com lágrimas nos olhos e calor na alma que recebi aquela notícia. Guardei segredo.

Na tarde do dia primeiro de fevereiro de 2013, estávamos só nós duas em casa. Isabel de banho tomado, dente escovado, pronta para dormir. “Mamãe, posso mamar?”

-Pode, minha filha!
-De verdade?!?!?!
-De verdade! A médica deixou.

Ela abriu minha blusa lentamente. Olhou meu seio demoradamente, acariciou...olhou para mim e sorriu. “Vai, filha! Mama!” Ela beijou o mamilo. Encostou a boquinha e me perguntou “Pode mesmo?” “Pode, meu amor!”

Foi um recomeço desajeitado...aquele tempo sem mamar fez com que ela esquecesse como se faz. Pela primeira vez nas nossas vidas, a pega estava errada. Doeu! Trinquei os dentes, fechei os olhos. Essa dor é fácil suportar!

Não sei quanto tempo ficamos ali deitadas. Sei que era dia quando começamos e noite quando ela, já dormindo, largou o peito. Quem se importa com horas, minutos? Como se preocupar com o tempo quando aquele seio há tanto abandonado reencontrou aquela boquinha amada? O cheirinho doce do cabelo molhado da minha Isabel entrando pelas narinas, minha vida novamente circulando para o corpo dela. Meu leite novamente útil! Eu, novamente MÃE.

Esse relato termina sem fim. Espero poder, daqui a pouco (ou muito!) relatar um desmame natural como eu sempre desejei e como minha filha merece. Espero poder dizer que minha doença foi controlada. Por enquanto, só posso dizer que minha filha reaprendeu a mamar. As feridas ainda existem nas nossas almas e na nossa memória, mas estão se curando.

Aos críticos, digo apenas que nós duas sabemos que a amamentação ainda é necessária. Mamando, minha filha supera a longa ausência da mãe dela. Mamando, recuperamos um tempo perdido. Mamando seguiremos até onde der...ou até que não precisemos mais.

terça-feira, 16 de dezembro de 2014

Alimentos, chás ou homeopatias podem aumentar o leite?

Por Fernanda Rezende Silva e Zioneth Garcia

É muito comum ouvir mães pedindo dicas de alimentos, chás ou remédios homeopáticos para aumentar a produção de leite. Você já deve ter ouvido várias dessas dicas de amigas, tias, vizinhas, mas as evidências científicas sugerem que menos de 1% das mulheres obtêm o efeito desejado ao consumir tais medicamentos, alimentos, chás ou homeopatias para aumentar a produção de leite. Muitas vezes o que acontece é o efeito placebo, melhora a confiança da mãe, o bebê suga mais e aí sim, a produção realmente aumenta: por isso algumas mulheres podem ter a sensação de funcionar e outras não.
Sabemos que o corpo humano é uma máquina inteligente, e por isso não desperdiça recursos. Quando você está com fome, uma das primeiras coisas que acontece é você ficar desanimado, perder o pique para continuar a atividade que estava fazendo, certo? Isso é o equilíbrio do corpo humano: ele sabe que está faltando energia então te força a entrar num estado de "economia" - enquanto você estiver com fome não terá pique mesmo para continuar trabalhando, correndo ou estudando, e isso é maravilhoso - só prova que seu corpo está funcionando direitinho.
Com a produção de leite materno acontece a mesma coisa: o corpo sabe que na produção de leite se gasta muita energia, então ele verifica continuamente como está a demanda -> só vai produzir o que for realmente necessário. Quando a mulher toma algum medicamento que de fato lhe cause o esperado (e pouco provável) efeito sobre aumento da prolactina (hormônio que controla a produção de leite) ela pode perceber um aumento da produção, mas ao mesmo tempo o corpo estará trabalhando no sentido inverso: ele identifica que não existe uma demanda tão grande então se esforça para voltar ao nível de produção normal. Quando o medicamento é consumido de forma rotineira, o corpo da mulher se vê obrigado diminuir a produção da prolactina natural para manter o equilíbrio geral contando com a fonte externa, por essa razão também é comum ter uma queda brusca dos níveis de prolactina e sensação de “peito seco” após parar abruptamente o consumo de algumas medicações.
A sucção correta do bebê (ou seja, sem interferência de bicos artificiais) é o que realmente estimula o peito da mãe e é dessa forma que se pode aumentar a produção de leite: quanto mais estímulo maior será a produção! Medicamentos e alimentos sozinhos não vão aumentar a produção de leite materno: na melhor das hipóteses eles aumentariam temporariamente a prolactina, até o corpo equilibrar novamente a produção conforme a oferta, mas se a sucção se mantém no mesmo ritmo é inevitável que a produção volte ao ponto inicial.
Ao entender que a produção de leite materno acontece conforme a demanda parece óbvio que as mães de bebês que usam chupeta são as que mais reclamam da falta de leite. O bebê nasceu "programado" para sugar conforme a sua necessidade - ao transferir parte desta sucção para a chupeta, o bebê mama menos o peito,  e aí o corpo da mãe ajusta a produção à demanda, pois entende que realmente pode produzir menos leite.
Para finalizar a reflexão: será que você precisa mesmo aumentar a produção de leite? O texto abaixo fala sobre a sensação de pouco leite -> a mãe está produzindo exatamente a quantidade de leite que o bebê precisa mas mesmo assim se sente insegura: http://grupovirtualdeamamentacao.blogspot.com.br/2014/08/sensacao-de-pouco-leite.html

Dica de leitura: porque bicos artificiais realmente atrapalham a produção de leite materno: http://grupovirtualdeamamentacao.blogspot.com.br/2014/07/mamadeira-contem-substancia-que-seca-o.html
Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...